Por que o PIB do Brasil pode crescer mesmo ficando parado

O ‘Nexo’ explica o efeito carry-over – ou herança estatística – e como ele influencia na leitura das projeções econômicas para 2021

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A duas semanas da publicação do PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre de 2021 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as projeções do mercado para a economia seguem em alta, numa trajetória que vem desde desde meados de abril no relatório Focus.

O relatório, do Banco Central, compila semanalmente as expectativas de economistas de bancos, corretoras, agências de câmbio e de outros participantes do mercado financeiro e do setor empresarial. O boletim colhe as projeções para números como o PIB, a inflação, o câmbio e a taxa de juros.

3,45%

era o crescimento projetado para o PIB de 2021 no relatório Focus em 14 de maio de 2021

A projeção dos agentes do mercado é próxima àquela publicada pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) em abril. O órgão estimou que a economia brasileira irá crescer 3,7% no ano, na comparação com 2020.

O que é o PIB

O PIB é o resultado da soma de todos os novos bens e serviços produzidos em um país em certo período de tempo. Por ser um indicador de quanto e como a economia produziu em um intervalo de tempo, ele aponta se a atividade econômica expandiu, encolheu ou se manteve igual na comparação com outros momentos.

Como é a soma da produção de bens e serviços em um país, o PIB é um valor absoluto. Ou seja, ele é um número e pode ser quantificado em reais, em dólar, ou em qualquer outra moeda do mundo.

R$ 7,4 trilhões

foi o PIB do Brasil em 2020

Normalmente, as notícias ligadas ao PIB trazem porcentagens em destaque. Essas porcentagens não são o PIB em si, mas sim a variação do PIB, fruto da comparação do produto de dois intervalos diferentes.

Se a soma de tudo que foi produzido em um país em um período for maior que no período anterior, essa porcentagem será positiva, e será noticiado um crescimento. Se essa soma for menor, fala-se em queda do PIB ou contração da economia que, em alguns casos, pode se encaixar no conceito de recessão.

A economia em 2020

A base de comparação para o PIB de 2021 é o ano de 2020. No primeiro ano da pandemia, a economia teve o terceiro pior desempenho anual desde 1901 melhor apenas que 1990 e 1981.

4,1%

foi a queda do PIB brasileiro em 2020, em relação a 2019

A retração do PIB em 2020 foi resultado direto da pandemia, que levou à paralisação parcial da atividade a partir de março. Seja por imposição de restrições à circulação impostas pelo poder público, seja por precaução, já que as aglomerações potencializam a transmissão da covid-19, muitas pessoas ficaram em casa e reduziram seu consumo.

Com menos dinheiro circulando, empresas tiveram que fazer ajustes nas contas, o que muitas vezes significou demitir funcionários. Nesse cenário, o desemprego atingiu patamares recordes e fechou 2020 em 13,5% na média do ano. É o maior patamar anual para o desemprego da série do IBGE, iniciada em 2012.

Em 2021, boa parte desses fatores permaneceu. Mesmo com o início da campanha de vacinação (que está lenta), a crise sanitária se agravou no início do ano chegando a seu pior momento. A situação, por sua vez, levou à adoção de novas medidas de restrição à circulação por governos locais.

O mercado de trabalho continua fragilizado. Os brasileiros mais vulneráveis passaram os primeiros três meses do ano sem o auxílio emergencial principal política pública de suporte à população em 2020. Quando foi reeditado, em abril de 2021, o programa voltou com alcance e valores menores.

Apesar do quadro, a expectativa é de crescimento econômico em relação a 2020.

A herança estatística. E como aparece em 2021

O fato de que a economia teve desempenho historicamente ruim em 2020 significa que a base para comparação usada para a economia em 2021 será muito baixa. Ou seja, é muito difícil que o Brasil tenha um resultado tão ruim em 2021 como teve em 2020 mesmo com a persistência de tantos fatores negativos. Isso ajuda a explicar por que as projeções para o PIB são de crescimento.

Esse efeito faz parte daquilo que economistas chamam de carry-over herança estatística ou efeito-carregamento, em português. Ele pode ser definido como a contribuição que o resultado de um indicador em um determinado período tem sobre esse mesmo dado no período seguinte.

