Como a CPI da Covid virou entretenimento nas redes

Comissão mobiliza milhares de mensagens, memes e piadas diariamente. Espetacularização da política divide opinião de cientistas e estudiosos

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Duas semanas depois do fim do Big Brother Brasil 2021 assunto que dominou as redes nos primeiros meses do ano um novo tema tem gerado memes, piadas, comentários, discussões e mobilização: a CPI da covid.

Com ares de entretenimento, usuários, influenciadores, podcasters, streamers, e youtubers têm transformado a Comissão Parlamentar de Inquérito em um reality show, comentado diariamente por horas a fio.

Na terceira semana de maio, com depoimentos do ex-chanceler Ernesto Araújo e do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, o clima é de final de Copa do Mundo ou melhor, de “CPIPalooza”, nome que pegou, e que faz referência ao festival de música Lollapalooza, tendo sido cunhado pela página Jair me Arrependi.

Dos memes às transmissões ao vivo

Na terça-feira (18) cerca de 31 mil mensagens foram publicadas no Twitter Brasil comentando as primeiras horas da oitiva do ex-chanceler Ernesto Araújo. Na manhã de quarta-feira (19), nas duas primeiras horas do depoimento de Pazuello, foram cerca de 165 mil menções à CPI. Outros 20 mil tweets mencionavam o termo “Pazuzu”, apelido dado ao ex-ministro da Saúde em referência ao demônio sumério do filme “O exorcista” (1973).

Uma quantidade significativa das mensagens trazia comentários sérios, feitos por jornalistas, colunistas e cientistas políticos. Mas muita gente está ali para apresentar sua indignação em relação à condução da pandemia a partir da zoeira, com memes, piadas, comentários sarcásticos e até mesmo funks improvisados, caso do compartilhadíssimo “Funk do Renan”, música feita para aplaudir a atuação do senador Renan Calheiros (MDB-AL) na relatoria da CPI.

“Já pode prender o Ernesto com 10 minutos de depoimento na CPI”, escreveu um usuário. “Hoje vai ser bom demais!”, acrescentou. “Bota minha mãe pra entrevistar o ‘Pazuzu’ que ele sai chorando”, ironizou outro.

Na Twitch, plataforma de transmissões ao vivo, usada majoritariamente por jovens, a CPI também é um fenômeno, com lives que exibem os depoimentos, comentando e criando piadas com o desenrolar da comissão.

O maior expoente das lives da CPI é o influenciador digital Luide Matos, que tem transmitido todos os depoimentos em seu canal na plataforma. Em 12 de maio, no dia do depoimento do ex-secretário de Comunicação da Presidência Fábio Wajngarten, Matos conseguiu reunir 19 mil espectadores simultâneos.

Matos, que antes da CPI se limitava a fazer lives de “bobajada”, como ele mesmo diz, se viu diante de uma grande responsabilidade, ao falar de política para milhares de pessoas, em sua maioria jovens. “Espero retribuir”, escreveu no Instagram.

As transmissões foram percebidas pela própria política. No Twitter, as contas oficiais do PT parabenizaram o influenciador. “Trazer a juventude para a política é vital para a manutenção da nossa democracia”, diz a mensagem.

No Telegram, aplicativo que se assemelha ao WhatsApp, canais que eram dedicados exclusivamente a comentar o Big Brother Brasil viraram locais de atualizações em tempo real sobre a CPI com memes do princípio ao fim, como manda a lógica da zoeira na internet.

A espetacularização da política

Rosemary Segurado, cientista política e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, faz ressalvas à “BBBização” da CPI. “É algo que banaliza procedimentos importantes da democracia”, disse ao Nexo. “Esvazia o sentido democrático. Vira uma coisa de assistir a CPI como quem assiste ao BBB. No lugar de funcionar como uma alfabetização política, vira uma torcida de futebol, uma novela”, afirmou.

Marta Mendes da Rocha, professora do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, compartilha de uma visão semelhante. “Quando o engajamento com a política se dá pela esfera do entretenimento, pode-se confundir mais do que esclarecer”, afirmou ao Nexo.

Para ela, a superexposição à política por meio das redes sociais e dos meios de comunicação é uma oportunidade para dar mais informação à sociedade. Mas ela diz que tudo depende da forma com que isso é feito algo que, em sua visão, não tem acontecido na mobilização em torno da CPI na internet.

Ao mesmo tempo, Mendes da Rocha vê na proliferação de humor e dos memes como parte do debate público uma espécie de válvula de escape. “Estamos em um cenário de instabilidade política constante, isso causa muito estresse. Tudo pode acontecer. Com o humor, há aquela lógica do rir para não chorar”, disse.

