Qual a cronologia científica da cloroquina na pandemia

Remédio contra a malária ganhou destaque após pesquisa fraudulenta e foi abandonado por principais entidades de saúde

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Mais de um ano e dois meses após o início da pandemia do novo coronavírus, o uso da cloroquina por pacientes com covid-19 continua sendo orientado pelo Ministério da Saúde e divulgado pelo presidente Jair Bolsonaro. A aposta do governo federal num tratamento ineficaz é um dos temas centrais investigados pela CPI da Covid no Senado, que nesta terça-feira (25) ouvirá a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde da pasta, Mayra Pinheiro. Ela é conhecida como “Capitã Cloroquina”, pela defesa que faz do medicamento.

Superado em outros países, o tema é debatido no Brasil desde março de 2020, quando o Ministério da Saúde estabeleceu um protocolo para o seu uso em pacientes em estado grave. Desde maio do mesmo ano, o governo mantém uma orientação para o uso também em casos leves e moderados. Essa orientação permanece válida apesar das principais entidades de saúde do mundo alertarem para a ineficácia e os riscos à saúde da substância.

Bolsonaro defende a cloroquina para encorajar as pessoas a saírem de casa, numa estratégia que prioriza a atividade econômica em detrimento da saúde pública.

A seguir, o Nexo mostra como a cloroquina surgiu como uma opção de tratamento no início da pandemia, o que as pesquisas apontaram nos meses seguintes, e a insistência do governo federal no medicamento.

Quando a cloroquina entrou no radar

A cloroquina é uma substância sintética desenvolvida na Alemanha ainda na década de 1930 como um remédio para a malária. Diferentemente da covid-19, que é uma doença viral, a malária é causada por protozoários, transmitidos para os humanos por picada de mosquito. Uma versão menos tóxica da cloroquina, a hidroxicloroquina, foi criada em 1946 e posteriormente aprovada para uso em pacientes também com lúpus e artrite reumatóide.

Em relação à covid-19, os primeiros testes para combater a infecção viral com a cloroquina foram feitos na China, logo após a descoberta do novo coronavírus na cidade de Wuhan, no final de 2019. O vírus era totalmente desconhecido e houve uma corrida para encontrar uma forma de atacá-lo com remédios já existentes. Resultados de testes in vitro, em células cultivadas em laboratório, foram divulgados em fevereiro de 2020 e mostraram que a cloroquina poderia ter uma atividade potente contra a covid-19.

Os dados preliminares obtidos por pesquisadores chinesas levaram o microbiologista francês Didier Raoult, que já pesquisava o uso de cloroquina associada a outros medicamentos para o tratamento de algumas doenças, a testar o remédio combinado à azitromicina (um antibiótico) em pacientes com covid-19.

Em 16 de março de 2020, apenas cinco dias após a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar a pandemia do novo coronavírus, Raoult divulgou os resultados de um estudo dizendo que 100% dos pacientes haviam se curado da doença com o tratamento. O resultado, porém, excluiu participantes que interromperam o tratamento por náuseas ou decisão própria, que tiveram de ser transferidos para UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e uma morte durante os testes. Além disso, o estudo só media a carga viral, não dizia como os participantes se comportaram em relação aos sintomas, usou um grupo pequeno não escolhido aleatoriamente e não recorreu a um grupo para que os resultados pudessem ser comparados, o que impedia uma conclusão séria.

Apesar dos problemas no estudo, a divulgação dos dados iniciais, que pareciam promissores, ganhou força, principalmente nos Estados Unidos, onde o remédio passou a ser defendido pelo então presidente Donald Trump. Raoult, que passou a responder a um processo disciplinar, só admitiu em janeiro de 2021 problemas no estudo e que a cloroquina não reduz a mortalidade ou agravamento da doença.

Um impulso com Trump

Em 19 de março, o presidente americano chegou a declarar que a cloroquina seria um “divisor de águas”. Ele sugeriu durante uma entrevista que o FDA (agência reguladora dos Estados Unidos) havia aprovado o uso do medicamento contra a covid-19, o que não era verdade até então.

A agência só autorizou o tratamento em 28 de março, e a decisão foi considerada o resultado de uma forte pressão feita pelo presidente. O próprio CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) se viu forçado a publicar diretrizes para a prescrição do medicamento, o que também foi visto com desconfiança por especialistas.

Em 18 de maio, Trump ainda defendia a cloroquina. Ele afirmou que estava tomando o remédio, apesar das indicações que já existiam na época de possíveis riscos, como uma forma de se prevenir da covid-19.

