Diversidade para as massas: o lugar de Paulo Gustavo no humor

Ator e humorista morto pela covid aos 42 anos foi fenômeno de bilheteria tratando de temas como identidade de gênero e sexualidade

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Morreu nesta terça-feira (4) o ator e humorista Paulo Gustavo, em decorrência de complicações causadas pela covid-19. Ele tinha 42 anos e estava internado desde o dia 13 de março. Deixou o marido, o médico Thales Bretas, e dois filhos pequenos, Gael e Romeu.

Paulo Gustavo começou sua carreira no teatro, ganhando visibilidade em 2004, com a peça “Surto”, onde apresentou ao mundo Dona Hermínia, seu personagem de maior sucesso, que protagonizaria a série de filmes “Minha mãe é uma peça”.

Na TV, participou de programas como “A diarista” (2006) e “Minha nada mole vida” (2006). Na década de 2010, já com a carreira consolidada, comandou atrações como o “220 volts” e o “Vai que cola”, ambos no canal pago Multishow.

Membro de uma geração de humoristas que dava seus primeiros passos em meio às transformações do mundo digital e mudanças socioeconômicas no país, Gustavo foi responsável por levar milhões de pessoas ao cinema em obras que tratavam de temas como identidade de gênero e sexualidade.

O velório do humorista deve acontecer nesta quarta-feira (5) no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em cerimônia apenas para familiares e amigos.

Dona Hermínia, o maior sucesso

Dona Hermínia, personagem de maior sucesso de Paulo Gustavo, foi inspirada em Déa Lúcia Amaral – a Dona Déa – mãe do comediante.

Superprotetora, pavio curto e irônica, Dona Hermínia fez sua estreia nacional em 2013, no primeiro filme da série “Minha mãe é uma peça”, que ganhou duas continuações, em 2016 e 2019.

Na franquia, Paulo Gustavo, roteirista dos três longas, abordou temas como orientação sexual, homofobia e identidade de gênero. Segundo Chico Felitti, jornalista especializado em cultura e cultura digital, o humorista queria ser o melhor amigo do país''.

“Em vez de cair na polêmica rasa e reducionista, ele nos comeu a todos pelas beiradas. Fez um filme cheio de cenas progressistas, como a de uma mãe levando um filho vestido de boneca Emília para uma festa e peitando o preconceito de outras crianças e de seus pais chucros”, escreveu Felitti no jornal Folha de S.Paulo.

Deu certo: “Minha mãe é uma peça 3” é uma das maiores bilheterias do cinema nacional, com R$ 143 milhões arrecadados, superando títulos como o drama “Nada a perder”, cinebiografia do pastor Edir Macedo, e o policial “Tropa de elite”, parte do imaginário popular da filmografia brasileira.

“Tinha aquele incrível domínio de cena”, afirmou o crítico de cinema Luiz Carlos Merten no jornal O Estado de S. Paulo. “Há mais de 50 anos, Carlos Drummond de Andrade escreveu que Leila Diniz [atriz que ficou conhecida por peitar tabus de gênero] libertara as mulheres brasileiras do jugo de uma particular escravidão. Com todo respeito, Paulo Gustavo fez um movimento parecido em relação ao universo gay”, disse.

Dona Hermínia surgiu e ganhou o Brasil em um momento em que o país se via diante de transformações socioeconômicas e pela revolução digital. “Minha mãe é uma peça” estreou dois anos depois de a união homoafetiva ter sido reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal, em um momento onde as redes sociais estavam começando a ganhar a forma que têm até hoje, com discussões – muitas vezes acaloradas – e um mar sem fim de opiniões sobre os mais diversos temas.

“Fui assistir com a minha mãe homofóbica a esse filme, e ela se emocionou demais. Foi um tiro de representatividade de uma forma megaleve e que conseguiu chegar aos públicos que mais precisavam se desconstruir”, diz um relato apresentado por Felitti na Folha.

O humor popular

Além de levar temas da sociedade para o humor, Paulo Gustavo também integrou uma geração de comediantes que quis fazer – e se orgulha de ter feito – um humor popular, feito para atingir o maior número de pessoas possível.

O maior avatar dessa ideia são as chamadas “Globochanchadas”, filmes produzidos em sua maioria pela Globo Filmes e que são produzidos justamente com esse intuito, trazendo para o cinema nacional uma lógica das comédias americanas, mas não deixando de lado a estética televisiva que consagrou esse estilo de humor.

No caso de Paulo Gustavo, o humor popular se dava por meio de situações cômicas criadas em cima do cotidiano de famílias de classe média baixa – grupo socioeconômico que, por sua vez, está diretamente relacionado com a proliferação das “Globochanchadas”.

“Essas comédias recentes são realizadas e pensadas em sua distribuição com o objetivo de atingir a classe média, que, após a chegada dos complexos multiplex ao país, no final da década de 1990 – ocupando, principalmente, espaços elitizados, nos shoppings centers das principais cidades –, passou a ser o público-alvo do mercado cinematográfico brasileiro, acostumando-se com o ‘selo’ do padrão Globo Filmes de cinema para chancelar essas produções”, afirmou o jornalista Márcio Rodrigo Ribeiro em artigo publicado no ano de 2016 pela Revista de Cultura Audiovisual da USP.

Rechaçadas pela crítica mas adoradas pelo público, as principais “Globochanchadas” lançadas foram responsáveis por movimentar cerca de R$ 700 milhões nas bilheterias brasileiras na década de 2010.

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