Como o depoimento de um ex-assessor expõe Boris Johnson

Em fala ao Parlamento britânico, ex-braço direito do premiê relata negacionismo de primeiro-ministro na pandemia e diz que negligência resultou em ‘dezenas de milhares de mortes’

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Em um depoimento de mais de sete horas no Parlamento britânico, Dominic Cummings, ex-estrategista político do premiê Boris Johnson, revelou nesta quarta-feira (26) os bastidores de uma série de decisões que, segundo ele, foram desastrosas na gestão da pandemia no Reino Unido.

Cummings disse que “dezenas de milhares” de pessoas perderam suas vidas de forma desnecessária por causa da má gestão da crise. De acordo com ele, Johnson agiu de maneira irresponsável e incompetente, com base em atitudes negacionistas, e deve ser investigado por uma comissão parlamentar de inquérito que o governo tenta a todo custo postergar.

As declarações tiveram grande repercussão dentro e fora do país, estampando a primeira página de todos os jornais locais. No dia seguinte, quinta-feira (27), Johnson deu uma entrevista à TV, confrontando as falas do ex-assessor. “Alguns dos comentários não guardam nenhuma relação com a realidade”, disse o premiê sobre o depoimento de Cummings.

O premiê não rebateu, entretanto, as afirmações de Cummings ponto a ponto. O jornal britânico The Guardian considerou que Johnson foi generalista na entrevista e evitou duas coisas: intensificar o confronto com o ex-assessor, para assim tentar colocar um ponto final do assunto, e negar informações que Cummings poderia ter condições de provar mais adiante, uma vez que participava do círculo restrito de pessoas envolvidas nas decisões.

O Reino Unido é o sétimo país do mundo em número absoluto de contaminados pela covid-19 (4.486.168) e o quarto em número de mortos (128.010), nos dados computados até quinta-feira (27). Apesar do começo desastroso na pandemia o país chegou a ser o epicentro europeu da doença a vacinação rápida e relativamente bem sucedida amenizou as críticas ao governo em 2021. Até essa data, 56% da população britânica já tinha tomado pelo menos uma dose do imunizante.

O depoimento de Cummings ocorre no momento em que Johnson parecia ter superado a fase mais difícil da desconfiança em relação à gestão que seu governo fez da pandemia. A fala do ex-assessor agora deve fortalecer os argumentos da oposição, que tenta abrir investigações formais no Parlamento.

As revelações de Cummings podem ser divididas em quatro partes. Muitas delas guardam semelhanças com comportamentos negacionistas que também foram adotados pelo governo brasileiro, reforçadas por revelações que vêm sendo feitas pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado.

Apenas uma gripezinha

Cummings acusa Johnson de ter menosprezado a gravidade da covid-19 no início da pandemia. O primeiro-ministro teria, segundo ele, comparado a doença à catapora e à gripe suína, que são muito menos perigosas.

O premiê teria discutido com assessores a ideia de incentivar a população a fazer uma “festas de catapora” expressão que se refere a estimular o convívio social para acelerar a propagação do vírus da covid-19. A ideia, naquele momento, era levar o país rapidamente a uma situação de “imunidade de rebanho”.

Imunidade de rebanho

A imunidade de rebanho, ou coletiva, é a ideia de que ao contaminar entre 43% e 60% de uma determinada população, de acordo com diferentes estudos, o vírus perderia força. Isso não vem sendo verificado na prática, e de qualquer forma seria um processo que resultaria em um número elevado de mortes.

Commuings diz que a ideia da livre contaminação do vírus chegou a ser defendida por conselheiros de Johnson no Reino Unido. Até agora, sabia-se que a posição britânica tinha sido ambígua. O principal consultor científico do governo, Patrick Vallance, falava em gerenciar a situação para tornar a população imune, mas quando a imprensa dizia que a aposta era claramente numa “imunidade de rebanho”, o governo dizia que Vallance tinha sido “mal interpretado”.

O ex-assessor de Johnson assegura que o governo deixou a contaminação correr solta num primeiro momento, mas, quando percebeu que o número de internados em UTI e o número de mortos tornaria-se inadministrável, acabou abortando a ideia.

Auto-contaminação de Johnson

Uma das revelações mais bombásticas feitas por Cummings é a de que Johnson teria cogitado se inocular com o vírus ao vivo, na TV, “para que todos percebam que não há nada para se temer".

A ideia teria sido proposta pelo premiê ao diretor médico do Reino Unido, Chris Whitty, mas não foi levada adiante. Em abril de 2020, entretanto, o premiê acabou contraindo o vírus. Internado num hospital público, Johnson deu a impressão de ter tomado um susto maior do que pensava com a doença, o que marcou uma mudança de discurso e nas ações de seu governo.

Contra o lockdown

O ex-estrategista de Johnson também disse que o premiê evitou a todo custo decretar lockdown, temendo o impacto negativo da medida na economia. Em março de 2020, o Reino Unido foi um dos últimos países europeus a mandar fechar escolas. Em seguida, apostou no que se chamava “isolamento vertical”, apenas para as pessoas com comorbidades.

Cummings conta que, a portas fechadas, Johnson dizia querer ser “o prefeito de Tubarão”, em referência ao personagem do filme de Steven Spielberg que reluta em fechar a praia da cidade para banhistas, contrariando os apelos de um chefe de polícia, que teme os ataques do animal aos banhistas.

A relação de Johnson e Cummings

Cummings e Johnson foram aliados muito próximos a partir de 2016, quando ambos estiveram do mesmo lado na campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit.

Ele participou do governo de Johnson até novembro de 2020. Sua saída esteve ligada a disputas internas no interior do Partido Conservador, do qual ambos fazem parte.

Em maio de 2020, Cummings envolveu-se num escândalo político, quando foi flagrado viajando de carro para visitar parentes, durante a vigência de um lockdown. Agora, o ex-estrategista lança sobre o premiê britânico as acusações mais graves desde o início do governo Johnson, em julho de 2019.

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