Bolsonaro imita o presidente americano

Em 21 de março, apenas dois dias após Trump falar da cloroquina pela primeira vez, Bolsonaro passou a defender publicamente o remédio. Não demoraria para que o governo agisse em prol do medicamento. Quatro dias após se referir ao assunto, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, divulgou em 25 de março, numa entrevista, que a pasta havia preparado um protocolo para pacientes graves hospitalizados. O uso deveria ser restrito ao ambiente hospitalar, devido aos riscos de provocar arritmia.

Ainda em março de 2020, Bolsonaro anunciou em suas redes sociais ter zerado o imposto de importação da cloroquina e da azitromicina, a distribuição inicial de 3,4 milhões de unidades de cloroquina e hidroxicloroquina aos hospitais e a ampliação da produção de cloroquina pelos laboratórios químicos da Forças Armadas no Rio de Janeiro.

Em julho de 2020, o presidente foi diagnosticado com a covid-19 e disse ter feito uso do remédio. Por várias oportunidades, o presidente exibiu a caixa da cloroquina para apoiadores e fez propagandas em transmissões pela internet.

A ampliação do uso no Brasil

Em 24 de abril, embora tenha autorizado o uso da cloroquina, o FDA divulgou um alerta sobre os riscos da substância. Segundo a agência, a droga poderia interferir nos batimentos cardíacos e deveria ser usada exclusivamente em estudos clínicos e em hospitais onde o paciente poderia ser monitorado de perto por um médico.

No Brasil, o presidente Bolsonaro buscava expandir seu uso, então restrito para quadros graves. Mandetta e o diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, confirmaram à CPI que o governo estudou mudar a bula da cloroquina para permitir seu uso em pacientes com covid-19, o que não prosperou.

Depois de demitir Mandetta em abril, Bolsonaro pressionou o recém-nomeado Nelson Teich para expandir o uso da cloroquina. Teich afirmou em seu depoimento na CPI, no começo de maio, ter percebido que não teria autonomia sobre o tema. Por isso, pediu demissão.

Cinco dias após a saída do médico do comando da pasta, o Ministério da Saúde, já comandado pelo general Eduardo Pazuello, divulgou, em 20 de maio, um novo protocolo liberando o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para todos os pacientes com covid-19. Na época, estudos ainda estavam em andamento para descobrir se a substância funcionava contra a doença. Especialistas eram cautelosos sobre o tema, pois não havia comprovação de eficácia e já se sabia dos risco de efeitos adversos.

Um estudo invalidado

As discussões sobre a cloroquina foram marcadas por um estudo em maio que acabou sendo invalidado. No dia 22 daquele mês, a conceituada revista médica The Lancet publicou o resultado de um suposto estudo com 96 mil doentes de covid-19 que concluía que o uso de cloroquina e hidroxicloroquina era ineficaz e perigoso. Apenas três dias depois, em 25 de maio, a OMS decidiu suspender as pesquisas que vinha coordenando com os remédios.

Mas algumas inconsistências da pesquisa começaram a aparecer. O estudo usou dados de hospitais comprados de uma empresa que se recusou a abri-los publicamente para sanar algumas dúvidas em relação a sua veracidade. A Lancet acabaria se retratando, em junho, pela publicação do trabalho, que foi invalidado, já que era impossível fazer uma verificação independente dos resultados. Por isso, a OMS decidiu retomar seus estudos.

Os primeiros resultados padrão ‘ouro’

Em 3 de junho, o primeiro grande ensaio clínico controlado com hidroxicloroquina feito por pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, em parceria com cientistas canadenses, com 821 pacientes com covid-19, apresentou seus resultados: não houve diferença significativa entre quem tomou o remédio e quem não tomou. Esse tipo de estudo é considerado o padrão ouro na ciência.

Três dias depois desse resultado, em 5 de junho, cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, divulgaram os resultados de um estudo batizado como Recovery e que testou a hidroxicloroquina em 1.500 pessoas. Eles mostraram também não ter havido qualquer efeito benéfico da substância em pacientes hospitalizados. Por isso, a pesquisa com o remédio seria suspensa a partir dali.

A cloroquina é abandonada

Em 15 de junho, apenas dez dias depois dos resultados do Recovery, o FDA voltou atrás e revogou a autorização para o tratamento de pacientes com o medicamento nos Estados Unidos.

