Por que o país poderia vacinar antes, segundo o chefe do Butantan

Dimas Covas depõe na CPI e diz que governo federal perdeu oportunidade de ser ‘pioneiro’ na imunização contra a covid não fossem as declarações de Bolsonaro contra a Coronavac

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A CPI da covid-19 no Senado ouviu nesta quinta-feira (27) Dimas Covas, médico e diretor do Instituto Butantan, em São Paulo, por cerca de sete horas. Covas falou sobre a falta de respostas do governo federal na compra de vacinas e afirmou que o Brasil poderia ter sido pioneiro na imunização.

O diretor do Butantan é braço direito do governador João Doria (PSDB) no combate à pandemia em São Paulo. Doria foi eleito em 2018 usando o nome de Jair Bolsonaro. Com pretensões de disputar o Palácio do Planalto em 2022, o tucano acabou virando rival do presidente.

Desde o início de maio, os senadores da CPI têm ouvido autoridades para apurar as ações e omissões da gestão do presidente Jair Bolsonaro na crise sanitária, além de repasses federais a estados e municípios.

Com uma das piores respostas à pandemia no mundo, o Brasil soma mais de 452 mil mortes pela covid-19 e executa uma campanha de imunização que até quinta-feira (27) havia aplicado uma dose em pouco mais de 20% da população e as duas doses necessárias para a imunização em apenas 10% dos brasileiros.

O Butantan, liderado por Covas, é um dos principais fornecedores de vacinas ao governo federal, sendo responsável pela fabricação do imunizante Coronavac. Desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac, o imunizante representa cerca de 65% das doses aplicadas no país.

A seguir, o Nexo destaca os principais pontos do depoimento de Dimas Covas à comissão, cujos trabalhos devem durar inicialmente 90 dias.

A primeira oferta ao governo. E a ruptura

Dimas Covas revelou que a primeira oferta da vacina Coronavac foi feita ao governo federal em julho de 2020. A proposta previa 60 milhões de doses, que seriam entregues até o último trimestre do ano. Não houve resposta por parte do Ministério da Saúde.

Em outubro, segundo ele, uma nova oferta foi feita, de 100 milhões de doses. Desse total, 45 milhões seriam entregues até dezembro de 2020, 15 milhões até fevereiro de 2021 e as outras 40 milhões até o final de maio.

Dimas Covas afirmou que houve interesse do Ministério da Saúde na oferta feita em outubro. As negociações caminharam bem até o dia 21 daquele mês, quando o presidente Jair Bolsonaro se manifestou publicamente afirmando que a Coronavac não seria comprada e incorporada ao PNI (Programa Nacional de Imunizações). “Com a falta de contrato, ficamos com incertezas sobre o projeto.”

De acordo com Covas, diante da declaração pública do presidente, a venda de doses da Coronavac começou a ser negociada com estados e municípios. As tratativas locais foram interrompidas em janeiro de 2021, quando o imunizante foi finalmente adotada pelo governo federal no PNI.

Na versão de Covas, portanto, a posição pública de Bolsonaro atrasou as negociações em três meses. Quando prestou depoimento à CPI em 19 de maio, Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, disse que as declarações do presidente contra a Coronavac “eram coisas de internet”, e que não tinham afetado a política pública do governo.

Brasil ‘poderia ter sido pioneiro’

“O Brasil poderia ter sido o primeiro país do mundo a vacinar”, afirmou Covas na comissão. Segundo ele, 5 milhões de doses da Coronavac estavam prontas em dezembro de 2020, e o país poderia ter sido pioneiro no combate à pandemia, aplicando doses antes mesmo do Reino Unido, que começou a administrar vacinas no dia 8 de dezembro.

Covas afirmou que os entraves com o governo federal e a dependência da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) na aprovação do uso emergencial da vacina fez com que o país perdesse a oportunidade.

O diretor do Butantan estimou que, caso as negociações tivessem sido feitas mais cedo, 50 milhões de brasileiros teriam recebido as duas doses da vacina até julho de 2021, levando em consideração apenas a Coronavac. Até 27 de maio, cerca de 21 milhões de pessoas receberam a imunização completa, considerando todas as vacinas.

“O Brasil poderia ser o primeiro país do mundo a começar a vacinação, se não fossem os percalços, tanto de vista de contrato como regulatório”

Dimas Covas

Diretor do Instituto Butantan, em depoimento à CPI da covid no Senado Federal

A Anvisa autorizou o uso emergencial da Coronavac apenas em 17 de janeiro de 2021, junto com o aval dado também apara a vacina de Oxford, desenvolvida pelo laboratório anglo-sueco Astrazeneca e produzida no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde.

À época do aval da Anvisa, a agência afirmou que a demora na aprovação se deu por lacunas na documentação fornecida pelo Butantan.

Segundo Covas, a demonstração de intenção de compra de uma vacina antes da aprovação da Anvisa não só poderia ser feita, como de fato foi: em agosto de 2020, o governo federal iniciou tratativas para a compra do imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca.

O Brasil também poderia ter despontado na vacinação com o imunizante da farmacêutica Pfizer, segundo Carlos Murillo, CEO da empresa na América Latina.

