A morte de Bruno Covas após a batalha contra o câncer

Enfrentando doença no trato digestivo, prefeito de São Paulo estava afastado do cargo desde o início de maio

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Bruno Covas morreu neste domingo (16) em decorrência de um câncer no trato digestivo. O prefeito de São Paulo tinha 41 anos e vinha lutando contra a doença desde o diagnóstico dado em outubro de 2019. O tucano chegou a se afastar do cargo no início de maio, quando seu quadro de saúde piorou. Com sua morte, a maior cidade do país passa a ser administrada definitivamente pelo vice Ricardo Nunes (MDB).

Bruno era neto de Mário Covas (1930-2001), político que ajudou a fundar o PSDB e foi prefeito e governador de São Paulo. Formado em direito e economia, Bruno se filiou ao PSDB em 1998. No partido, foi presidente estadual e nacional da Juventude Tucana.

A ascensão na política até a prefeitura

Bruno Covas estreou em eleições em 2004, quando se candidatou a vice-prefeito de Santos, cidade em que morou, na chapa do também tucano Raul Christiano. A dupla ficou em quarto lugar. Nas eleições seguintes foi mais bem sucedido. Carregando o sobrenome Covas, foi eleito deputado estadual em 2006 e deputado federal em 2014.

Entre 2011 e 2014, foi secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo, na gestão do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Em 2016, foi eleito como vice-prefeito na chapa de João Doria, também do PSDB, ainda no primeiro turno. Acumulou o cargo de vice com o comando da Secretaria das Prefeituras Regionais e, posteriormente, da Secretaria da Casa Civil.

Em abril de 2018, Doria renunciou à prefeitura para disputar o governo do estado, abrindo caminho para que Bruno Covas assumisse o comando da maior cidade do país. O novo prefeito tentou fugir do estilo do antecessor. Prometeu ser um prefeito “menos liberal” e mais “social-democrata” – como seu avô. Em entrevista ao Nexo em abril de 2019, ele defendeu que o PSDB voltasse às origens e buscasse ser “radical de centro”.

Isso ocorreu num momento em que Doria passou a puxar o partido cada vez mais para a direita, flertando inclusive com o bolsonarismo. Após ser eleito governador na onda extremista de 2018, Doria acabou virando adversário de Bolsonaro.

A reeleição e o agravamento da doença

Em 2019, Covas recebeu o diagnóstico de câncer no trato digestivo. Em tratamento imunoterápico desde outubro daquele ano, as lesões cancerígenas do prefeito regrediram.

Em 2020, o prefeito partiu para a reeleição, após conduzir uma gestão sem grandes bandeiras. Na pandemia do novo coronavírus, adotou quarentenas e atitudes sem confrontar as recomendações das autoridades sanitárias. Sua gestão na área foi bem avaliada pela população.

Na campanha, evitou se associar com Doria, político que tem pretensões presidenciais para 2022. Escolheu como vice Ricardo Nunes, um vereador do MDB que também participou pouco da campanha.

Após vencer Guilherme Boulos (PSOL) no segundo turno, Bruno assumiu o segundo mandato ainda diante do desafio da pandemia. Se na campanha o tucano dizia que a covid-19 estava sob controle, depois precisou lidar com uma nova onda de contaminações, como ocorreu em boa parte do Brasil.

Em abril de 2021, exames apontaram novos pontos de câncer no fígado e nos ossos de Bruno. Internado no hospital Sírio-Libanês, o prefeito apresentou acúmulo de líquidos ao redor do pulmão e do abdômen. Ele obteve uma leve melhora, mas no início de maio teve um sangramento no local do tumor inicial, com deterioração de seu quadro de saúde. Na sexta-feira (14), um boletim médico afirmou que seu quadro clínico era irreversível.

A morte foi lamentada por aliados, como Doria, e políticos de oposição da esquerda à direita. Os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB) registraram suas condolências nas redes sociais. Adversários locais de Covas, como Boulos e Fernando Haddad (PT), também emitiram mensagens de pesar. O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, afirmou que Covas, ao trabalhar por mais de um ano e meio sob tratamento contra o câncer, "serve de inspiração a todos na vida pública". O próprio presidente veio a se solidarizar com um tuíte horas depois da notícia da morte do ex-prefeito.

Bruno deixa um filho adolescente, Tomás.

Quem é o novo prefeito de São Paulo

Eleito vice, Ricardo Nunes é próximo do vereador Milton Leite (DEM), atual presidente da Câmara Municipal. Empresário, o novo prefeito de São Paulo tem uma breve carreira na política. Sua base eleitoral está na zona sul da cidade e na Igreja Católica.

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo no início de maio, quando Bruno Covas se licenciou do cargo, disse se sentir “preparado” para a função, mas destacou que não faria “nada sozinho”. “Toda decisão mais complexa que tiver de tomar será feita em comum acordo com a equipe e com o próprio Bruno”, disse na ocasião.

Discreto, Nunes não era a primeira opção na chapa pela prefeitura. Outros nomes chegaram a ser ventilados para a candidatura tucana, como o do deputado Celso Russomanno (Republicanos), mas as tratativas não avançaram.

Antes de ingressar na política, Nunes fundou uma empresa que atua no ramo de controle de pragas urbanas e tratamento fitossanitário. Participou também da fundação e gestão de associações ligadas ao setor. Em 2012, conquistou uma vaga na Câmara Municipal e foi reeleito em 2016.

Entre outros pontos, a costura que selou a indicação de Nunes também envolveu alianças partidárias. Doria foi explícito na convenção do PSDB em setembro de 2020. “A coligação de Covas na capital indica aliança nacional entre PSDB, DEM e MDB”, afirmou na ocasião, referindo-se a 2022.

Político conservador, Nunes foi alvo de críticas por sua relação com empresários que mantêm contratos de creches com a administração municipal. Reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo em outubro de 2020 revelou também que Nunes foi alvo de denúncias de violência doméstica pela esposa, Regina Carnovale, em 2011. Atualmente os dois estão juntos e negam o ocorrido.

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