Rosemary Segurado acredita que o humor é uma forma legítima de discutir política, mas faz um alerta: é preciso separar a comédia da mera ofensa. “O que Bolsonaro faz, de fingir que está com falta de ar, e coisas que os apoiadores dele fazem não é humor. Isso é algo que tem acontecido, usar uma suposta jocosidade como forma de deslegitimar o que está sendo debatido”, afirmou.

Segundo a cientista política, se feito de forma consciente, o humor pode ser uma excelente ferramenta para propor reflexões acerca do debate público.

Há também quem acredite que a espetacularização da política nas redes tenha um efeito democratizador. Em 2017, o publicitário Renato Frigo, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas, publicou um artigo que defende essa hipótese.

“Segundo a definição de ciberdemocracia, a internet proporciona um progresso da democracia, já que, nela, pessoas podem por si próprias elaborar seus próprios problemas e questões e, eventualmente, submetê-los às autoridades responsáveis”, disse ao G1 na época.

Como o Congresso reage

A própria CPI está ciente da movimentação das redes. Durante o depoimento de Araújo, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) usou um documento da página de Twitter Tesoureiros do Jair para elaborar suas perguntas ao ex-ministro.

Relator da comissão, Renan Calheiros mandou um “alô para os internautas”, que reagiram aplaudindo ainda mais a atuação do parlamentar. Horas depois do depoimento do ex-chanceler, o senador abriu, em seu Instagram, uma caixa de sugestões de perguntas para serem feitas para Pazuello durante a oitiva.

Renan Calheiros, na política desde a década de 1970, soube bem aproveitar o “Big Brother Brasília” das redes, na visão de Segurado. “O Renan é um político fisiológico ancestral, e nada tira isso dele”, disse. “Mas ele está posando para ser herói, e talvez com isso fazendo um acerto de contas com a ala progressista que estava descontente com as atitudes dele nos últimos anos.”

De acordo com Marta Mendes da Rocha, o fenômeno do “Super-Renan” surge por uma desesperança de segmentos da sociedade com o funcionamento pleno das instituições. “É a ideia de que o Poder vai frear o Poder”, afirmou. “É uma esperança. Já que as instituições não dão conta, o próprio poder dá conta disso.”

A partir desse processo, segundo ela, até mesmo políticos que eram execrados por certos setores do espectro ideológico tornam-se figuras carismáticas. “É a lógica de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, disse.

A reação dos apoiadores do governo

As reações dos apoiadores do governo Bolsonaro ao “Big Brother Brasília” são variadas. Diante do sucesso de Renan Calheiros nas redes, muitos bolsonaristas expõem os inquéritos judiciais de que o senador é alvo.

Alguns deles reagem de maneira agressiva, ofendendo, assediando verbalmente e ameaçando os autores dos memes e comentários, além dos parlamentares presentes na CPI. Outros se limitam a dizer que continuam apoiando as decisões de Bolsonaro independentemente dos rumos da comissão.

Há também aqueles que decidem revidar na mesma moeda, criando memes e fazendo piadas com nomes da oposição que estão torcendo pelo desgaste da imagem do governo.

A política como hobby

O fenômeno da espetacularização é parte de um contexto maior de transformação da política em hobby, segundo o americano Eitan Hersh, cientista político e professor da Universidade Tufts, em Massachusetts.

De acordo com Hersh, a transformação da política em lazer acontece por meio do consumo incessante de notícias, da reação a elas e de discussões sobre os temas, mas com pouca atuação de fato.

“A política como hobby é um guarda-chuva que abraça tudo que fazemos para servir nossas necessidades políticas emocionais ou intelectuais em vez de agir de forma organizada”, afirmou em 2020 no podcast do jornalista Ezra Klein.

“É discutir as notícias, compartilhar as notícias, reagir a elas, se indignar com elas. Tudo isso coloca a política na sua mente e nos seus sentimentos, mas não é algo que faça o trabalho de fato”, disse.

No Brasil da década de 2010, o interesse pela política aumentou, mas, ao mesmo tempo, a atuação política diminuiu. Uma pesquisa feita pelo Senado em 2013 à época das manifestações de julho daquele ano mostrou que o número de brasileiros que se dizia muito interessado pela política foi de 19,4% a 23,8% em dois anos. O interesse se manifestava por meio do acompanhamento e discussão do noticiário, além de outras leituras sobre o tema.

Por outro lado, as eleições presidenciais de 2014 e 2018, e as municipais de 2016 e 2020, registraram recordes consecutivos de ausências e votos nulos e brancos.

De acordo com Hersh, a transformação da política em hobby é preocupante e, em sua visão, torna a convivência entre as pessoas pior. “Se a coisa é feita apenas por diversão ou por catarse, a raiva, a indignação e a deslegitimação das opiniões diversas vão ser o normal”, afirmou no podcast. “A política requer empatia e um entendimento do interesse das pessoas. Sem isso, você não faz nada. Por isso, estamos indo pelo caminho errado.”

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.