Em depoimento à CPI no dia 13 de maio, Murillo afirmou que a companhia queria que o Brasil fosse vitrine da vacina no continente, mas que o governo recusou mais de uma oferta feita.

A hostilidade à China e a compra de insumos

De acordo com Covas, a compra de insumos da China substâncias necessárias para produzir os imunizantes no Brasil foram atrapalhadas por declarações feitas por membros do governo federal. Em 6 de maio de 2021, Bolsonaro sugeriu que o coronavírus teria sido criado em laboratório para beneficiar a economia chinesa.

“É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou nasceu porque um ser humano ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? Qual o país que mais cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês”, disse o presidente brasileiro, nas redes sociais.

Para o diretor do Butantan, as negociações com o país asiático teriam sido muito mais simples e rápidas se não houvesse declarações do tipo e se o governo adotasse uma “postura pragmática”.

Covas afirmou que os atrasos na chegada de insumos devem impactar toda a cadeia produtiva da vacina. “Ainda não temos uma programação para dizer se cumpriremos até 30 de setembro esse contrato [de entrega de 54 milhões de doses ao governo federal, montante que completa a primeira rodada de negociações].”

Em depoimentos anteriores, membros do governo negaram a possibilidade de que atritos com a China tenham atrapalhado as negociações.

“Acho que nenhum desses atos do presidente prejudicaram nossas relações”, afirmou o ex-chanceler Ernesto Araújo no dia 18 de maio. Pazuello e o ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten também foram na mesma linha.

As aglomerações de Bolsonaro

“Evidentemente”, respondeu Dimas Covas quando questionado pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) se as aglomerações promovidas pelo presidente Jair Bolsonaro ao longo da pandemia resultaram em um aumento de casos de covid-19 e, consequentemente, de mortes.

“As políticas de isolamento são a principal arma de combate a pandemias, desde a Antiguidade”, disse Covas. “É preciso quebrar a cadeia de transmissão, e entender as medidas não farmacológicas para barrar a doença.”

Jereissati pediu, então, para que o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), inclua no relatório final da CPI a afirmação de que Bolsonaro deliberadamente promoveu o avanço da covid-19 no país fala que o parlamentar atribuiu a si mesmo.

Os baixos índices de isolamento e distanciamento social indicam que a covid-19 deve ganhar força no Brasil nos próximos meses.

“Estamos num momento tudo indica que teremos de novo um recrudescimento, um recrudescimento agora turbinado por algumas variantes que estão circulando entre nós”

Dimas Covas

Diretor do Instituto Butantan, em depoimento à CPI da covid no Senado

Falta de investimentos federais

Durante a oitiva, Covas afirmou que o Instituto Butantan não recebeu “um real” do governo federal em 2020, mesmo diante da emergência da pandemia. O diretor da instituição disse que fez um requerimento de R$ 80 milhões para a reforma de uma das fábricas do Butantan, que permitiria a fabricação do Ingrediente Farmacêutico Ativo no Brasil.

As obras estão acontecendo, porém o custo está sendo financiado pela iniciativa privada. A expectativa é que a reforma seja encerrada até o final de 2021.

Covas também afirmou que o governo não fez nenhum investimento para o desenvolvimento da vacina. “Em nenhum momento a falta de recursos do governo federal emperrou a vacina. Não contamos com recursos federais”, disse. O repasse de verbas federais para o Butantan era praxe em governos anteriores.

O médico também destacou que a Fundação Oswaldo Cruz, ligada ao Ministério da Saúde, recebeu R$ 1,9 bilhão para acelerar a fabricação da vacina de Oxford/AstraZeneca.

Esclarecimentos sobre efetividade

Durante o depoimento, Dimas Covas respondeu perguntas sobre a eficiência da Coronavac. O senador governista Eduardo Girão (Podemos-CE) afirmou ter recebido “diversos relatos” de pessoas que foram infectadas pelo coronavírus e que desenvolveram casos sérios da doença mesmo depois de terem recebido duas doses do imunizante.

Girão chegou a citar o nome do ator Stênio Garcia, da TV Globo, para ilustrar sua fala. Garcia realmente foi infectado, mas a contaminação ocorreu poucos dias depois da administração da segunda dose, quando o corpo ainda não tinha criado imunidade.

Covas explicou que nenhuma vacina impede a infecção, mas sim as manifestações clínicas da doença, e que fatores individuais de cada pessoa influenciam na reação do corpo ao vírus. O médico também ressaltou que há diferença entre percentuais de eficácia e percentuais de efetividade em uma vacina.

A eficácia garante o cumprimento do papel da vacina em um ambiente ideal, com variáveis controladas. É aquilo que é testado durante o desenvolvimento do imunizante, com pessoas saudáveis e que são completamente acompanhadas pelos pesquisadores. A eficácia geral da Coronavac é de 50,7%.

Já a efetividade é o desempenho da vacina no mundo real, quando não há a possibilidade de controle de variáveis e fatores individuais diversos entram em jogo. A efetividade da Coronavac entre idosos com mais de 70 anos vai de 61% a 28%, dependendo da idade. Dados sobre a efetividade em pessoas mais jovens ainda não foram divulgados.

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