Mortes em queda, casos em alta: o quadro de risco da covid

Média móvel de óbitos é quase 20% menor no Brasil em maio do que no fim de abril, mas infecções estão em patamar elevado. Especialistas alertam para chance de nova onda 

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Os dados da pandemia do novo coronavírus no país em meados de maio de 2021 mostram que a média de mortes diárias pela doença caiu, enquanto o número de novos casos de infecção segue estável, em um dos patamares mais altos desde o início da pandemia.

A média móvel de óbitos por covid-19 ficou em 1.931 no país na sexta-feira (14), número 19,5% menor em comparação com as duas semanas anteriores, quando esse patamar ultrapassava 2.400, segundo dados divulgados pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde). A média móvel é a média de óbitos dos últimos sete dias, calculada para nivelar oscilações da contagem diária, que costuma cair nos fins de semana.

A queda nos números começou a partir da segunda metade de abril, depois de o país ter passado pelo que especialistas consideram o pico do surto da doença até hoje. Em março e no início de abril, o país bateu recorde de letalidade pelo novo coronavírus, e as redes de saúde de diversos estados entraram em colapso.

Em queda

Gráfico mostra mortes por covid. Números seguem tendência de queda.

Embora os óbitos estejam em queda, eles seguem um patamar alto em comparação com novembro de 2020, quando a média de mortes por covid-19 ficava em torno de 300 vítimas diárias. Especialistas apontam que o quadro atual exige manter as medidas de prevenção.

Outro dado que preocupa cientistas que analisam o comportamento da pandemia é o de infecções diárias. Na sexta-feira (14), o país registrou 85.536 novos casos de covid-19. Desde o início do mês, a média está estável em cerca de 60 mil infecções por dia. Em abril, depois de um pico no mês anterior, o país havia visto uma pequena queda do contágio, mas agora os números pararam de cair.

Especialistas afirmam que o quadro pode levar o país à estabilização de mortes em um alto patamar ou a uma nova alta no número de vítimas de covid-19 nas próximas semanas. A flexibilização das medidas de controle da pandemia nos estados e o ritmo lento de vacinação devem contribuir para a piora do cenário.

432,6 mil

brasileiros foram mortos pelo novo coronavírus até sexta-feira (14), segundo dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde)

15,5 milhões

de brasileiros foram diagnosticados com covid-19 até sexta-feira (14), segundo dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde)

Por que as mortes caíram

Embora pareçam contraditórios, os dados que indicam a queda no número de mortes e o aumento nos casos contam a mesma história, segundo especialistas ouvidos pelo Nexo. Os dois índices estão ligados à criação e, depois, à flexibilização de medidas de prevenção adotadas na pandemia.

Com o pico da crise entre março e abril, governos locais determinaram medidas de restrição de mobilidade como fechamento de comércio não essencial e outras atividades. O efeito disso foi a redução de casos de covid-19, embora as mortes não tenham caído imediatamente, explicou Isaac Schrarstzhaupt, cientista de dados e coordenador do grupo Rede Análise Covid-19.

“O efeito da restrição de mobilidade sobre as infecções é imediato — sem mobilidade, sem casos —, mas tardio para as mortes”, disse ao Nexo. Existe um atraso entre a notificação de casos e óbitos. “Ninguém pega covid-19 num dia e morre no outro; há um tempo entre isso, geralmente de três a quatro semanas”, afirmou.

A queda no número de óbitos hoje, portanto, é resultado das medidas de prevenção que resultaram na redução das infecções por covid-19 semanas atrás. “É como se os casos fossem o plantio, e os óbitos fossem a colheita. Se planto casos, colho óbitos; se não planto, não colho”, disse Schrarstzhaupt.

O pesquisador em saúde pública Raphael Guimarães, que faz parte do Observatório Fiocruz Covid-19, lembrou também que casos e óbitos têm causas diferentes. Enquanto as infecções estão ligadas à mobilidade, a mortalidade se relaciona com a capacidade do sistema de saúde, que entre março e abril entrou em colapso em quase todo o país.

Por que os casos aumentaram

Para entender por que os casos de covid-19 voltaram a subir agora, também é preciso recuar algumas semanas, segundo Schrarstzhaupt. “Com a queda de casos, os estados flexibilizaram as medidas de prevenção; com isso, as infecções logo pararam de cair, como estava sendo até então”, disse ao Nexo.

Com a escassez de vacinas, as medidas restritivas são ainda mais importantes para combater a covid-19. Os governos estaduais, porém, adotaram uma política de ziguezague de abrir e fechar atividades não essenciais, e essas idas e vindas não têm sido eficientes para controlar a transmissão do vírus.

O incentivo à reabertura tem ocorrido seguindo parâmetros de ocupação de leitos de UTIs (unidades de terapia intensiva). Com a queda generalizada desses índices, em abril, lugares como São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná passaram a liberar atividades como bares e restaurantes.

A flexibilização segundo esses índices não é recomendável, porque eles não refletem a situação da epidemia, segundo Guimarães. “Existe uma defasagem entre a exposição à infecção e a procura por leitos de UTI. A ocupação de leitos não é reflexo da transmissão de hoje, mas de semanas atrás”, explicou.

“A internação em UTI é um dos piores indicadores, porque é o último antes do óbito. O ideal é cortar a transmissão”, disse Schrarstzhaupt ao Nexo. Para reabrir atividades, seria preciso acompanhar se os casos de covid-19 estão diminuindo de forma sustentada, segundo ele.

Quais os alertas para novas ondas

Com o aumento de casos de covid-19 e a redução do isolamento social, existe a possibilidade de que a queda de óbitos seja apenas temporária, segundo Guimarães. “É preciso ver esse dado [de mortes] com cautela, porque podemos voltar a um repique de óbitos daqui a duas semanas”, disse o pesquisador ao Nexo.

“O declínio [de óbitos] não significa que estamos eliminando a pandemia ou saindo da segunda onda”, afirmou. “Estamos em uma fase de oscilação entre aumento e diminuição [de casos e mortes], o que, na prática, os estabiliza, mas em um patamar muito alto. É preciso continuar a reduzir esses índices.”

A tendência, se se mantiver, é de que o país entre em uma nova onda da pandemia, segundo Schrarstzhaupt. O pesquisador chama a atenção para a chegada do inverno, que, embora não mude o comportamento do vírus, leva as pessoas a frequentar mais locais fechados — o que pode facilitar a transmissão.

“O único diferencial que temos hoje [em relação às ondas anteriores] é a vacinação. Mesmo assim, nossa cobertura vacinal ainda é muito baixa”, segundo ele. Nesta sexta-feira (14), 18% da população brasileira havia recebido a primeira dose da vacina contra a covid-19. Cerca de 9% estava imunizada com as duas.

Para o pesquisador, o país “não está aprendendo” com as experiências anteriores de repiques da covid-19. “Não podemos esperar colapsar antes de agirmos”, disse. Ele afirma que a alta do número casos deveria ser suficiente para que os governos voltassem a considerar as medidas de isolamento social.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.