Por que não faz sentido escolher qual vacina tomar contra a covid 

Moradores de São Paulo se recusam a receber outros imunizantes depois da chegada de doses da Pfizer, segundo reportagens. Especialistas em saúde alertam que prática tem impactos individuais e coletivos 

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Com a chegada de doses da Pfizer ao país, no fim de abril, parte dos brasileiros aptos a se vacinar tem recusado outros imunizantes disponíveis nas unidades de saúde, como a vacina de Oxford e a Coronavac, na expectativa de receber o medicamento americano.

Os motivos variam: enquanto parte das pessoas diz preferir a vacina da Pfizer pelo alto índice de eficácia, que chega a 95%, outros desejam tomá-la porque acreditam que com o imunizante americano conseguirão viajar para o exterior, já que ele tem sido amplamente usado nos Estados Unidos e em países da Europa.

A preferência pela Pfizer também pode ser explicada pela rejeição a outros imunizantes. Mesmo que reações adversas às vacinas contra a covid-19 sejam raras e brandas, a divulgação de relatos de eventos ligados à Coronavac ou à vacina de Oxford tem levado parte das pessoas a buscar outra marca.

Em São Paulo, há relatos de moradores que foram aos postos de saúde em busca de doses da Pfizer e decidiram ir embora quando descobriram que elas não estavam disponíveis, a ponto de adiar sua vacinação, segundo o jornal Agora São Paulo. Distribuídos na capital desde quarta-feira (5), os imunizantes esgotaram em dois dias.

A vacinação ocorre por ordem de chegada das doses, e não é possível “escolher” qual vacina tomar. Recusar-se a receber a imunização disponível enquanto não há a que se deseja — seja a Pfizer, seja qualquer outra — não é recomendado pelas autoridades de saúde. Enquanto esperam uma dose específica, as pessoas que continuam sem imunização correm o risco de se infectar pelo novo coronavírus.

Existem hoje três vacinas contra a covid-19 disponíveis para os brasileiros: a Coronavac, a vacina de Oxford/AstraZeneca e, desde abril, a Pfizer. Todas passaram por testes que comprovam sua segurança e eficácia contra o novo coronavírus, e sua aplicação é autorizada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Como o comportamento afeta a pandemia

A principal razão pela qual especialistas não recomendam que as pessoas recusem os imunizantes disponíveis é a saúde pública. A vacinação não é apenas uma ferramenta de proteção individual — ou seja, quem se vacina se protege —, mas coletiva.

A médica Flávia Bravo, diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) explicou ao Nexo o papel coletivo de quem se vacina. “Para controlar a covid-19, precisamos de alta cobertura vacinal rapidamente, não só para diminuir o número de doentes, mas para reduzir a circulação do vírus”, disse.

A vacinação em massa, ao barrar a circulação do vírus, cria o que especialistas em saúde chamam de imunidade coletiva, que é a proteção de toda a população, incluindo de quem não foi vacinado — ou de quem foi vacinado, mas não conquistou a imunidade, na medida em que nenhuma vacina é totalmente eficaz.

“É preciso entender que vacinação é proteção da gente, mas também da comunidade. Cada um tem seu papel. Quando escolho não participar do cronograma, dou margem para que a população não atinja as metas de cobertura vacinal, e a gente não sai da crise sanitária”

Flávia Bravo

médica e diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), em entrevista ao Nexo

Mesmo quem foi imunizado corre riscos enquanto a pandemia durar, ainda que esses riscos sejam reduzidos, explica Bravo. Enquanto os índices de contágio estiverem altos, existe a possibilidade de surgirem variantes do coronavírus que escapem da imunização das vacinas existentes, por exemplo.

“Ainda convivemos com a dificuldade de adquirir vacina”, afirmou a médica ao Nexo. O país recebeu em abril e maio as primeiras remessas de doses da Pfizer, mas a maior parte dos imunizantes contratados deve chegar no segundo semestre, segundo o cronograma do governo. A distribuição de doses pelo mundo também tem sido irregular por causa da escassez. “Não temos muita certeza de que os planejamentos [para adquirir os imunizantes] irão se concretizar”, segundo Bravo.

Por que não comparar eficácias

O aumento da cobertura vacinal também compensa as diferenças entre eficácias das vacinas, segundo Bravo. “Mesmo que as vacinas disponíveis tenham eficácias diferentes, ou não tão altas, o risco de contaminação diminui quando vacinamos em massa e rapidamente”, disse ela ao Nexo.

A eficácia de uma vacina é um dado importante para que os gestores de saúde entendam quantas pessoas devem se vacinar para que a população chegue à imunidade coletiva, segundo Bravo. Se a eficácia de uma vacina é maior, precisa-se de menos vacinados para se barrar a circulação do vírus.

Mas, do ponto de vista individual, faz pouca diferença vacinar-se com a Coronavac ou com a Pfizer em um cenário de ampla imunização, de acordo com a médica. “Se há um número grande de vacinados, a diferença individual [entre eficácias] se dilui, porque há menos circulação do vírus”, disse Bravo.

