Como o filme ‘Frozen’ ajudou a resolver um mistério soviético

Incógnita sobre acidente que aconteceu em 1959 na Rússia tem uma explicação plausível graças à animação da Disney

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    Em 1959, um caso nos montes Urais que ficou conhecido como “Incidente do Passo Dyatlov” resultou na morte de nove esquiadores. Sem testemunhas, as mortes permaneceram um mistério até que cientistas criaram modelos inspirados no filme “Frozen”, da Disney, que podem ter resolvido uma parte das questões.

    As mortes, que ficaram mais de seis décadas sem respostas, já alimentaram diversas teorias da conspiração e chegaram a ser atribuídas a extraterrestres, a experiências militares soviéticas e ao Abominável Homem das Neves.

    Até que, em 2019, uma dupla de cientistas do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique começou a criar meios alternativos para trabalhar em uma explicação, como simulações com avalanches a partir de animações usadas no filme infantil. Em 2021, eles chegaram a uma conclusão, que foi publicada na revista Nature.

    Os mistérios em torno das mortes

    Em 23 de janeiro de 1959, nove membros do Instituto Politécnico de Ural, que fica em Ecaterimburgo, fizeram uma ambiciosa viagem ao norte dos Montes Urais, a cordilheira que divide a Europa da Ásia. Eles eram liderados pelo estudante de engenharia Igor Dyatlov e pretendiam esquiar no local por 16 dias.

    A equipe ergueu sua tenda na encosta do Kholat Saykhl (que significa “montanha morta” na língua dos Mansi, etnia indígena que vive perto do local onde o grupo acampou) em 1º de fevereiro, de acordo com um filme fotográfico e diários encontrados pelos investigadores na época.

    Depois da meia-noite, algo fez com que eles cortassem a barraca repentinamente por dentro e fugissem em direção a uma floresta. Os nove — sete homens e duas mulheres — morreram. Equipes de busca demoraram três meses para encontrar todos os corpos.

    Apesar da hipotermia ter sido determinada como a principal causa das mortes, o mistério foi alimentado por outros detalhes. “Quatro dos expedicionários tiveram lesões graves no tórax ou no crânio, dois foram encontrados sem olhos e um sem língua, alguns estavam quase nus e descalços, traços de radioatividade foram encontrados em algumas de suas roupas e sinais de esferas laranja brilhantes flutuando no céu foram relatados naquela noite”, segundo os investigadores.

    Na época, a conclusão da investigação foi de que “uma força natural” levou o grupo à morte, mas a origem dessa força não foi identificada.

    Os questionamentos à teoria da avalanche

    A investigação foi reaberta pela Rússia em 2015 e em 2019 concluiu que uma avalanche de neve foi a causa mais provável do acidente. Os resultados dessa nova apuração foram contestados pelo gabinete do Procurador-Geral da Federação Russa, que em 2019 iniciou a sua própria investigação. Em 2020 ele chegou à mesma conclusão.

    Nenhuma das duas investigações ofereceram explicações científicas para o acontecimento, que continuou a ser questionado por familiares, pelo público e por pesquisadores.

    A teoria da avalanche não parecia plausível porque o acampamento foi montado num local cuja inclinação não permitiria uma grande avalanche capaz de matar os esquiadores. Além disso, as avalanches costumam matar por asfixia, não por hipotermia.

    A investigação dos suíços via ‘Frozen’

    Os pesquisadores suíços não descartaram a teoria da avalanche, mas sabiam que seria necessário testar vários tipos de movimentação de neve a fim de chegarem a uma resposta mais plausível sobre o caso.

    Foi então que eles recorreram a “Frozen”. Impressionados com a qualidade da animação, eles viajaram a Hollywood e se encontraram com o responsável pelos efeitos da neve no filme, que são baseados em cálculos científicos.

    Munidos do código de animação, os pesquisadores simularam avalanches para medir seus impactos no corpo humano. Daí concluíram que uma avalanche pequena, com um bloco de neve de cinco metros, poderia partir costelas e crânio de pessoas – ferimentos que, no caso dos esquiadores montes Urais, teriam sido graves, mas não fatais.

    O que aconteceu depois é especulação, segundo os próprios pesquisadores. Os esquiadores podem ter ficado em pânico, cortado o tecido da barraca por dentro e fugido em busca de abrigo nas árvores. Aí podem ter morrido de frio. A ausência de olhos e língua pode ter sido causada por animais que consomem organismos mortos.

    A nudez de alguns dos corpos e os vestígios de radioatividade permanecem um enigma total.

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