Como Pazuello distorce a realidade para poupar Bolsonaro

Ex-ministro diz à CPI que nunca barrou Coronavac, que respondeu à Pfizer, que defesa do tratamento precoce não era bem assim e que oxigênio em Manaus só faltou por três dias, apesar de documentos e declarações mostrarem algo diferente

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O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello depôs na quarta-feira (19) na CPI da Covid, no Senado, por mais de seis horas. Sua presença era uma das mais aguardadas pelo potencial de expor erros e omissões do governo no enfrentamento da pandemia. O general da ativa tentou isentar o presidente Jair Bolsonaro de responsabilidade com base na tese de que as falas negacionistas do chefe do Executivo são políticas. Não se refletem, segundo ele, nas ações técnicas do governo federal.

Pazuello entrou no Ministério da Saúde em abril de 2020 por indicação de Bolsonaro. Inicialmente secretário-executivo, ele assumiu a pasta com a saída de Nelson Teich e permaneceu no cargo por dez meses, de maio de 2020 a março de 2021. Nesse período, o governo foi acusado de não ter se antecipado para evitar a crise sanitária em Manaus, onde doentes morreram por falta de oxigênio medicinal, de ter apostado em medicamentos sabidamente ineficazes contra a covid-19 e de demora em fechar contrato para a compra de vacinas contra o novo coronavírus.

Apesar de ter conseguido um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal para ficar em silêncio nas perguntas em que poderia se incriminar, Pazuello afirmou que responderia a todos os senadores. O militar foi acusado de mentir em diversos momentos. No intervalo da sessão, passou mal. Recuperado, iria voltar a depor. Mas o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), decidiu continuar a sessão nesta quinta-feira (20) para dar tempo aos 23 senadores que se inscreveram para falar.

Pazuello está sendo ouvido na condição de testemunha. Ele já é alvo de um inquérito criminal que apura sua atuação no colapso da saúde em Manaus, em janeiro de 2021. A seguir, o Nexo lista os principais pontos da fala do general.

As falas ‘políticas’ de Bolsonaro

O ex-ministro foi questionado sobre possíveis interferências do presidente da República nas ações de combate à covid-19 do Ministério da Saúde. Numa tentativa de blindá-lo, Pazuello disse que Bolsonaro nunca o orientou ou deu ordens para “fazer nada diferente do que já estava fazendo”.

Os senadores lembraram então que, em outubro de 2020, apenas um dia depois de Pazuello anunciar a compra da vacina Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan (ligado ao governo de São Paulo), ele foi desautorizado publicamente por Bolsonaro. O presidente determinou na época o cancelamento das negociações e colocou em dúvida a segurança da vacina devido à sua origem chinesa. Seu gesto foi visto como uma resposta ao governador paulista, João Doria (PSDB), seu rival político que também tem pretensões de concorrer à Presidência em 2022.

O general usou na CPI uma estratégia à qual o presidente recorre frequentemente: criar versões alternativas para fatos que estão fartamente documentados. Bolsonaro, por exemplo, já afirmou que o Brasil está “dando exemplo” e é “vanguarda nas soluções” de combate à pandemia, embora o país ocupe as piores posições no mundo em relação aos números de casos e mortes pela doença.

Pazuello lançou mão dessa estratégia ao defender que as declarações públicas do presidente não se refletem nas ações do governo. Segundo ele, as falas de Bolsonaro ordenando o cancelamento da compra da Coronavac não passaram de manifestações políticas nas redes sociais.

“Ele [Bolsonaro] falou publicamente [que o governo não iria comprar da Coronavac]; para o ministério ou para mim, nunca, até porque eu não tinha comprado nada (...). Não foi formalizado nem foi interrompido nada no ministério. Nunca houve a ordem. Aquilo foi apenas uma posição do agente político [Bolsonaro] na internet (...). Não havia contrato. Só havia o termo de intenção de compra, e foi mantido dessa maneira”

Eduardo Pazuello

ex-ministro da Saúde, em depoimento à CPI da Covid

Em outro momento, ele repetiu o argumento de Bolsonaro de que o Supremo limitou, em 2020, a atuação do governo federal ao reafirmar a autonomia de estados e municípios para definir medidas de combate ao vírus, o que é mentira. A decisão não exime o Ministério da Saúde de coordenar uma política nacional de enfrentamento à doença.

As respostas fantasmas à Pfizer

Em depoimentos à CPI, tanto o representante da Pfizer, Carlos Murillo, quanto o ex-chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) Fabio Wajngarten, confirmaram que a farmacêutica enviou em agosto de 2020 uma carta ao ministério oferecendo vacinas e que o documento ficou dois meses sem resposta.

Ao ser questionado sobre o tema pelos senadores, o ex-ministro respondeu: “Como assim não houve respostas? Nós tivemos 20 respostas para a Pfizer, com discussões”. Ele não apresentou, porém, prova dessas 20 respostas.

