Por que cientistas têm dúvidas sobre a origem da covid-19 

Em carta, pesquisadores afirmam que não há dados suficientes para determinar se coronavírus veio da transmissão animal ou de vazamento de laboratório. Publicação causou controvérsia

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    Em carta publicada na sexta-feira (14) na revista Science, um grupo de cientistas pediu mais investigações sobre a origem do novo coronavírus e defendeu que ainda não existem evidências suficientes para determinar se o organismo tem origem natural ou se veio de um vazamento de laboratório na China.

    A carta afirmou que, com os estudos feitos até hoje, “continuam sendo possíveis tanto a teoria de uma fuga acidental de um laboratório quanto a de um salto natural [do novo coronavírus] a partir dos animais”, teoria mais defendida por cientistas e pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

    A OMS afirmou, em relatório de março de 2021, que a hipótese mais provável para a origem do novo coronavírus é que o organismo tenha se originado nos morcegos e chegado às pessoas por meio de um animal hospedeiro intermediário. O fenômeno é chamado em inglês de “spillover” (transbordamento).

    Entre os idealizadores da carta estão pesquisadores conhecidos por estudos sobre a covid-19, como Akiko Iwasaki, da Universidade de Yale, nos EUA, David Relman, da Universidade Stanford, também americana, e Marc Lipsitch, da Universidade de Harvard. No total, 18 cientistas assinam o texto.

    O que a carta diz, e o que não diz

    Os cientistas que assinam a carta publicada na Science não dizem que a hipótese da origem natural do novo coronavírus esteja incorreta, nem defendem que o vazamento de laboratório seja mais provável: apenas propõem que as duas teorias sejam levadas a sério até haver mais evidências.

    A investigação que o grupo propõe para avaliar o tema “deve ser transparente, objetiva, orientada por evidências, incluir cientistas com ampla experiência, estar sujeita à supervisão independente e ser gerenciada com responsabilidade para minimizar conflitos de interesse”, segundo o texto.

    Embora “não se baseie em dados que comprovem claramente o ‘spillover’ natural ou o acidente de laboratório”, o relatório da OMS considera a origem natural do novo coronavírus muito mais provável — o que é um erro, segundo o texto. O grupo diz que não há dados suficientes para atestar nenhuma das hipóteses.

    A carta defende que o debate sobre o assunto seja aberto. “Precisamos mostrar determinação em promover um discurso imparcial, com base na ciência, sobre essa questão difícil, mas importante”, diz o texto. Os autores também citam que outros países e a própria OMS esperam mais investigações sobre o tema.

    “Grande parte da discussão sobre a origem do novo coronavírus vem, eu acho, de um número relativamente pequeno de pessoas que se sentem muito certas sobre suas opiniões. [...] Qualquer pessoa que tenha muita certeza desse tema está indo além do que é possível dizer com as evidências disponíveis”

    Jesse Bloom

    cientista com foco na área de evolução de vírus e um dos signatários da carta publicada na Science, em entrevista ao jornal The New York Times

    Mesmo sem tomar partido sobre a origem da covid-19, a carta causou controvérsia no meio científico. Em entrevista ao jornal The New York Times, a virologista Kristian Andersen disse que o texto faz “falsa equivalência” entre a origem natural e a fuga de laboratório, que para ela “baseia-se em especulação”.

    Em entrevista ao mesmo jornal, a epidemiologista Sarah E. Cobey, que assina a carta, afirma que acha mais provável que o novo coronavírus tenha origem natural, mas que se preocupa com as consequências “de falharmos em fazer uma investigação rigorosa da possibilidade do escape de laboratório”.

    O que a OMS afirma sobre o tema

    Lançado no fim de março depois do envio de uma missão de cientistas para a China, país onde houve os primeiros registros da covid-19, no fim de 2019, o relatório da OMS sobre a origem do vírus elenca quatro fontes pelas quais ele pode ter se introduzido na população humana.

    Enquanto o texto considera “possível e muito provável” que o novo coronavírus tenha se originado em morcegos, passado por um intermediário e chegado às pessoas, a possibilidade de o organismo ter escapado acidentalmente de um laboratório chinês foi classificada como “extremamente improvável”.

    O estudo também analisou a possibilidade de o novo coronavírus ter se adaptado à espécie humana a partir dos morcegos, sem intermediários (teoria considerada “possível e provável”), e a de ele ter se introduzido por meio de produtos alimentícios (hipótese considerada apenas “possível”).

    A OMS defende que mais estudos são necessários para haver uma resposta conclusiva. “Este relatório é um começo muito importante, mas não é o fim”, afirmou em março o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, que busca “investigar todas as possibilidades” sobre a origem do vírus.

    A teoria de que o novo coronavírus chegou aos humanos por meio dos morcegos e de outro intermediário é a mais aceita por cientistas. Evidências como o genoma do vírus e o precedente de outras doenças como a covid-19 (que, na maioria, têm origem animal) fazem a maioria acreditar que sua origem é natural.

    60%

    das infecções que afetam as pessoas são zoonoses (ou seja, têm origem animal); entre elas estão doenças que viraram epidemias conhecidas, como o sarampo, a dengue, a aids e o Ebola

    Conduzido por uma equipe de 17 cientistas internacionais e 17 cientistas chineses, o relatório da OMS recebeu críticas. Outros países acusam a China de ter limitado o acesso a informações biológicas sobre o vírus. O diretor-geral da OMS afirmou que os pesquisadores “expressaram dificuldades para encontrar os dados brutos”.

    A equipe chinesa se encarregou de preparar as informações e as amostras do vírus analisadas por especialistas da OMS, critica a carta publicada na Science. Em março, o governo chinês pediu que a agência da ONU respeitasse o parecer de seus cientistas e acusou outros países de querer “espalhar boatos”.

    Por que o assunto é importante

    Em carta publicada na Science, os cientistas que defendem mais investigações sobre a origem do novo coronavírus afirmam que entender como o organismo surgiu é importante para que os governos e a comunidade científica saibam quais estratégias adotar para evitar novas pandemias.

    Com a confirmação de que a covid-19 é uma doença zoonótica, por exemplo, os países podem investir em ações para monitorar animais, identificar vírus dos quais eles podem ser hospedeiros e rastrear surtos incipientes (como já fazem hoje algumas iniciativas internacionais de cientistas).

    A confirmação da transmissão da covid-19 de animais para humanos também pode aumentar a pressão para que os governos revejam sua relação com o meio ambiente. Atividades como o desmatamento, a caça, a pecuária e a mineração nos põem em contato com esses animais e aos vírus que podem carregar.

    Caso seja confirmada a hipótese de que o vírus tenha escapado de um laboratório na China, pode crescer a pressão para que as instituições de pesquisa revejam suas práticas de biossegurança (nome dado ao conjunto de ações que buscam minimizar os riscos do trabalho em laboratórios).

    A origem do novo coronavírus foi politizada por líderes de extrema direita, como Jair Bolsonaro e o ex-presidente americano Donald Trump, que costumam chamá-lo de “vírus chinês”. Em maio de 2021, Bolsonaro chegou a dizer que a China criou o vírus em laboratório para fazer “guerra biológica”.

    Quando cientistas apontam a possibilidade de que o vírus tenha escapado de um laboratório, eles não querem dizer que o organismo foi fabricado por pesquisadores chineses. Evidências do DNA do vírus mostram que é muito improvável que ele tenha sido criado por humanos. O organismo pode ter vazado após experimentos com animais, por exemplo.

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