O agravamento da violência nos protestos na Colômbia

Manifestações contra reforma tributária têm onda de repressão policial e ataques incendiários a 25 delegacias em todo o país

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Pelo menos 20 pessoas morreram, mais de 800 ficaram feridas e 87 estão desaparecidas depois de sete dias de protestos contra uma reforma tributária proposta pelo presidente da Colômbia, Iván Duque.

As manifestações tiveram início em 28 de abril e até quarta-feira (5) não davam sinal de arrefecimento, apesar de o movimento ter arrancado conquistas significativas, como a promessa de Duque de alterar os principais pontos do pacote de austeridade, no dia 2 de maio, e a demissão do ministro das Finanças, Alberto Carrasquilla, no dia seguinte.

Mapa mostra localização da Colômbia

A violência marca sobretudo a atuação das forças de segurança e das Forças Armadas, chamadas pelo governo para atuar nas regiões onde houve distúrbios mais graves. Mas muitos protestos também são caracterizados por ações violentas por parte dos manifestantes, que incendiaram ônibus, prédios públicos e delegacias.

Após ter sua reforma tributária derrotada nas ruas, Duque tenta se equilibrar entre mensagens de condenação ao vandalismo, respaldo às forças de segurança e promessa de punição aos agentes envolvidos em excessos. O desgaste na imagem de seu governo pode sair politicamente caro – em 2022, a Colômbia terá eleições parlamentares nacionais e eleições presidenciais. O atual presidente, que tem 33% de aprovação, não pode concorrer a um segundo mandato, mas trabalha por um sucessor.

Preocupação internacional

O escritório da alta comissária das Nações Unidas para direitos humanos, a chilena Michelle Bachelet, expressou na terça-feira (4) “profunda preocupação com a atuação das forças de ordem pública na cidade de Cali”, onde a polícia “abriu fogo” contra um grupo de manifestantes, usando munição real. Pelo menos cinco pessoas morreram na cidade, só neste incidente.

A representante da instituição na cidade colombiana, Juliette de Rivero, disse que até equipes das Nações Unidas que estavam no local foram atingidas por disparos efetuados pela polícia. Segundo Rivero, defensores de direitos humanos vêm sendo “assediados e ameaçados” em todo o país.

Nas redes sociais, multiplicam-se os flagrantes de violência registrados em vídeo, como o caso do policial que disparou nas costas e matou o manifestante Marcelo Agredo, de 17 anos, porque o jovem havia chutado o agente autor dos disparos, que estava sobre uma motocicleta. Outro caso que criou comoção é o de um idoso que, alheio às manifestações, morreu, possivelmente sufocado pelas bombas de gás lacrimogêneo.

A ONU refere-se à situação como “extremamente tensa”, enquanto governos de diversos países pedem moderação ao governo colombiano. A porta-voz adjunta do Departamento de Estado americano, Jalina Porter, pediu “contenção máxima” no uso da força pelos agentes do Estado, e condenou os atos de vandalismo.

Em resposta aos questionamentos internos e internacionais, o ministro colombiano da Defesa, Diego Molano, disse que está investigando 23 denúncias de abusos. O discurso de Molano, enfatiza, no entanto, o respaldo às forças de segurança, diante da violência atribuída aos manifestantes.

Ataques a delegacias

Pelo menos 25 delegacias de polícia sofreram ataques incendiários ao longo dos sete dias de manifestação. Na madrugada de quarta-feira (5), um grupo ateou fogo a um CAI (Centro de Atendimento Imediato Policial), localizado no bairro La Aurora, no sul da capital, Bogotá. Pelo menos dez agentes estavam dentro do estabelecimento, dos quais cinco foram feridos.

A prefeita de Bogotá, Claudia López Herndández, pediu que o ministro da Defesa envie reforços para impedir que outras delegacias e centros de detenção da capital venham a ser atacados pelos manifestantes. Ele disse temer pela vida de pessoas encarceradas que, em caso de incêndio, não possam deixar os locais. O sistema de transporte público na capital foi reduzido a 60% de sua capacidade, e só opera até 15h, por razões de segurança.

O governo diz que pelo menos um policial foi morto, em Cali, e 540 ficaram feridos em todo o país. Assim como circulam vídeos de violência policial contra manifestantes, também se multiplicam as imagens de policiais sendo agredidos nas ruas.

“O respeito aos direitos humanos não é seletivo. A dignidade humana não é seletiva. Os que defendem a vida e os direitos devem levantar a voz contra esses atropelos”, disse o secretário de governo de Bogotá, Luis Ernesto Goméz, ao comentar em suas redes uma cena de policiais sendo agredidos na rua.

Recuo nas reformas

No domingo (2), os manifestantes conseguiram forçar Duque a retirar da pauta de votação do Congresso um pacote que previa aumento de impostos e retirada de direitos trabalhistas. O arrocho aconteceria em plena pandemia, no momento em que o país soma quase 75 mil mortos e 3 milhões de contaminados pela covid-19, e a vacinação chegou a menos de 7% da população.

“Solicitei ao Congresso a retirada do projeto apresentado pelo Ministério da Fazenda e [pedi para] tramitar de maneira urgente uma nova iniciativa, fruto de consensos, com a qual evitaremos a incerteza financeira”, disse Duque, ladeado por seus ministros.

O presidente colombiano queria aumentar o IVA (Imposto Sobre Valor Agregado), que é cobrado sobre produtos e serviços. Ele também pretendia ampliar o perfil dos cidadãos que são obrigados a pagar imposto de renda, abarcando trabalhadores de menor renda, hoje isentos.

Depois de uma semana de pressão, Duque recuou, dizendo simplesmente que “não haverá aumentos de IVA para bens e serviços, nem haverá alterações nas regras existentes. Além disso, ninguém que não pague imposto de renda pagará esse tributo”, referindo-se aos trabalhadores de baixa renda.

O presidente colombiano afirmou ainda que uma nova proposta será enviada ao Congresso, propondo aumento na taxação de grandes empresas e a criação de novos impostos para donos de grandes patrimônios e para os colombianos de maior renda – o contrário do que vinha sendo proposto até então.

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