O impacto da suspensão da produção de vacinas no Brasil

Butantan e Fiocruz interrompem envase de doses no país por atraso na importação de insumos da China, dificultando cumprimento de cronograma

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Os laboratórios brasileiros que produzem as duas principais vacinas contra a covid-19 usadas pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações) anunciaram a suspensão do envase dos imunizantes no país por falta de matéria-prima importada da China. A paralisação tem impacto no ritmo da campanha de vacinação, que já vinha caindo. Mais da metade dos estados suspenderam a aplicação das doses por falta de vacinas.

O Instituto Butantan, que fornece a Coronavac, interrompeu a produção desde a sexta-feira (14). Segundo o governador de São Paulo, João Doria, o problema se deveu a um “entrave diplomático, fruto de declarações inadequadas, desastrosas feitas pelo governo federal contra a China”. “Isso gerou um bloqueio por parte do governo chinês para a liberação do embarque desses insumos”, afirmou.

70%

das doses contra a covid-19 aplicadas no Brasil até a segunda-feira (17) eram da vacina da Sinovac, produzidas pelo Butantan

No começo de maio, durante uma cerimônia em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro sugeriu que o novo coronavírus havia sido criado em laboratório pela China para fins de uso militar numa suposta “guerra química”. O governo chinês respondeu dizendo que se opunha à “politização e estigmatização do vírus”. Para tentar minimizar o estrago da declaração, o Itamaraty disse que o Brasil deveria “louvar” a China.

Tanto o Butantan quanto a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que é ligada ao Ministério da Saúde e produz a vacina de Oxford no Brasil, dependem da importação do IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) da China. No caso do Butantan, havia um lote com 10 mil litros de IFA parado na China, aguardando a liberação, segundo o governo paulista. Esse lote seria suficiente para produzir 18 milhões de doses da Coronavac.

Na segunda-feira (17), Doria publicou em suas redes sociais que o Butantan recebeu a previsão do governo chinês da chegada de 4.000 litros de insumos em 26 de maio, quantidade capaz de produzir 7 milhões de doses — apenas parte do anunciado. Mesmo com essa previsão de entrega, o instituto ficaria ao menos duas semanas parado.

Os atrasos fizeram o laboratório reduzir de 12 milhões para 5 milhões a estimativa de fornecimento de vacinas para o governo federal em maio. Presidente do Butantan, Dimas Covas disse que o cronograma só poderia ser cumprido se os insumos chegassem “muito rapidamente”.

O atraso na Fiocruz

Uma das instituições mais afetadas pelos atrasos nas entregas de IFA, a Fiocruz disse ter matéria-prima para manter a produção até meados desta semana, iniciada no domingo (16). A fundação afirmou que iria interromper a produção “por alguns dias” e que não sabia se isso poderia ter impacto na entrega de doses, que vem sendo feita semanalmente.

“Por conta do rápido escalonamento de produção que a Fiocruz atingiu, as remessas de IFA vêm sendo consumidas antes do tempo previsto inicialmente, e será necessário interromper a produção na próxima quinta-feira (20) até a chegada do novo lote de insumo”, disse a instituição, em nota divulgada na segunda-feira (17).

Segundo a instituição, possíveis impactos na distribuição dos imunizantes ainda seriam avaliados e “comunicados mais à frente”.

Em audiência no Congresso, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz, afirmou, também na segunda-feira (17), que o governo brasileiro recebeu a confirmação do embarque, no próximo dia 21, de dois lotes de insumos para a Fiocruz (o lote previsto para 29 de maio foi antecipado e chegaria junto). A quantidade é suficiente para produção de cerca de 12 milhões de doses, segundo a instituição.

Ao todo, a fundação já entregou para o PNI cerca de 35 milhões de doses de vacinas contra a covid-19, das quais 4 milhões haviam sido importadas prontas da Índia. Ainda em maio, a instituição prevê começar o início da produção do IFA no Brasil, o que acabaria com a dependência de importação do insumo.

As primeiras vacinas inteiramente nacionais, porém, só começariam a ser entregues em outubro. “O processo passa por muitas etapas de produção de lotes e de controle de qualidade até podermos entregar ao Programa Nacional de Imunizações as vacinas produzidas em Bio-Manguinhos, na Fiocruz”, afirmou em entrevista à CNN Brasil, no começo de maio, a presidente da fundação, Nísia Trindade Lima.

Redução no ritmo de imunização

A vacinação no país sofreu uma redução nas duas primeiras semanas de maio, segundo dados compilados pelo consórcio de veículos de imprensa. Na semana de 9 a 14 de maio, foram aplicadas 726 mil doses por dia, em média. Na última semana de abril, a média diária havia chegado a 880,9 mil.

Uma estratégia equivocada do Ministério da Saúde divulgada pelo ex-ministro Eduardo Pazuello, ainda em março, fez com que estados e municípios ficassem sem as vacinas necessárias para a aplicação das segundas doses. A orientação, à época, era que os governos aplicassem todo o estoque disponível para acelerar a campanha. Como houve atrasos nas entregas, muitas regiões ficaram sem vacinas para a segunda dose por não ter feito as reservas.

Mais da metade dos estados brasileiros já havia suspendido a aplicação de imunizantes por falta de vacinas. O problema atingia 15 estados, entre os quais Minas Gerais, onde apenas 23 dos 853 municípios estavam conseguindo cumprir os prazos até a sexta-feira (14). Em Belo Horizonte, a prefeitura só conseguia aplicar a segunda dose nas pessoas com 67 anos ou mais.

Os riscos da paralisação

O atraso no fornecimento de mais vacinas e a lentidão da campanha de imunização preocupam devido aos riscos de uma terceira onda de covid-19. O número de casos em todo o país apresenta estabilização num patamar considerado ainda muito alto. No domingo (16), a média móvel de mortes voltou a subir depois de 15 dias em queda. O Brasil ainda beira a média de 2.000 óbitos diários pelo coronavírus.

Em texto publicado no jornal O Estado de S.Paulo, no sábado (15), a epidemiologista Ethel Maciel, que é professora da Universidade Federal do Espírito Santo, escreveu que o atraso na produção impacta “na transmissão da doença, no alívio dos sistemas de saúde” e, principalmente, “na proteção da vida”. “Significa colocar mais pessoas em risco”, afirmou.

Segundo ela, a redução no ritmo da vacinação, a falta de um programa de testagem em massa e de um lockdown nacional que reduziria a circulação do vírus colocam o país numa “situação crítica”. A flexibilização das medidas restritivas e a queda na vacinação empurram o país para uma terceira onda no inverno, de acordo com a epidemiologista. Com início em junho, o inverno é a época do ano com maior circulação de vírus respiratórios.

Para os especialistas, a dúvida não é mais se o país terá uma terceira onda, mas quando ela irá acontecer. Em entrevista ao Nexo no final de abril, a doutora em saúde pública Suzana Pasternak, que é professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP, apontou justamente a lentidão da vacinação no país como um fator para que uma nova onda possa ocorrer.

“Nós temos ainda um estoque grande de gente não vacinada, infelizmente. Elas têm chance de se infectar, não quer dizer que vão ser. Eu não sei se elas não foram infectadas ainda porque são imunes, ninguém sabe. Em Manaus, depois da primeira onda, a gente tinha achado que a cidade estava livre porque todo mundo que deveria morrer, morreu. E teve uma segunda onda tenebrosa”, disse.

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