A tentativa de criar uma vacina anticovid à base de tabaco

Imunizante vai ser testado no Brasil. Iniciativa inclui empresa farmacêutica ligada à indústria do cigarro

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As farmacêuticas canadense Medicago e britânica GSK tentam viabilizar uma vacina contra a covid-19 que tem como matéria-prima uma planta. O imunizante, que tem um método singular de produção, é feito com a nicotiana benthamiana, uma espécie selvagem relacionada ao tabaco.

Os estudos das fases 1 e 2 de ensaios clínicos mostraram que a CoVLP, como a vacina foi batizada, pode produzir níveis promissores de anticorpos. Os testes estão na fase 3 (última etapa do processo de desenvolvimento de uma vacina) e estão sendo realizados desde março de 2021 na América do Norte e na Europa.

No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou em abril a realização de testes, que devem começar em julho.

A CoVLP prevê a administração de duas doses, com um intervalo de 21 dias entre a primeira e a segunda. Como não demanda refrigeração especial, ela pode ser mantida até três meses em uma geladeira comum.

A tecnologia para a produção do imunizante é diferente das utilizadas pelas outras farmacêuticas que estão desenvolvendo vacinas contra a covid-19: o tabaco selvagem é usado para produzir partículas que se parecem com o coronavírus.

A tecnologia da nova vacina

A CoVLP utiliza uma tecnologia chamada de partícula pseudoviral (virus-like particle, em inglês), ou VLP. As plantas são usadas como biorreatores para imitar a estrutura nativa do vírus e criar versões não infecciosas dele. Como não é um vírus real, a VLP não pode causar doenças e é incapaz de se replicar.

Apesar disso, as VLPs são facilmente reconhecidas pelo sistema imunológico e conseguem mostrar a ele como são as proteínas do novo coronavírus para que ele produza anticorpos.

Nos EUA, as primeiras vacinas VLP foram aprovadas na década de 1980 e usadas contra a Hepatite B. A maior descoberta sobre imunizantes do tipo, no entanto, aconteceu nos anos 2000, quando foram licenciadas duas vacinas contra o HPV usando essa tecnologia.

As VLPs não são necessariamente feitas a partir de plantas. Elas podem ser produzidas utilizando células de insetos, bactérias recombinantes e até fungos.

Atualmente, a nicotiana benthamiana é o hospedeiro experimental mais utilizado em virologia de plantas, principalmente graças ao grande número de vírus que podem infectá-la com sucesso, segundo um estudo publicado pela revista Physical Review. Além disso, ela cresce muito rapidamente e, segundo os cientistas, é fácil de trabalhar.

Segundo a Medicago, empresa que tem como acionista a Philip Morris, multinacional que produz cigarros como o Marlboro, o processo de produção da CoVLP é barato, fácil e rápido.

“Eliminamos a necessidade de criar todo o vírus em laboratório, silenciá-lo e depois ainda ter que desenvolver um envelope para usá-lo no imunizante. A CoVLP utiliza uma estratégia muito inteligente, que dispensa uma série de etapas feitas na produção tradicional de vacinas”, comunicou a empresa.

As cinco etapas de produção da vacina CoVLP

  • Síntese: pesquisadores sintetizam e introduzem a sequência do gene viral em um vetor bacteriano capaz de transferir material genético apenas para plantas
  • Infiltração: as plantas são submersas em uma solução contendo o vetor. Um vácuo é aplicado, forçando a absorção do vetor pela planta
  • Incubação: o maquinário celular da planta atua como uma minifábrica durante quatro a seis dias e produz partículas semelhantes ao vírus, os chamados VLPs
  • Colheita: as plantas são colhidas para delas serem extraídas as VLPs - as folhas são removidas e misturadas em uma solução, da qual o material da vacina é isolado e extraído
  • Purificação: as VLPs são purificadas para se obter o material final necessário para a vacina

Uma outra vacina contra o novo coronavírus que utiliza o tabaco selvagem como matéria-prima está em desenvolvimento pela empresa de biotecnologia Kentucky BioProcessing, subsidiária americana da British American Tobacco (que fabrica cigarros como o Lucky Strike).

A empresa já usou essa técnica para fazer um medicamento chamado Zmapp contra o Ebola. O imunizante contra a covid-19 está ainda na fase 1 de testes.

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