Como a oposição justifica protesto antigoverno na pandemia

Movimentos convocaram manifestações presenciais em todo o Brasil para pedir impeachment num momento em que as contaminações pela covid-19 estão em alta

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A oposição ao governo federal realiza neste sábado (29) uma série de protestos pelo impeachment de Jair Bolsonaro. Há expectativa de manifestações em 110 cidades. É a convocação mais ampla contra o presidente desde o início da pandemia de covid-19, em março de 2020.

Além do afastamento de Bolsonaro, os organizadores dos atos pedem ainda o retorno do auxílio emergencial de R$ 600, o fim da violência contra a população negra e a vacinação e a testagem em massa contra o novo coronavírus.

Os protestos trazem consigo o dilema de sair à rua num momento em que aglomerações são desaconselhadas por autoridades de saúde, sob o risco de espalhamento da doença que já matou mais de 450 mil brasileiros. É um dilema que já apareceu em protestos antifascistas e em atos contra a violência policial e contra o racismo realizados anteriormente em algumas capitais.

Enquanto os protestos da oposição são permeados por esse debate, apoiadores do governo mantêm manifestações constantes. Elas são marcadas por pedidos de ruptura institucional e negacionismo contra a gravidade da pandemia. Bolsonaro costuma prestigiá-las sem usar máscara.

A decisão de realizar manifestações na rua

Para além de atos pontuais antifascistas e contra o racismo já realizados por opositores do governo na pandemia, houve panelaços e carreatas contra o presidente. Nos últimos meses, a ideia de manifestações presenciais mais amplas ganhou força.

“A grande contradição para a esquerda é como fazer atos de impacto e ao mesmo tempo manter o isolamento social. Não é um tema simples. Temos que ter muita cautela. Tem uma militância querendo ir para a rua, muita gente indignada. É difícil falar para ir ou não”, afirmou João Paulo Rodrigues, dirigente do MST, ao jornal Folha de S.Paulo.

A decisão de realizar os protestos no sábado (29) em meio a um novo agravamento da pandemia fez com que organizações como a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) apoiassem os atos de forma comedida: sem convocar seus integrantes para participar.

Partidos de esquerda, apesar de estarem chamando militantes para os protestos, também ficaram reticentes em apoiar os atos e se eximem da responsabilidade pela organização, que ficou a cargo dos movimentos Povo sem Medo, Brasil Popular e Coalizão Negra por Direitos.

Os protestos de sábado (29) vão acontecer menos de uma semana depois da participação de Bolsonaro em um ato de motociclistas em seu apoio no Rio de Janeiro, que foi muito criticado pela oposição pelas aglomerações e pela ausência do uso de máscaras.

Os riscos para quem vai às manifestações

Apoiadores das manifestações são críticos às aglomerações incentivadas por Bolsonaro e podem ser acusados de praticar dois pesos e duas medidas. Mas Raphael Guimarães, sanitarista e pesquisador da Fiocruz, diz que as situações são diferentes.

“[Bolsonaro] não apenas proporcionou a aglomeração de pessoas em torno de sua passeata de motos, como reuniu muitos exemplos de má conduta”, disse o médico ao Nexo. “Utilizou, em última análise, recurso público, no mínimo para a logística das ruas, para um ato com tom de comício eleitoral. Além disso, não possuía uma pauta de manifestação legítima, apenas conduziu apoiadores a se manifestar a seu favor.”

As reivindicações das manifestações de sábado (29) dão voz à sociedade civil por um bem coletivo, segundo o epidemiologista. “É preciso reconhecer que existe uma relação entre nossos medos sobre a pandemia e nossas ansiedades políticas, e é difícil articular isso”, disse.

A epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo Ethel Maciel também diz que não é possível comparar as manifestações governistas às opositoras. “Se as pessoas estão sem máscara e se as pessoas estão com máscara, o risco é diferente. Se as pessoas estão aglomeradas pegando umas nas outras, é diferente do que uma manifestação em que as pessoas não estão se tocando”, disse ao Nexo.

“As pessoas estão pegando o transporte coletivo lotado, estão em seus locais de trabalho sem minimização de riscos, sem nenhuma mudança de protocolos. Precisamos pensar nesse contexto social todo. Esses trabalhadores que estão indo em locais que têm muito risco devem ir à manifestação? Essa manifestação vai trazer mais riscos do que aqueles que eles correm normalmente?”

Ethel Maciel

epidemiologista e professora de saúde pública em entrevista ao Nexo

A pesquisadora na Fundação Getulio Vargas Carolina Coutinho afirmou ao Nexo que é um momento muito delicado para se manifestar, porque muitas cidades continuam com números muito altos de casos e óbitos e ainda há em média cerca de 2.000 mortos por dia de covid-19 no Brasil.

