Como a política agrava a desinformação na pandemia

Pesquisadores de laboratório ligado à Universidade Federal de Pelotas mostram que autoridades legitimam e potencializam negacionismo no Brasil

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Um estudo de pesquisadores do Midiars (Laboratório de Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais), ligado à Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), no Rio Grande do Sul, mostra que as disputas político-partidárias em torno da covid-19 no Brasil alimentam uma cadeia de desinformação cujo efeito tende a ser a redução na adesão da população a medidas de prevenção contra a doença.

Com mais de 439 mil mortos na pandemia até a terça-feira (18), o país convive com contestações ao isolamento social, ao uso de máscaras e à vacinação, estratégias fundamentais contra a crise sanitária, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde). O presidente Jair Bolsonaro é a principal figura política a incentivar o negacionismo científico.

Neste texto, o Nexo expõe os principais pontos do estudo, que analisa o funcionamento dessa cadeia de desinformação na qual atuam autoridades políticas e de saúde, além de veículos de informação apócrifos que distribuem informações falsas com grande alcance.

O enquadramento político

Nos debates travados nas redes sociais, a pandemia do novo coronavírus acabou sendo confundida com uma “questão de filiação política”, segundo os pesquisadores. Isso pode ter efeito negativo na decisão da população em aderir às medidas de prevenção da doença.

Nesse ambiente, usar máscaras, por exemplo, acaba sendo um sinal de “filiação a um discurso político”. “O tema da covid ficou politizado porque houve uma apropriação dos políticos desse discurso para, muitas vezes, criar cortinas de fumaça, desviar o foco de outras coisas”, disse ao Nexo Raquel Recuero, doutora em comunicação, professora da Ufpel e da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e uma das coordenadoras do Midiars.

Segundo a pesquisadora, por aderirem a um discurso como o do presidente, as pessoas se sentem parte dele e decidem não fazer isolamento social e sair às ruas, defendem que o vírus não existe e que tomar a vacina não é necessário.

“Isso pode ter repercussões posteriores, como a criação de uma massa de antivaxxers [movimento antivacinas] no Brasil, que diz que a vacina é chinesa, que vai implantar microchip. Vai se construindo todo um um aglomerado de teorias que modulam e radicalizam ideologicamente as pessoas, como se a decisão fosse individual e não coletiva”, afirmou.

A legitimidade da desinformação

Informações distorcidas e falsas sobre a pandemia circulam com muito mais alcance quando são legitimadas por autoridades políticas ou de saúde. Dessa forma, o conteúdo se espalha “muito mais rápido e entre muito mais gente do que a desinformação propagada por pessoas comuns ou por contas automatizadas”. Apesar de as autoridades geralmente terem mais seguidores e alcance, o fato de elas emprestarem sua reputação à informação tem papel importante.

“Observando a influência das autoridades na propagação de desinformação sobre a vacina contra o Covid-19 no Twitter, por exemplo, vimos que uma autoridade política ou de saúde tinha quase 1,5 vez mais chances de ser retuitada quando reproduzia alguma desinformação sobre a vacina do que outros tipos de autoridades”, afirma trecho do estudo.

47%

do conteúdo desinformativo que circulou nos dados analisados foi legitimado por autoridades políticas, segundo o estudo

É possível observar um aumento na circulação desse tipo de conteúdo, por exemplo, após os pronunciamentos de Bolsonaro, que reiteradamente defendeu o uso de medicamentos ineficazes, colocou em dúvida a segurança da vacina e criticou o isolamento social.

“De forma particular, identificamos picos de desinformação em grupos públicos do WhatsApp após os pronunciamentos de Bolsonaro em rede nacional, em março de 2020, por exemplo”, aponta o estudo.

“Um dos grandes problemas com a desinformação é que ela não é necessariamente toda fabricada. Na verdade, a maior parte da desinformação que a gente encontra tem um fundo de verdade. O problema é que ela é enquadrada pra me favorecer”

Raquel Recuero

pesquisadora e coordenadora do Midiars

Um dos pontos investigados pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Senado é justamente o assessoramento do presidente por autoridades políticas e de saúde que defendem, por exemplo, a estratégia da imunidade de rebanho (como o deputado federal Osmar Terra, MDB-RS) e o uso da hidroxicloroquina (caso da médica Nise Yamaguchi), e emprestam legitimidade ao seu discurso.