Outro ponto citado por Bravo é que, mesmo que tenham eficácias diferentes para prevenir casos sintomáticos da covid-19 — a Coronavac apresenta 50,4% de proteção, e a vacina de Oxford, 76% —, todos os imunizantes aprovados no país previnem igualmente casos graves e mortes pela doença. O índice chega virtualmente a 100%.

“Mesmo vacinas que têm eficácia de 50% ou de 70% para casos sintomáticos [ou seja, todos os casos de covid-19 com sintomas] registram minoria de doentes graves. Quem adoecer terá sintomas leves. Com isso, começaremos a controlar a doença”

Flávia Bravo

médica e diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), em entrevista ao Nexo

A médica também apontou que há uma diferença entre eficácia e eficiência de uma vacina. Estudos vêm mostrando que o grau de proteção dos imunizantes na vida prática tem se revelado mais alto do que a eficácia anunciada na época dos primeiros testes, feitos com poucas pessoas e tempo.

Em abril, pesquisa com profissionais de saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo imunizados com a Coronavac mostrou que a eficiência da vacina pode chegar a até 73,8% após a segunda dose. O estudo acompanhou os efeitos da vacina em mais de 20 mil pessoas vacinadas nos primeiros meses de 2021.

O medo das reações adversas

A possibilidade de desenvolver reação adversa a alguma das vacinas contra a covid-19 também não é motivo para se recusar a receber alguma dose, considerando os benefícios da imunização, segundo Bravo. “São eventos que passam sem sequela, e um preço pequeno que se paga pela proteção”, disse ao Nexo.

As reações adversas mais comuns entre os brasileiros que receberam alguma vacina contra a covid-19 incluem febre, dor de cabeça, indisposição e dor passageira no local da aplicação do imunizante, apontou a médica. Nos EUA, que receberam há mais tempo vacinas como a Pfizer e a Moderna, reações parecidas também foram relatadas. Além de brandos, esses eventos são raros, segundo dados oficiais.

1 a cada 500

pessoas teve reação adversa à vacina contra a covid-19 na cidade do Rio de Janeiro, segundo dados da imunização até maio de 2021

Os eventos adversos também não são exclusivos de vacinas contra a covid-19, mas comuns para qualquer vacina, disse Bravo ao Nexo. Ela citou o exemplo da vacina de Oxford, que tem sido alvo de reclamações de parte das pessoas que não querem recebê-la. “Ela tem tantas reações [como febre, dor de cabeça, indisposição] quanto outras que a gente conhece, como a meningocócica e a pneumocócica”, disse.

“[Medo de reações adversas] não pode ser motivo para se recusar a vacina contra a covid-19. É aquele ditado: o combinado não sai caro. As pessoas devem saber que podem ter reações, e elas podem se cuidar, mas elas têm que saber que esses eventos irão passar”

Flávia Bravo

médica e diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), em entrevista ao Nexo

A médica não citou o risco de trombose associado à vacina de Oxford. A formação de coágulos como efeito colateral do imunizante foi incluída na bula do medicamento depois que países da Europa registraram casos de pessoas que receberam a dose e desenvolveram a doença. Mas esse é um evento adverso considerado muito raro, sobretudo no comparativo com a incidência normal de trombose entre a população.

Os efeitos da vacinação até agora

Embora a vacinação contra o novo coronavírus ainda atinja uma pequena parcela da população brasileira, estudos têm identificado benefícios da imunização em grupos que receberam doses da Coronavac e da vacina de Oxford, desde o início da campanha, em meados de janeiro.

35,9 milhões

de brasileiros receberam a primeira dose da vacina contra a covid-19 no país até segunda-feira (10), segundo consórcio de veículos de imprensa; 18 milhões receberam as duas doses

Estudo de abril na versão pré-print de pesquisadores da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) e da universidade americana de Harvard mostra que a proporção de óbitos de idosos acima de 80 anos começou a cair rapidamente a partir da segunda metade de fevereiro.

Desde o início da pandemia, idosos com mais de 80 anos correspondiam a cerca de 25% a 30% das mortes por covid-19 no país, segundo o estudo. Em fevereiro, essa proporção passou a cair para abaixo de 15%. Nesse mês, mais de 90% das pessoas nessa faixa etária haviam recebido a vacina contra a covid-19.

A vacinação também surtiu efeitos entre os profissionais de saúde, ajudando a salvar a vida de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem durante a segunda onda da covid-19 no Brasil nos primeiros meses de 2021, segundo dados do Cofen (Conselho Federal de Enfermagem).

Em abril de 2021, de acordo com a entidade, a queda de óbitos entre esses profissionais foi de 71% em comparação com março. Outro levantamento mostra que, entre os médicos, a redução das mortes em março de 2021 foi de 83% em comparação com janeiro, quando eles começaram a ser vacinados.

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