A tecnologia de monitoramento de voz registrada pelo Spotify

Artistas se posicionam contra patente de recurso que analisa voz e sons ambiente de usuários para recomendar músicas 

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Um grupo de 180 músicos enviou na terça-feira (4) uma carta aberta ao fundador e CEO do Spotify, Daniel Ek, protestando contra o registro de uma patente de tecnologia de monitoramento.

Em janeiro de 2021, a empresa sueca de streaming musical e podcasts conseguiu a aprovação nos Estados Unidos da patente de um recurso que permite gravar voz e sons do ambiente de usuários com o intuito de ajudar na recomendação de músicas.

Uma das possibilidades de uso do Spotify é deixar que o aplicativo escolha as músicas a serem tocadas para o ouvinte. A seleção é feita pelo algoritmo da plataforma a partir de informações diversas, como o que o usuário está ouvindo naquele momento ou seu histórico de audição.

De acordo com a descrição da patente, a tecnologia teria capacidade de analisar “entonação, ênfase e ritmo” da voz do usuário. A partir desses dados, seria possível identificar características como estado emocional, gênero, idade, sotaque e características do ambiente (se a pessoa está sozinha ou acompanhada, por exemplo), ajudando na indicação de canções.

Entre as preocupações com a tecnologia listadas pelos músicos estão violação de privacidade, manipulação de emoções, coleta de dados pessoais e discriminação de gênero. “É impossível inferir gênero sem discriminar pessoas trans e não-binárias”, escreveram os signatários. A tentativa de classificar usuários segundo o sotaque também resulta em preconceito e racismo, segundo os músicos.

Pesquisa e desenvolvimento

Em abril, um executivo da empresa afirmou que o Spotify “não tem planos” de implementar a tecnologia descrita na patente. “Nossas equipes de pesquisa e desenvolvimento estão constantemente vislumbrando e desenvolvendo novas tecnologias como parte do nosso ciclo contínuo de inovação. Às vezes, elas são implementadas em nossos produtos, às vezes, não”, declarou Horacio Gutierrez, diretor de assuntos globais e chefe do departamento jurídico da empresa.

Na carta, os signatários pedem um compromisso público da empresa de que não vai usar, licenciar, vender ou monetizar a ferramenta de monitoramento. “Ao passo que ficamos satisfeitos em saber que o Spotify não tem planos no momento de usar a tecnologia, a pergunta se faz necessária: por que estão investigando seu uso?”

Entre os artistas que assinaram a carta estão Tom Morello, do Rage Against the Machine, o rapper Talib Kweli, o grupo punk Downtown Boys e a musicista Laura Jane Grace. O documento é apoiado por entidades do setor, incluindo o Sindicato de Músicos e Trabalhadores Aliados, dos Estados Unidos.

Segundo dados divulgados pela empresa de streaming, ela conta atualmente com 356 milhões de usuários, sendo 156 milhões destes assinantes pagos, em 178 países.

Artistas constantemente reclamam da baixa remuneração da plataforma. Em geral, o Spotify paga entre US$ 0,003 e US$ 0,005 por cada execução de uma música. Isso quer dizer que para render um dólar, uma música precisa ser tocada 250 vezes.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.