No mês seguinte, a OMS anunciou em 4 de julho que iria interromper novamente os testes que vinha fazendo dentro de um projeto batizado de Solidariedade com a hidroxicloroquina e o lopinavir e o ritonavir, utilizados no tratamento de HIV.

Desta vez, o motivo eram os resultados observados: os medicamentos eram ineficazes. “Resultados provisórios mostram que a hidroxicloroquina e o lopinavir/ritonavir produzem pouca ou nenhuma redução na mortalidade de pacientes com covid-19 hospitalizados, quando comparados ao padrão de atendimento. Os pesquisadores do estudo irão interromper os testes com efeito imediato”, disse a entidade em nota.

A decisão de abandonar o medicamento tomada pela OMS e pelo FDA foi seguida pelo CDC e pelo NIH (Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos). A Associação Médica Europeia e a Associação Europeia de Medicamentos seguiram a mesma linha.

Ao longo dos meses, várias associações médicas se posicionaram da mesma forma. A AMB (Associação Médica Brasileira), a AMIB (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) e as sociedades de infectologia, imunologia, pneumologia e tisiologia, entre outras cerca de 20 entidades no Brasil, já manifestaram posição contrária ao kit de remédios difundido pelo governo do presidente Jair Bolsonaro.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) reafirmou a inexistência de tratamentos precoces contra a covid-19, ao autorizar o uso emergencial de vacinas, em janeiro de 2021. No dia 19 do mesmo mês, o Conselho Nacional de Saúde pediu que o Ministério da Saúde revogasse a nota técnica que orientava o uso da cloroquina e se abstivesse de incentivar o uso de medicamentos sem eficácia e segurança comprovada.

No começo de março de 2021, a OMS voltou a se pronunciar sobre o assunto. Um painel de especialistas da organização divulgou um estudo dizendo que a hidroxicloroquina não deve ser usada para prevenir a covid-19 e não tem efeito significativo sobre pacientes já infectados pelo coronavírus. A “forte recomendação” dos especialistas tem como base as evidências de seis estudos com mais de 6.000 participantes

Segundo o painel, o medicamento “provavelmente aumenta o risco de efeitos adversos” e não deve mais ser considerado uma prioridade de pesquisa.

A insistência no medicamento

Um dos pontos investigados pela CPI da Covid no Senado foi o lançamento pelo Ministério da Saúde, em janeiro de 2021, de uma plataforma chamada de TrateCov. De uso restrito a médicos, ela indicava medicamentos sem eficácia, como a cloroquina, qualquer que fosse o paciente, mesmo criança.

A iniciativa foi desenvolvida por iniciativa de Mayra Pinheiro, segundo Pazuello. Em depoimento à CPI, o ex-ministro disse que o aplicativo vazou ao ser alvo de hackers. Mas os canais oficiais do governo mostram que a plataforma chegou a ser usada. Também em janeiro, o governo federal enviou uma equipe a Manaus para incentivar o uso do que chama de tratamento precoce (uso de uma relação de remédios que inclui a cloroquina), nos dias que antecederam a falta de oxigênio que levou pacientes à mortes no Amazonas.

Até maio de 2021 a orientação da pasta sobre o uso da cloroquina ainda permanecia válida, embora tenha sido tirada do site do ministério às vésperas da CPI. O presidente Bolsonaro continuava incentivando o uso do remédio. Em transmissão ao vivo na quinta-feira (20), ele disse que havia voltado a fazer uso do medicamento.

“Não vou falar o nome para não cair a live. Aquele negócio que o pessoal usa para combater a malária, eu usei lá atrás e no dia seguinte tava bom. E vou dizer mais: há poucos dias estava me sentindo mal e, antes mesmo de procurar o médico... Olha só que exemplo estou dando: tomei depois aquele remédio porque estava com sintoma. Tomei, fiz exame, não estava [doente]. Mas, por precaução, tomei”

Jair Bolsonaro

em live na quinta-feira (20), sobre ter voltado a tomar cloroquina

Pazuello afirmou na CPI que a decisão do ministério em manter as orientações se baseia na recomendação do Conselho Federal de Medicina, que não se posicionou contra os medicamentos, apesar de protestos de médicos. A entidade diz defender a autonomia do profissional para receitar um remédio off-label, ou seja, fora do que indica a bula.

Em maio de 2021, uma pesquisa feita pelo Datafolha mostrou que 23% dos entrevistados disseram ter usado remédios do tratamento precoce divulgado por Bolsonaro para prevenir a infecção pelo coronavírus.

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