Um foguete chinês vai cair do espaço. Qual o perigo disso?

Aeronave que lançou módulo de estação espacial fará retorno descontrolado ao planeta. Será o quarto maior pedaço de lixo espacial a voltar para a Terra

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No dia 29 de abril, a China fez o lançamento do primeiro módulo da estação espacial Tiangong-3, cuja inauguração está prevista para 2022. A decolagem foi bem sucedida, mas houve uma consequência indesejada: o foguete que levantou o voo também entrou em órbita e vai cair na Terra por volta do dia 9 de maio, segundo a estimativa da Agência Espacial Europeia.

O foguete é um Longa Marcha 5B, o maior modelo chinês: seu estágio central tem 30 metros de comprimento, 5 metros de largura e pesa cerca de 21 toneladas. Trata-se de um dos maiores objetos já deixados na órbita terrestre para um retorno descontrolado à atmosfera. E não se sabe em que local do planeta ele vai cair.

Na terça-feira (4), o foguete completava uma volta na Terra a cada 90 minutos, viajando a 27.600 km/h, ou 7 km por segundo. A falta de controle sobre o veículo, combinada com a alta velocidade e outros fatores que podem interferir — como a atividade solar —, torna impossível calcular com muita antecedência o ponto onde ele deve atravessar a atmosfera.

Radares do exército americano têm acompanhado a trajetória do voo. Ao norte, o objeto já passou pelas proximidades de Nova York, Madri e Pequim; ao sul, pelo Chile e pela Nova Zelândia. Ele pode cair em qualquer lugar dentro desse perímetro, que engloba todos os continentes exceto a Antártida.

O governo chinês ainda não comentou a situação publicamente. O país tem mais dez decolagens programadas até 2022 para a construção da sua estação espacial de três módulos, incluindo mais dois lançamentos de foguetes Longa Marcha 5B.

Qual o perigo da queda

O risco está na possibilidade de que o foguete atinja alguma área habitada. Isso não é muito provável, levando em consideração que o oceano cobre cerca de 71% da superfície terrestre. Mas tampouco é impossível: em maio de 2020, outro Longa Marcha 5B lançado pela China fez um retorno descontrolado à atmosfera e pode ter deixado um rastro de detritos na Costa do Marfim antes de cair no Oceano Atlântico, segundo observações de astrônomos.

Quando objetos enviados ao espaço retornam à Terra, grande parte deles é destruída pelo calor ao atravessar a atmosfera. A quantidade depende dos materiais empregados na construção, mas no geral só por volta de “20% a 40% da massa original” resiste à queda, disse Holger Krag, chefe do programa de segurança espacial da Agência Espacial Europeia, ao site SpaceNews.

Por isso, o maior problema no caso do foguete chinês é justamente sua dimensão. “Não deixamos objetos com mais de dez toneladas caírem do céu deliberadamente”, disse Jonathan McDowell, do centro de astrofísica da Universidade de Harvard, ao jornal The Guardian.

O pesquisador afirmou ao site Inverse que foguetes geralmente são fabricados com algum sistema de estabilização ou propulsor que permite controlar sua trajetória de queda. “[Os fabricantes] deveriam ter parado e pensado: ‘Esse modelo vai deixar um pedaço grande de lixo espacial em órbita, deveríamos mudar o desenho do motor’. Mas eles não fizeram isso. É negligência”, disse McDowell.

As maiores chuvas de lixo espacial

Segundo disse Holger Krag ao site SpaceNews, no total cerca de 100 toneladas de detritos espaciais entram na atmosfera terrestre de forma descontrolada a cada ano. No geral, esses objetos são bem menores do que um Longa Marcha 5B, que hoje consta como o quarto maior pedaço de lixo espacial que já caiu de órbita sem controle.

Antes dos foguetes chineses, a última grande queda aconteceu em 1991: a estação espacial soviética Salyut 7, à época já abandonada havia cinco anos, atravessou o céu da Argentina. Os destroços não foram encontrados.

O maior acidente de todos ocorreu em 1979, quando a estação espacial americana SkyLab, de 77 toneladas, retornou à atmosfera. Os detritos atingiram o condado de Esperance, no litoral sul da Austrália. Ninguém ficou ferido, e o governo local emitiu uma multa à Nasa (agência espacial americana) em tom de brincadeira, pedindo apenas US$ 400 por jogar lixo em local inadequado.

Outro caso marcante aconteceu um ano antes. Em 1978, um satélite soviético que usava energia nuclear deixou um rastro de lixo radioativo em uma área inabitada no noroeste do Canadá. O governo canadense fez uma custosa operação de limpeza e multou a União Soviética em mais de 6 milhões de dólares canadenses, mas só recebeu aproximadamente metade desse valor.

O que diz a lei internacional

A principal regulação sobre esse tema é uma convenção internacional firmada em 1972, elaborada a partir do artigo 7 do Tratado do Espaço Sideral, de 1967. O texto responsabiliza o país que fez o lançamento por quaisquer danos causados em quedas de detrito. Foi essa a lei usada pelo Canadá para multar os soviéticos.

No entanto, ainda não existem leis que estabeleçam parâmetros de segurança para prevenir que esse tipo de retorno descontrolado à atmosfera aconteça.

Desde os anos 1970, as expedições espaciais se tornaram muito mais frequentes e diversas. Naquela época, as agências estatais dos Estados Unidos e da União Soviética dominavam o setor, que hoje conta com mais países e também iniciativas privadas.

Conforme a órbita terrestre fica cada vez mais cheia de satélites e lixo espacial, aumenta a necessidade de coordenação para impedir quedas e acidentes. Em setembro de 2020, um ex-funcionário da Nasa alertou para essa questão no Twitter, dizendo que a Estação Espacial Internacional precisou manobrar três vezes em duas semanas para evitar possíveis colisões: “O problema do detrito está piorando”, escreveu.

Para o astrofísico Jonathan McDowell, faltam novos acordos e mais controle internacional: “Precisamos de algum tipo de agência internacional para a gestão do tráfego espacial”, disse à CNN.

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