Guerra do streaming: a fusão da Warner com a Discovery

Acordo bilionário é novo capítulo de uma disputa entre plataformas que deve definir o futuro da indústria do entretenimento

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A gigante das telecomunicações AT&T anunciou nesta segunda-feira (17) planos para fundir sua subsidiária de entretenimento a Warner Media, dona de empresas como HBO, CNN e DC Entertainment com a Discovery Inc, que tem em seu catálogo de propriedades os canais de TV Discovery, Food Network e Animal Planet.

O valor da transação é de US$ 43 bilhões. O processo de fusão será feito a partir de um dispositivo presente na estrutura tributária dos EUA chamado Truste Morris Reverso.

O procedimento permite que duas empresas sejam fundidas com uma incidência muito baixa de impostos. Ele é feito a partir da criação de uma terceira companhia, que ficará sob o comando de acionistas da empresa maior (no caso, a AT&T) e que, por sua vez, se junta com a menor (a Discovery Inc).

Para os efeitos legais e fiscais, o acordo envolve duas empresas menores, resultando em uma alíquota de impostos reduzida para ambas as partes.

O principal plano da fusão é a criação de uma plataforma de streaming que reúna as propriedades intelectuais da Warner Media e da Discovery Inc em um único local, reforçando a ideia de que a principal disputa da indústria do entretenimento está na casa do público.

“Vamos combinar a biblioteca da Warner Media com a presença forte da Discovery em mais de 200 países e territórios”, afirma nota da AT&T enviada para a revista The Hollywood Reporter.

O comando da nova empresa ficará nas mãos de David Zaslav, atual CEO da Discovery. Jason Kilar, que dirige a Warner Media, já está negociando sua saída do cargo.

Caminho ainda é longo

Por se tratar de um acordo bilionário e com muitas variáveis envolvidas, o caminho até a oficialização do negócio é longo. Segundo a AT&T, a transação só deve se concretizar de fato em algum momento de 2022.

Há uma série de decisões a serem tomadas por ambas as partes, e que, pelas leis dos Estados Unidos, devem ser aprovadas pelos diretores das duas empresas.

Outro ponto de discussão que leva muito tempo é a decisão de como será formado o conselho executivo da nova companhia que deve trazer nomes tanto da AT&T quanto da Warner. De acordo com a revista The Hollywood Reporter, 71% da empreitada será de propriedade de investidores da gigante das telecomunicações.

É necessário também decidir como será a estrutura de funcionários da nova empresa e determinar quais equipes de cada parte serão levadas ao empreendimento.

O processo também deve ser aprovado por órgãos reguladores dos EUA e dos países nos quais a empresa deseja atuar. No Brasil, o responsável por isso é o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Em 2017, quando a AT&T estava comprando a Warner Media, o Cade aprovou a compra, porém com ressalvas.

Isso porque a AT&T é dona da operadora de TV Sky, uma das principais do Brasil. O órgão condicionou a oficialização do negócio ao comprometimento de manter a Warner Media como uma empresa separada da Sky em território nacional inclusive com CNPJs diferentes e sob o veto do tráfego de informações estratégicas entre as companhias.

A guerra dos streamings

Na indústria do entretenimento, é consenso que a guerra dos streamings vai decidir o futuro do mercado.

Na segunda metade da década de 2010, estúdios e produtoras correram para lançar suas próprias plataformas de conteúdo, criando suas próprias Netflix empresa líder no segmento.

Contudo, na chegada da década de 2020, o cenário mudou. Muitas plataformas significam valores maiores desembolsados mensalmente pelo consumidor final, que passa a ter que escolher bem suas assinaturas.

No Brasil, para assinar o plano básico dos cinco principais serviços de streaming disponíveis (Netflix, Amazon Prime Video, GloboPlay, HBO Go e Telecine Play) é necessário desembolsar, todos os meses, R$ 124,50.

Se acrescidos de outros serviços de streaming de filmes e séries e plataformas de música e leitura, o valor pode chegar aos R$ 250 mensais. Nos EUA, a assinatura de todos os serviços disponíveis resulta em uma conta de cerca de US$ 150 mensais.

Globalmente, o valor alto decorrente do excesso de ofertas pode ter feito a pirataria voltar a crescer.

Um estudo realizado pela empresa de pesquisas Sandvine, publicado em novembro de 2018, identificou que os downloads por torrent, principal sistema usado para a pirataria de filmes e séries, representava 32% do tráfego de envio de dados naquele ano.

Em 2011, o sistema torrent ocupava 52% do tráfego de envio de dados na internet. Depois, em 2015, com a popularização dos serviços de streaming, a porcentagem caiu para 26%. Nos últimos anos, voltou a crescer.

A Sandvine afirma que a ampla oferta de serviços de streaming e de conteúdos exclusivos de cada um deles e o valor decorrente disso tudo fazem com que o usuário assine uma ou duas plataformas e faça o download ilegal de outros conteúdos que deseja consumir.

Dentro desse contexto, parcerias entre estúdios e plataformas já consagradas se tornaram uma tendência.

Em abril, a Sony fechou um acordo com a Netflix, garantindo exclusividade de seus filmes na plataforma por 18 meses após o lançamento.

Duas semanas depois, a Sony fechou um acordo com a Disney, garantindo que, após os 18 meses de exclusividade na Netflix, os longas serão incluídos no catálogo do Disney+.

Em 2019, a Warner Media assinou um contrato para ser a distribuidora oficial dos conteúdos do canal inglês BBC nos Estados Unidos, matando rumores de que a emissora poderia criar uma plataforma própria fora do território britânico.

Para analistas de mercado, é possível que, no futuro, mais parcerias do tipo sejam concretizadas e alguns dos serviços que surgiram acabem migrando seu conteúdo para outras plataformas que tenham mais adesão.

“Minha previsão sobre o futuro do streaming está se concretizando mais rápido do que eu pensava. Só vão sobrar uns cinco grandes serviços”, afirmou no Twitter Rodrigo Salem, jornalista de entretenimento da Folha de S.Paulo.

“Nem todo serviço de streaming merece existir ou vencer essa guerra”, disse à NBC Kevin Mayer, ex-diretor do Disney+. “Teremos vencedores e perdedores nos próximos anos.”

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