“Não custa nada lembrar que toda vez que a gente se expõe a qualquer possibilidade de infecção, qualquer lugar que tenha aglomeração ou número grande de pessoas, não estamos só nos colocando em risco, mas também as pessoas com quem a gente convive”, disse.

No Twitter, o cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt, coordenador da Rede de Análise da Covid-19, afirmou que o problema da manifestação não é “só o contágio dos manifestantes (que irá ocorrer, pois situações inesperadas acontecem). É que esse estouro [nos números da covid] está programado para acontecer com ou sem manifestação, e aí adivinha quem será o 'culpado' pelo estouro?”

As justificativas de quem vai protestar

O coordenador da frente Povo sem Medo, Guilherme Boulos, do PSOL, afirmou em um vídeo publicado em suas redes sociais que Bolsonaro é o responsável por obrigar a população a se manifestar nas ruas. “Eu me sinto obrigado no próximo dia 29 a estar nas ruas, de máscara, tomando todos os cuidados, mas sabendo que esse é o caminho para poder evitar mais mortes”, disse o político no vídeo.

30%

dos brasileiros afirmam que estão totalmente isolados ou saem de casa somente quando inevitável, segundo o Datafolha de 17 de maio

Nas redes sociais, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) afirmou que, por recomendação médica, não irá à manifestação, mas justificou seu apoio afirmando que, “quando o governo é mais perigoso que o vírus, é necessário tomar as ruas para derrotá-lo”.

Já o advogado Pedro Abramovay, diretor da Open Society Foundations para América Latina e Caribe, afirmou que “se tivéssemos ido às ruas em agosto, talvez Bolsonaro tivesse aceitado as vacinas da Pfizer. Centenas de milhares de vidas teriam sido salvas. Ir às ruas é arriscado. Não ir pode ser mais. Se for, use máscara”.

A presidente da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), Rozana Barroso, e o presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Iago Montalvão, convocaram por meio das redes sociais os estudantes a participar das manifestações.

“Com 20% de cortes orçamentários, os Institutos Federais, CEFETS e o Colégio Pedro II só funcionarão até setembro desse ano, como a gente já previa. A rede de Federais ta ameaçada como nunca vi. Vamos às ruas em defesa da educação no dia 29, não dá mais!”, escreveu Barroso.

O estudo nos protestos de 2020 nos EUA

Após o assassinato de George Floyd em maio de 2020 nos EUA, uma série de protestos contra o racismo e a violência policial irromperam no mundo. Dois meses depois, uma equipe de economistas da organização americana National Bureau of Economic Research publicou um artigo com resultados de uma pesquisa que analisava a incidência de covid-19 nos manifestantes.

Baseada em dados de teste de covid-19 nas cidades mais populosas dos EUA que abrigaram as manifestações, os pesquisadores não encontraram “nenhuma evidência de que os protestos urbanos reacenderam o crescimento de casos da covid-19 durante mais de três semanas após o início dos protestos”.

Além disso, com base em dados de telefones celulares, os pesquisadores afirmaram no levantamento que, nas semanas seguintes, “as cidades que tiveram protestos viram um aumento no comportamento de distanciamento social da população em geral em relação às cidades que não o fizeram”, levando a “evidências modestas de um pequeno declínio no crescimento de casos de longo prazo”.

Os pesquisadores atribuem esses resultados às medidas de segurança adotadas pelos manifestantes, como uso de máscaras de proteção e distanciamento. Segundo eles, frequentar bares, restaurantes e lojas era mais arriscados à saúde do que protestos ao ar livre.

Os manuais para se manifestar

Para realizar os protestos, as frentes sociais impuseram uma série de regras para evitar que os atos gerem um aumento no número de pessoas contaminadas pelo novo coronavírus. As organizações prometem obedecer protocolos, como a obrigatoriedade do uso de máscaras, que também serão distribuídas durante os atos.

Organizações de profissionais de saúde criaram cartilhas para informar como se manifestar com segurança, e médicos fazem recomendações nas redes sociais para as pessoas irem aos protestos, mas diminuírem o risco de disseminação do vírus. Além disso, páginas foram criadas para orientar os manifestantes a realizar protestos seguros, como a Protesto sem Covid.

Uma das cartilhas que está sendo divulgada em redes sociais e em grupos de WhatsApp recomenda ações pré, durante e após os atos — por exemplo, pede que os manifestantes usem cabelo preso, roupas que cubram o corpo todo e evitem acessórios. Também prevê proteção contra uma possível reação violenta da polícia.

“Se você for levar magnésio ou qualquer outro artifício para diminuir a ardência do gás lacrimogêneo, não compartilhe frascos”

cartilha de cuidado nas manifestações em tempos de pandemia do Centro Acadêmico da Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos

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