Quais os eixos para a gestão de Ricardo Nunes em São Paulo

Morte de Bruno Covas em decorrência de um câncer alça um ex-vereador conservador ao cargo de prefeito da maior cidade do país

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Em 29 de novembro de 2020, Bruno Covas foi reeleito prefeito de São Paulo no segundo turno. Ele discursou no diretório estadual de seu partido, o PSDB, rodeado por tucanos. Ao seu lado direito estava o governador João Doria, de quem Covas herdou o primeiro mandato na prefeitura antes de conquistar a cadeira por conta própria. Ao seu lado esquerdo estava o filho Tomás, de 15 anos, que acompanhou o pai em toda a campanha. Naquele dia, Covas falou em defesa da democracia, num tom nacional. “É possível fazer política sem ódio”, disse. E aproveitou para agradecer àquele que havia sido a “pedra em seu sapato” ao longo de toda a campanha.

“Eu deveria aqui fazer uma listagem grande de todos aqueles que me ajudaram e que me apoiaram. Mas me perdoem os parlamentares, me perdoe a coordenação de campanha, me perdoe o governador, me perdoe a minha família. Eu queria aqui fazer uma homenagem e um agradecimento especial ao meu vice, Ricardo Nunes”, disse Covas na ocasião, ao receber um abraço do discreto do político do MDB, que até então estava ao fundo do grupo e que evitou dar entrevistas ao longo da eleição, a fim de evitar as polêmicas que recaíam sobre sua figura.

Bruno Covas morreu no domingo (16), aos 41 anos, vítima de um câncer que vinha tratando desde outubro de 2019. Com isso, Ricardo Nunes, um empresário que foi vereador por dois mandatos na Câmara Municipal paulistana, tornou-se oficialmente o prefeito de São Paulo, maior cidade do país, onde vivem 12 milhões de pessoas.

Quem é Ricardo Nunes

Advogado e empresário paulistano, Ricardo Nunes tem 53 anos e é dono de uma curta trajetória política. Antes de conquistar um mandato eletivo, ele fundou uma empresa que atua no setor de controle de pragas urbanas e tratamento fitossanitário. Participou ainda da gestão de associações ligadas ao tema.

Filiado ao MDB desde os 18 anos, foi eleito pela primeira vez para a Câmara Municipal de São Paulo em 2012, e reeleito em 2016. Nunes é católico e tem na periferia da zona sul da cidade seu reduto eleitoral. Conservador, é também conhecido por manter boas relações com políticos de diferentes partidos.

No Legislativo, atuou como relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias de São Paulo e do Orçamento Municipal durante seis anos. Também participou da CPI que investigou suspeitas de desvios de recursos do Theatro Municipal. Integrava a bancada religiosa da Casa, e foi coautor de um projeto que pretendia implementar o programa Escola sem Partido na capital paulista.

Já durante a disputa municipal de 2020, foi alvo de críticas por sua relação com empresários que mantêm contratos de creches com a administração municipal. Reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo em outubro de 2020 revelou também que Nunes foi alvo de denúncias de violência doméstica pela esposa, Regina Carnovale, em 2011. Atualmente os dois estão juntos e negam o ocorrido.

A trajetória rendeu questionamentos sobre qual linha adotará como prefeito a partir de agora. Ele vem dizendo que sua atuação será pautada na “continuidade” da gestão de Bruno Covas.

Os vices no comando de São Paulo

Nunes é o terceiro vice a assumir de forma efetiva o comando da cidade nos últimos 15 anos. Em 2006, José Serra (PSDB) deixou o cargo para disputar o governo de São Paulo. O vice Gilberto Kassab (PSD) virou prefeito, foi reeleito e governou a cidade por quase sete anos. Em 2018, foi a vez de Doria deixar o cargo para disputar o governo estadual. O vice Bruno virou prefeito, foi reeleito e governou a cidade por pouco mais de três anos. Agora é a vez de Nunes.

A prefeitura de São Paulo é considerada um ativo político precioso. Trata-se de um posto que traz a incumbência da gestão do quinto maior orçamento do Brasil superando 24 estados. Por outro lado, a multiplicidade de realidades e interesses na cidade é um desafio extra. Bruno Covas já descreveu a tarefa de gerir São Paulo como a de ser síndico de um condomínio. “Só que com 12 milhões de moradores”. Abaixo, o Nexo organiza três eixos importantes que devem influenciar a administração de Nunes na maior cidade do país.

Relações partidárias

Em maio de 2021, Nunes se vê pela primeira vez num cargo executivo. O desafio, porém, não é só municipal. O novo passo de Nunes se dá em meio a um cenário mais amplo, que envolve as costuras partidárias para 2022. Ele não era a primeira opção para ser vice de Covas, mas outras tratativas não avançaram. A indicação do emedebista envolveu uma aproximação de legendas no eixo nacional algo que contou com a articulação de Doria, que tem planos de concorrer ao Planalto e busca apoios. Na convenção do PSDB em setembro de 2020, o governador paulista foi explícito. “A coligação de Covas na capital indica aliança nacional entre PSDB, DEM e MDB”, afirmou na ocasião.

