Os 90 anos de ‘Limite’, considerado o melhor filme brasileiro 

Longa lendário foi exibido pela primeira vez em 1931 e teve restauração financiada por instituição de Martin Scorsese

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    Em maio de 1931 aconteceu a primeira exibição de “Limite”, que é considerado o melhor filme brasileiro de todos os tempos. O longa passou a ser cultuado por cinéfilos e cineastas, mas, após ficar escondido embaixo da cama do seu diretor durante décadas, ganhou ares de lenda. A obra nunca foi exibida comercialmente e passou anos sendo muito comentada e pouco vista.

    Em 1988, uma pesquisa feita pela Cinemateca Brasileira com críticos, professores e pesquisadores elegeu “Limite” o mais importante filme nacional. Em 2015, a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) fez uma nova consulta, que organizou um ranking dos cem melhores filmes brasileiros e “Limite” ficou no topo da lista.

    O longa foi feito no momento de transição do cinema mudo para o cinema falado e se tornou objeto de culto de admiradores como o poeta Vinicius de Moraes, o cineasta Orson Welles e o crítico francês Georges Sadoul. Seu diretor, Mario Peixoto, tinha apenas 21 anos quando fez “Limite”, seu primeiro e único filme.

    A primeira sessão

    Em maio de 1931, Peixoto conseguiu alugar uma sala para uma única exibição de “Limite”, que foi reservada apenas para convidados. A sessão ocorreu em um cinema carioca, às dez horas da manhã de um domingo. A projeção só foi liberada depois de Peixoto ter assinado um termo de responsabilidade, que foi exigido pelo dono do estabelecimento. O documento dizia que, caso a plateia quebrasse cadeiras e atirasse objetos à tela, Peixoto teria que bancar o prejuízo da fúria.

    Em entrevista ao The New York Times em 2010, Saulo Pereira de Mello, diretor do Arquivo Mário Peixoto, explicou o medo de exibir o filme. “Os exibidores temiam que acontecesse o que ocorreu com a ‘Sagração da Primavera’ de Stravinsky”, disse, em referência à revolta durante a estreia do balé em Paris em 1913.

    “Este foi um filme que pretendia estar na vanguarda. A direita cultural que dominava naquela época simplesmente o detestava, enquanto os distribuidores o consideravam muito difícil para o público”, afirmou Mello.

    A trama do filme

    O longa contrasta com tudo que era feito no Brasil na época e não narra propriamente uma história. “‘Limite’ é de importância mais técnica do que dramática. Começando com duas mulheres e um homem à deriva em um barco aberto e seguindo cada uma delas por meio de aventuras mais ou menos imaginárias em terra, a narrativa é, na melhor das hipóteses, evasiva. O desespero é evidentemente o sentimento predominante”, afirmava uma crítica de 1979 do The New York Times.

    O longa é mudo e tem três protagonistas. Um homem e duas mulheres flutuam em uma canoa em alto-mar e, por meio de flashbacks, cada um conta sua história.

    Estão na canoa uma costureira que fugiu da cadeia com a ajuda de um carcereiro, uma mulher num casamento infeliz com um músico bêbado e um homem que descobriu que sua amante tem lepra. Depois de cada flashback, o longa mostra a piora da condição dos personagens no mar.

    A fotografia experimental e inovadora de Edgar Brasil é uma das características mais exaltadas do filme.

    “Peixoto (...) antecipou em ‘Limite’ muitos movimentos de câmera que se tornaram comuns e o ar de descoberta é uma das coisas que mantém o filme excitante. Sua câmera amplia um objeto, mesmo que isso signifique um zoom fora de foco ou execute um giro de 360 graus vertiginosamente precário. Suas escolhas são chamativas, impetuosas e nunca menos do que interessantes”

    Janet Maslin

    crítica de cinema em texto de 1979 no jornal The New York Times

    O culto e a restauração

    O professor Plínio Süssekind Rocha exibiu o filme nos anos 1950 na Faculdade Nacional de Filosofia, mas os negativos começaram a se deteriorar e a obra corria risco de se perder. Rocha entregou “Limite” a um de seus alunos, Saulo Pereira de Mello, e deu a ele a tarefa de restaurar o longa.

    “O Mário Peixoto pegou o filme, que era nitrato, explosivo, e botou embaixo da cama. E foi morar lá numa ilha do Morcego, lá não sei onde em Angra dos Reis. E o Saulo Pereira de Mello, junto com o professor de física da escola, Plínio Sussekind Rocha, se aproximou do Mario, que era uma pessoa esquiva, e foi tirando um a um os rolos de baixo da cama do homem, até restaurarem o filme.”

    Walter Lima Jr

    cineasta, em entrevista à revista Caros Amigos em 2010

    Enquanto a existência do filme estava ameaçada e o mito em torno dele crescia, Mário Peixoto, seu diretor, começou a viver cada vez mais isolado. Passou quatro décadas fechado no Sítio do Morcego, na região de Angra dos Reis (RJ). Morreu aos 83 anos em 1992, deixando apenas um longa finalizado e pelo menos 17 filmes incompletos.

    A primeira restauração de “Limite” foi patrocinada pela Funarte e durou mais de uma década, mas alguns de seus fotogramas ficaram permanentemente danificados. Só em 1979 novas cópias do longa foram feitas e ele foi redescoberto. A segunda restauração, que pode ser considerada a definitiva, aconteceu em 2007.

    Naquele ano, o longa foi escolhido para fazer parte do World Cinema Project, programa da The Film Foundation, fundação de Martin Scorsese. Com a ajuda da instituição Arquivo Mario Peixoto, presidida por Saulo Pereira de Mello, do cineasta Walter Salles e financiamento da The Film Foundation, a Cinemateca Brasileira fez a restauração digital do filme.

    Onde assistir ‘Limite’

    Em comemoração aos 90 anos do filme, a Cinemateca do MAM Rio (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), disponibilizou o filme em seu canal no Vimeo, assim como o CTAv (Centro Técnico Audiovisual), que incluiu o longa no Youtube.

    Além disso, a Cinemateca do MAM também programou debates virtuais sobre o filme e uma aula sobre ele com Denilson Lopes, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    O CTAv também vai exibir o making of de “Limite”, documentários, filme-ensaio, imagens de arquivo e programas inéditos feitos para a TV que contextualizam a produção do longa e o histórico de suas exibições.

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