Segundo ele, a resposta à Pfizer é toda a negociação, “que começa no momento da proposta e termina com a assinatura do MoU [do inglês Memorandum of Understanding, ou memorando de entendimento, que foi assinado em dezembro]”.

“Eu estou falando de dezenas de reuniões e discussões. Eu não estou falando de uma resposta. A resposta sempre foi: ‘Sim, queremos comprar’. Está escrito em todo o final: ‘É nosso interesse comprar da Pfizer, mas não posso comprar se você não flexibilizar tal medida. Não posso comprar se você não auxiliar na logística de entrega’. Isso é uma negociação”

Eduardo Pazuello

ex-ministro da Saúde, em depoimento à CPI da Covid

Em um dos momentos mais tensos do depoimento, Pazuello disse que, como chefe do ministério, não era seu papel se reunir com os representantes da Pfizer para negociar a compra de vacinas.

“Pela simples razão de que eu sou o dirigente máximo, eu sou o decisor, eu não posso negociar com a empresa. Quem negocia com a empresa é o nível administrativo, não o ministro. Jamais deve receber uma empresa, o senhor deveria saber disso”, disse ao relator da CPI, o senador Renan Calheiros (MDB-AL). Sua fala foi vista como um ataque ao senador pelos membros da comissão, e o ex-ministro disse que retirava a declaração.

O tratamento que não existe mais

Embora o Ministério da Saúde tenha elaborado documentos com orientações sobre o uso de cloroquina em pacientes com covid-19, dentro de um suposto tratamento precoce defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e por outros integrantes do governo, Pazuello afirmou em sua fala inicial não haver tratamento para a doença.

“A covid-19 é uma doença desconhecida que atingiu de forma contundente o mundo inteiro. Não há medicação antiviral específica e também não há tratamentos com medicamentos cientificamente comprovados”, disse.

Ao ser questionado sobre a autorização para o uso do medicamento que pesquisas já mostraram ser ineficaz contra o novo coronavírus, o ex-ministro argumentou que o governo seguiu apenas o que preconiza o Conselho Federal de Medicina.

“O Conselho Federal de Medicina fez uma publicação clara, dando autonomia aos médicos utilizarem tais medicamentos, inclusive a hidroxicloroquina e cloroquina de forma off-label. E nós, seguindo o conselho, colocamos da seguinte forma: ‘Médico, se você resolver prescrever os seguintes medicamentos que estão hoje, público e notório, sendo usados off-label, atenção para a dosagem de segurança”

Eduardo Pazuello

ex-ministro da Saúde, em depoimento à CPI da Covid

Ao ser questionado sobre o lançamento de uma plataforma lançada pelo ministério com o nome de TrateCov, que orienta médicos a prescrever cloroquina para pacientes de qualquer idade, Pazuello chegou a dizer que ela era apenas experimental. A plataforma foi lançada e, posteriormente, retirada do ar.

O ex-ministro disse que a ideia partiu de Mayra Pinheiro, que é secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde e ficou conhecida como Capitã Cloroquina por defender o uso do medicamento. Ela foi convocada para falar à comissão.

O oxigênio em Manaus que só faltou ‘três dias’

Pazuello também tentou minimizar a gravidade da crise sanitária no Amazonas, ocorrida no começo de 2021. Segundo ele, o ministério foi pego de surpresa com uma explosão abrupta de casos de covid-19 na região.

Ele afirmou que só soube dos riscos da falta de oxigênio em Manaus no dia 10 de janeiro e que, nos dias seguintes, agiu para resolver o problema. Senadores disseram que documentos produzidos pelo próprio ministério apontam que a pasta foi avisada dias antes, em 8 de janeiro, mas Pazuello negou a informação.

Segundo o ex-ministro, a empresa White Martins, que fornece o insumo para os hospitais do Amazonas, ficou apenas três dias com o estoque baixo.

“A White Martins foi consumindo o seu estoque até chegar em 13 para 14 [de janeiro], quando teve uma queda de 20% mais ou menos. E isso aconteceu por dois a três dias, entre 13 e 15. No dia 15, já voltou a ser positivo o estoque de Manaus”

Eduardo Pazuello

ex-ministro da Saúde, em depoimento à CPI da Covid

O senador Eduardo Braga (MDB-AM), que foi governador do Amazonas, se irritou com a declaração. “Não faltou oxigênio no Amazonas apenas três dias, pelo amor de Deus. Ministro Pazuello, pelo amor de Deus. Faltou oxigênio na cidade de Manaus por mais de 20 dias. É só ver o número de mortos. É só ver o desespero das pessoas tentando chegar ao oxigênio”, respondeu.

Segundo o senador, a carga de insumos que Pazuello enviou a Manaus chegou apenas na virada do dia 24 pro dia 25, indicando ineficiência na resposta do governo, e houve picos de mortes de pacientes por falta de oxigênio no Amazonas até 30 de janeiro.

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