Como Pazuello distribuiu culpas em seu 2º dia na CPI da Covid

Ao falar sobre colapso do Amazonas no início de 2021, ex-ministro de Saúde se exime de responsabilidades, mas é confrontado por senadores

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Ex-ministro da Saúde e general da ativa, Eduardo Pazuello retomou seu depoimento à CPI da Covid na quinta-feira (20). Pelo segundo dia consecutivo, o militar distorceu informações e buscou isentar o governo federal de responsabilidades no enfrentamento à pandemia. Ele foi acusado de mentir e se alongar sobre temas desconexos. Mas analistas apontam que diversos pontos de seu relato dão força à visão de que o governo federal foi omisso na crise enfrentada pelo estado do Amazonas.

O general havia iniciado seu depoimento na quarta-feira (19). Após seis horas respondendo a perguntas, no intervalo da sessão, ele passou mal. Recuperado, iria voltar a depor. Mas o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), decidiu terminar a oitiva no dia seguinte, para dar tempo aos 23 senadores que haviam se inscrito para falar.

Pazuello foi a oitava pessoa a ser ouvida pela comissão. Antes dele, prestaram depoimento os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, o titular da pasta, Marcelo Queiroga, o diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, o ex-chefe da secretaria de comunicação do governo Fabio Wajngarten, o representante da Pfizer Carlos Murillo e o ex-chanceler Ernesto Araújo. A próxima a ser ouvida será a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde Mayra Pinheiro.

Aziz já pediu para o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), um balanço com conclusões sobre o primeiro mês de investigações. A comissão está prevista para durar 90 dias, prorrogáveis.

Abaixo, o Nexo reúne os principais pontos dessa segunda leva de perguntas a Pazuello, que teve como foco central a crise de falta de oxigênio no Amazonas no início de 2021, episódio pelo qual Pazuello já é investigado criminalmente no âmbito da Justiça comum.

A culpa é do ‘governador’

No primeiro dia de depoimentos, Pazuello disse que a falta de oxigênio no Amazonas, na crise que colapsou o sistema de saúde do estado no começo de 2021, havia durado apenas três dias. O militar foi contestado pelos senadores, que apontaram uma situação trágica que se alongou por semanas. No segundo dia de depoimento, ao ser questionado sobre a crise novamente, o ex-ministro culpou a empresa fornecedora, White Martins, e a Secretaria de Saúde estadual.

Já para o Ministério Público, o Ministério da Saúde deixou de agir em vários aspectos de sua responsabilidade. Segundo o órgão, a pasta deveria, por exemplo, ter monitorado os estoques de oxigênio, entre diversos outros pontos.

Depois de Pazuello se eximir de responsabilidades pela situação, o senador Eduardo Braga (MDB-AM) perguntou por que não houve intervenção federal na saúde do Amazonas. Pazuello disse que o governo descartou essa possibilidade numa reunião que contou com a presença de ministros e do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo Pazuello, a decisão foi tomada após o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), argumentar que a medida não seria necessária. Em nota, Lima rebateu a versão de Pazuello. “Nunca houve recusa do estado para qualquer tipo de ajuda relacionada às ações de enfrentamento à covid-19”, diz texto enviado pela assessoria do governador. “Além disso, o governo do Amazonas sempre pediu a colaboração federal para auxiliar no combate à pandemia.”

A culpa é do ‘servidor’

Pazuello reiterou que só tomou conhecimento sobre a situação crítica do Amazonas no dia 10 de janeiro. Ao ser questionado sobre um documento do Ministério que indica que a gravidade da situação teria chegado ao seu conhecimento dias antes, ele disse que foi o “erro de um servidor” que motivou essa versão, que de acordo com ele seria improcedente.

Ele também disse que, ao tratar com autoridades do estado no dia 7 daquele mês, dias antes, portanto, de ser reportado o colapso, no dia 14, a conversa foi “exclusivamente para apoio logístico de transporte de tubos de oxigênio que iam para o interior do Amazonas”. “Não quer dizer que aí se havia a compreensão do colapso de oxigênio”, argumentou.

Senadores apontaram contradição entre essa declaração e o depoimento do general no dia anterior, quando ele disse que a questão do oxigênio não havia sido tema da conversa. A situação na capital amazonense se agravou em questão de dias, e os parlamentares indicaram o que viram como indícios da omissão do governo diante desse cenário.

A culpa é do ‘hacker’

Pazuello também foi questionado sobre o TrateCov, um aplicativo do Ministério da Saúde que indicava medicamentos com base em sintomas relatados, e que estimulava o uso da hidroxicloroquina até para tratar bebês. O medicamento é ineficaz contra o novo coronavírus e pode ter efeitos colaterais.

O aplicativo foi lançado pelo Ministério da Saúde em janeiro, em Manaus. Ou seja, enquanto a capital do Amazonas vivia um colapso no sistema de saúde com falta de oxigênio, o governo investiu em divulgar o uso de medicamentos ineficazes contra a doença.

O ex-ministro disse que o aplicativo era ainda uma espécie de protótipo, mas foi invadido por um hacker que alterou dados e o disponibilizou publicamente. Segundo Pazuello, o aplicativo “foi hackeado por um cidadão. (...) Ele pegou esse diagnóstico, alterou com dados lá dentro e colocou na rede pública. Quem alterou foi ele". O ex-ministro afirmou também que, quando descobriu o ocorrido, mandou “tirar do ar imediatamente”.

Os senadores, porém, questionaram a versão. "O hacker é tão bom que ele conseguiu colocar o programa numa matéria extensa na TV Brasil", ironizou o senador Omar Aziz (PSD-AM). A emissora, que pertence ao governo, divulgou o lançamento do aplicativo em janeiro.

Além disso, um documento do próprio Ministério da Saúde dá conta de que o aplicativo foi desenvolvido, lançado e disponibilizado pela pasta. Poucos dias depois do lançamento, o aplicativo foi retirado do ar após receber fortes críticas. Na ocasião, o governo alegou que o aplicativo havia sido “invadido e ativado indevidamente” e disse que a retirada foi “momentânea”. O aplicativo não voltou ao ar posteriormente.

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