Quando se fala em carry-over para o PIB, normalmente se discute quanto um país irá crescer ao longo de um ano se mantiver o mesmo nível de atividade registrado no fim do ano anterior. Trata-se, portanto, de um exercício hipotético para simular o movimento do PIB anual de um país, em um cenário em que o país produz a mesma quantidade de bens e serviços em todos os trimestres.

O carry-over, porém, não é um conceito que se aplica somente ao PIB. Se, por exemplo, uma loja registra um recorde de vendas extraordinário em um mês, é improvável que ela consiga manter esse nível de receita no mês seguinte. Portanto, a tendência é de queda das vendas no mês seguinte, mesmo que na comparação com outros anos o resultado possa ser considerado bom.

Como o Brasil pode crescer ficando parado

Em 2020, o momento em que a economia brasileira foi mais atingida pela pandemia foi o segundo trimestre ápice da adesão às medidas de isolamento social no país. Os entre abril e junho representaram o “fundo do poço” da atividade no ano.

No segundo semestre, houve um princípio de recuperação, com o relaxamento das quarentenas. O movimento não foi suficiente para retornar a atividade ao nível de 2019, período pré-pandêmico. O IBGE ainda não divulgou dados do PIB em 2021, algo que está previsto para 1° de junho.

O melhor resultado trimestral de 2020 veio justamente no último trimestre. Se o nível do produto desse período for mantido ao longo de todos os trimestres de 2021, o Brasil irá crescer no total do ano, na comparação com 2020. Isso porque a soma do produto de todos os trimestres de 2021 será maior que a soma do produto de todos os trimestres de 2020.

Calculando o carry-over de 2021

A partir de dados do IBGE, o Nexo calculou o efeito carry-over esperado para 2021. As contas foram feitas a partir da série com ajuste sazonal disponibilizada pelo IBGE.

Se considerarmos o quarto trimestre de 2020 como uma base igual a 100 (a unidade de medida desse número não é relevante para o cálculo), podemos dizer que o PIB de cada trimestre do ano foi:

  • 1° trimestre de 2020: 99,2
  • 2° trimestre de 2020: 90
  • 3° trimestre de 2020: 96,9
  • 4° trimestre de 2020: 100

Somando os resultados trimestrais, podemos dizer que, nesses parâmetros, o PIB do Brasil foi equivalente a 386,1 no ano de 2020.

Se em 2021 o PIB de todos os trimestres for idêntico ao do final de 2020, o produto de todos os trimestres vai ser 100 em cada um deles. Portanto, ao final do ano, o país terá produzido 400. A diferença entre esses números 386,1 em 2020 e 400 em 2021 é justamente o efeito carry-over.

3,6%

é o efeito carry-over esperado para 2021. Ou seja, é o crescimento esperado para o ano se o nível do final de 2020 for mantido em todos os trimestres de 2021.

O que esse número significa

O efeito carry-over de 2021 diz que mesmo que o Brasil não registre nenhum crescimento ao longo do ano todo na comparação de base trimestral, o resultado do PIB no total do ano já será 3,6% melhor do que foi em 2020.

Ou seja, se o Brasil “ficar parado” e produzir em todos os trimestres a mesma quantidade de bens e serviços que produziu entre outubro e dezembro de 2020, o resultado agregado de 2021 já será superior ao do ano anterior.

Isso, por um lado, reforça o fato de que o PIB de 2020 foi muito ruim, a ponto de permitir esse crescimento anual mesmo que seja mantido o patamar de produção trimestral do final de 2020 quando teve início o recrudescimento da pandemia.

Por outro lado, esse número ajuda a colocar em perspectiva as projeções para o PIB em 2021. Se o efeito carry-over é de 3,6%, isso significa que qualquer projeção que coloca o PIB crescendo abaixo desse número entende que o país não conseguirá manter esse nível de produção do final de 2020.

A projeção do relatório Focus, por exemplo, coloca que o Brasil irá crescer 3,45% em 2021, na comparação com 2020. Considerando o carry-over, isso significa que o mercado projeta que o Brasil não terá crescimento em todos os trimestres.

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