Como a desinformação circula

As “narrativas alternativas” são impulsionadas nas redes sociais, principalmente, por sites ou veículos apócrifos e hiperpartidários. Na definição do estudo, eles são “mídias nativas digitais que possuem a aparência de veículos informativos, mas produzem conteúdo que favorece uma ideologia política específica, frequentemente com estratégias como sensacionalismo, anonimato e clickbaits [caça-cliques] para potencializar a circulação do que publicam”.

“Parece um jornal, parece que está fazendo matérias, usa até algumas técnicas jornalísticas, mas não tem assinatura, não tem comissão editoral, não tem nada. A gente vai ver e é anônimo. E as pessoas compartilham muito isso”, disse Recuero.

Esses sites obtêm êxito, segundo o estudo, distorcendo acontecimentos, criando conexões entre fatos não relacionados e “fabricando conteúdo para favorecer a narrativa política que defendem”.

90%

dos links desinformativos sobre a hidroxicloroquina de maior circulação em páginas e grupos do Facebook em 2020 eram oriundos de veículos apócrifos

No processo de circulação de desinformação, as notícias publicadas por veículos profissionais de imprensa são geralmente tratadas como fake news se ferem os interesses de quem as divulga. Mas quando concordam ideologicamente com o grupo, e apenas nesse caso, conseguem circular. Contribuem para isso, de acordo com o estudo, os títulos jornalísticos que apenas reproduzem acriticamente falas desinformativas de políticos.

As pessoas que propagam desinformação também são muito mais ativas nas redes sociais, segundo os pesquisadores.

“Um link que defendesse o uso de hidroxicloroquina para combater e curar covid-19 no Twitter, por exemplo, tinha uma probabilidade quase três vezes maior de ser repassado do que um link que contivesse algum conteúdo que desafiasse essa premissa”

Pesquisadores do Midiars

no relatório “Desinformação, mídia social e COVID-19 no Brasil”

As dificuldades da checagem

O trabalho de agências que fazem a checagem de informações dificilmente consegue penetrar nas bolhas onde circulam dados enviesados. Segundo o estudo, o motivo para isso está no fato de os grupos politicamente radicais ou altamente ideologizados protegerem suas crenças negando fatos ou evidências contrárias.

“Assim, casos em que publicações feitas por agências de checagem são repudiadas e enquadradas como falsas ou tendenciosas não são incomuns em tais grupos”, dizem os pesquisadores.

10%

dos grupos que compartilham a desinformação compartilharam também a checagem

Segundo a professora Raquel Recuero, esses elementos formam um “ecossistema” de desinformação que acaba “alienando as pessoas”. “E aí vai ser muito difícil, depois, a gente conseguir fazer com que algumas informações cheguem às pessoas para desconvencê-las de certas coisas”, disse.

Outro aspecto apontado por ela é que os veículos profissionais de comunicação acabam sendo desacreditados. Isso poderia ser evitado, diz, com uma campanha informativa em larga escala que esclareça, por exemplo, que as pessoas não devem tomar remédios ineficazes ou que desminta informações prejudiciais à população.

Como combater a desinformação

Já que as agências de checagem e o jornalismo profissional têm dificuldade de furar as bolhas de desinformação, os pesquisadores sugerem algumas medidas para tentar combater o problema:

  • Campanhas massivas contra a desinformação;
  • Investimento em letramento digital, ou seja, ensinar e debater o consumo de informações na internet;
  • Fomentar o debate público sobre temas complexos, como saúde pública e vacinação;
  • Cobrança para um atuação efetivas das próprias plataformas para combater a desinformação;
  • Responsabilização de agentes públicos que disseminam desinformação;
  • Ações dos veículos de comunicação para evitar o compartilhamento de desinformação.

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