Mas a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, em fevereiro de 2021, abalou essa relação. Presidente nacional do MDB, o deputado Baleia Rossi (SP) disputou a cadeira. Ele esperava apoio do DEM e do PSDB. Só que o DEM acabou por liberar sua bancada para votar como quisesse. O PSDB quase seguiu por esse caminho, mas Doria conseguiu somar esforços para barrar a iniciativa. Rossi perdeu a disputa para o deputado Arthur Lira (PP-AL), apoiado pelo Planalto. Mais recentemente, a ida do vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, para o PSDB, impôs novo revés à costura. Garcia é cotado para disputar o governo do estado em 2020, e era filiado ao DEM. O presidente da legenda, ACM Neto, fez críticas públicas a Doria, a quem atribuiu a culpa pela investida de filiar o vice.

Já em relação ao MDB, o novo comando de Nunes sobre São Paulo fortalece a legenda. É a primeira vez que o partido assume o comando da capital paulista desde a redemocratização, sendo que a sigla foi a que mais elegeu prefeitos em 2020. Analistas políticos dizem também que a nova posição de Nunes reforça a posição do MDB na composição aventada por Doria. “A chegada do Nunes fortalece, digamos assim, o PSDB dorista”, disse ao Nexo Maria do Socorro Braga, cientista política da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). Por outro lado, qualquer ônus da gestão de Nunes pode acabar caindo na conta do governador.

Além disso, os rumos da potencial composição entre as siglas são ainda incertos. Segundo notas de bastidor do jornal Valor Econômico, o PSDB já se movimenta para filiar o novo prefeito e manter controle sobre a capital. Ao MDB, por sua vez, interessa manter o prefeito entre seus quadros. Lideranças do partido evitam, até o momento, falar publicamente sobre como o comando da capital afeta o jogo político nacional. Mas já reforçaram apoio a Nunes. “Vamos ver o quanto o Doria está disposto a bancar essa ida”, disse Braga. “Por enquanto, [é algo que] se restringe aos bastidores”.

Relações com a Câmara Municipal

No plano municipal, a perspectiva apontada é de que Nunes, assim como Bruno Covas, negocie para passar seus projetos na Câmara a partir de uma base que é tida como confortável. Pesa a seu favor o fato de ser citado como “uma pessoa de diálogo” por representantes de diferentes siglas, além do fato de ele ser tido como uma figura mais próxima dos vereadores. Por outro lado, parte da Câmara Municipal tem resistências em relação ao novo prefeito. “Ele representa um caráter muito mais conservador do que o Covas, mais refratário às pautas que eu acredito”, disse a vereadora Erika Hilton (PSOL) ao jornal Folha de S.Paulo em abril. Hilton é a primeira vereadora negra e trans a ocupar uma cadeira no Legislativo paulistano.

Analistas também apontam como relevante a relação de proximidade entre Nunes e o vereador Milton Leite (DEM), que preside a Câmara Municipal. Leite está na Casa desde 1997, e é tido como um dos políticos mais influentes de São Paulo. Segundo mais votado para a vereança em São Paulo, ele teve a campanha mais cara do Legislativo municipal. Seu reduto eleitoral, assim como o de Nunes, é na zona sul. O poder de Leite deve se fortalecer ainda mais com Nunes no comando do Executivo. O que, segundo notas de bastidores do jornal Folha de S.Paulo, também é alvo de preocupação de tucanos que temem que ele se torne uma força dominante da cidade.

Relações administrativas

Ao assumir o comando da prefeitura de São Paulo, Ricardo Nunes reitera que sua gestão será de continuidade em relação à de Bruno Covas. Em sua primeira entrevista depois da confirmação da morte de Covas, Nunes afirmou que sua gestão “não terá diferença” em relação à do tucano. “Não haverá mudança em nada que o Bruno planejou e definiu. Dizem que vou trocar secretários. É fofocaiada. Será uma gestão Bruno Covas até 2024”, afirmou o prefeito ao jornal Folha de S.Paulo no domingo (16).

A perspectiva, porém, é de que trocas aconteçam com o tempo. Notas de bastidor do jornal Valor Econômico dão conta de que aliados pressionam por espaço tanto em secretarias quanto em subprefeituras, e de que Nunes deve acabar colocando pessoas de sua confiança em cargos estratégicos sem, no entanto, minar as relações com a equipe de Covas, ao menos no primeiro momento.

Além disso, enquanto equilibra relações entre diferentes partidos, Nunes precisa garantir uma agenda de entregas e garantia de serviços à população em meio à crise sanitária da pandemia. Em entrevistas, ele vem destacando a importância que pretende conferir à gestão da saúde no momento.

Na avaliação de Jorge Abrahão, coordenador geral da Rede Nossa São Paulo e do Instituto Cidades Sustentáveis, os principais desafios de Nunes a partir de agora abrangem não só o acesso à saúde, mas outras áreas afetadas pela pandemia. “O grande guarda-chuva que a gente tem como enfrentamento dos problemas da cidade é a questão da desigualdade, que ficou como uma marca muito forte por conta da pandemia. A grande comorbidade, digamos assim, que a gente verificou na cidade é o endereço das pessoas. Essa desigualdade cobrou com vidas”, disse Abrahão ao Nexo.

Ele afirmou ainda que a desigualdade e o impacto da pandemia se mostraram também no campo da educação, da habitação e da mobilidade urbana. E que políticas de renda e trabalho devem ter papel central na agenda do município. Para Abrahão, a gestão Nunes precisa ser alinhada às propostas de Covas para garantir o compromisso que foi apresentado nas eleições. Ele reforça a necessidade de que os projetos se voltem para a parcela da população que carece do suporte público. “[Ricardo Nunes] vai ter que definir para quem ele vai governar.”

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