Qual o lugar de Ciro Gomes com Lula na disputa presidencial

Ex-governador do Ceará reitera críticas ao PT e tenta se apresentar como alternativa num segundo turno entre o petista e Bolsonaro nas eleições de 2022. O ‘Nexo’ ouviu cientistas políticos sobre seu potencial nesse cenário

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A mais de um ano das eleições de 2022, diversos presidenciáveis já se movimentam no tabuleiro político para enfrentar o presidente Jair Bolsonaro, que pretende buscar a reeleição. Boa parte evita se colocar abertamente como pré-candidato, alegando que o momento é de discutir “projetos”, e não nomes. Não é o caso de Ciro Gomes (PDT), que já admite explicitamente a intenção de concorrer. Sua margem de votos é considerada estreita, mas a movimentação recente do pedetista tem sido observada de perto no meio político.

Ex-ministro do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes já foi candidato à Presidência três vezes, em 1998, 2002 e 2018. Na disputa mais recente, ficou em terceiro lugar, com 12% dos votos. Apesar de ter chefiado a pasta da Integração Nacional no governo Lula, ele descarta a possibilidade de uma aliança com os petistas para o próximo pleito, reeditando um desacerto de 2018.

Naquele ano, Ciro escancarou suas divergências com o PT ao não embarcar na candidatura de Fernando Haddad, que avançou para o segundo turno contra Jair Bolsonaro após Lula ter sido impedido de concorrer, em setembro. Na reta final da campanha, Ciro embarcou para a Europa e voltou às vésperas da votação. Na primeira entrevista depois do pleito, ao jornal Folha de S.Paulo, disse: “não declarei voto ao Haddad porque não quero mais fazer campanha com o PT”. Ele culpa o partido de Lula por sabotar alianças que tentou fazer em 2018 ainda no primeiro turno.

Em seus posicionamentos públicos recentes, Ciro dobra a aposta em atacar o partido, ao qual busca se contrapor. “Eu viajaria a Paris no segundo turno com mais convicção. PT nunca mais”, disse ele em entrevista ao jornal O Globo em abril de 2021. O pedetista também já chegou a dizer que seu objetivo é tirar o PT do segundo turno em 2022. A reabilitação política de Lula, porém, deixa essa possibilidade distante, pois o ex-presidente lidera as pesquisas de intenção de voto e é visto como nome certo na segunda etapa da próxima disputa eleitoral.

Ciro no ‘centro democrático’

Enquanto isso, Ciro tem se aproximado do grupo que se denomina “centro” ou “polo democrático”, e que reúne políticos com maior alinhamento à direita. No fim de março, ele assinou um manifesto em defesa da democracia junto com os presidenciáveis João Doria (PSDB), Eduardo Leite (PSDB), João Amoêdo (Novo), Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Luciano Huck (sem partido).

Com a exceção de Ciro, são nomes vinculados a um passado de apoio ao bolsonarismo. Doria chegou a adotar o slogan “BolsoDoria” na campanha para o governo do estado em 2018. No mesmo ano, Eduardo Leite e João Amoêdo declararam voto em Bolsonaro. Luciano Huck não declarou seu voto, mas deixou claro que jamais votaria em um candidato do PT. Luiz Henrique Mandetta, por sua vez, passou mais de um ano como ministro da Saúde do governo do mandatário, do qual saiu em abril de 2020. Atualmente, todos fazem oposição a Bolsonaro.

A assinatura conjunta da carta pelo grupo chegou a ser citada como possível embrião de uma aliança de centro para se contrapor tanto a Lula quanto a Bolsonaro no próximo pleito. A ideia seria unificar nomes e abrir caminho para uma “terceira via” em 2022. Até o momento, porém, não há sinais de que parte do grupo possa abrir mão da disputa em prol da unidade, e outros nomes já despontaram como possíveis pré-candidatos nesse campo político.

A aposta no marketing político

Em abril de 2021, Ciro anunciou a contratação do jornalista e marqueteiro João Santana para coordenar a comunicação do partido. Tido com um “craque” do marketing político, Santana tem profundo conhecimento sobre o PT, ao qual Ciro busca se contrapor. Foi Santana o responsável pelo marketing das campanhas presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e de Dilma Rousseff em 2010 e 2014 – todas vitoriosas.

O novo passo, porém, também gera dúvidas. Analistas apontam que a contratação do marqueteiro dificulta o uso do discurso anticorrupção no qual Ciro vem apostando para atacar o PT. Isso porque João Santana foi condenado pela Operação Lava Jato em 2017 por lavagem de dinheiro, depois de ter passado um período preso preventivamente já em 2016. Ele fechou acordo de delação premiada e atualmente cumpre pena em regime aberto.

Desde que anunciou a parceria com o marqueteiro, Ciro já publicou vídeos criticando a situação do desemprego e atacando o sistema de impostos e a concentração de renda no país. Num dos vídeos, ele atribui os problemas sociais do Brasil a um modelo econômico que teria sido seguido nos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Lula, Dilma Rousseff e então chegado “ao ápice” com Bolsonaro. “É preciso alguém que mude esse modelo”, sustenta.

O espaço de Ciro nas pesquisas

Em pesquisas recentes, Lula e Bolsonaro têm aparecido na liderança das intenções de voto para as eleições de 2022. Outros presidenciáveis aparecem com uma parcela significativamente menor das intenções. É nesse grupo que está Ciro Gomes, junto com outros nomes que têm orbitado o chamado “centro democrático”. Diferentemente dos colegas, porém, Ciro tem uma trajetória mais à esquerda.

Segundo uma pesquisa PoderData de abril de 2021, Lula e Bolsonaro estão tecnicamente empatados nas intenções de voto para 2022. O petista aparece numericamente à frente, com 34% das intenções, enquanto Bolsonaro tem 31%. Já Ciro Gomes aparece junto com o apresentador de TV Luciano Huck (sem partido) em terceiro lugar, cada um com 6% das intenções. Eles empatam tecnicamente com João Amoêdo (Novo), João Doria (PSDB), e Sergio Moro (sem partido). Foram feitas 3.500 entrevistas entre os dias 12 e 14 de abril, em todas as regiões do país. A margem de erro é de 1,8 ponto percentual.

Segundo cruzamento elaborado pelo site Poder360, só 13% dizem que não votariam de jeito nenhum nem em Lula nem em Bolsonaro. Entre os que rejeitam tanto o petista quanto o atual presidente, a preferência é por Huck ou Doria – cada um conta com 12% de intenção de voto dessa parcela dos respondentes. Ciro Gomes aparece numericamente em quinto lugar, atrás ainda de Moro e Amoêdo.

Pesquisa da XP/Ipespe realizada entre 29 e 31 de março também mostra Lula e Bolsonaro na dianteira das intenções de voto. Ciro Gomes vem empatado com Sergio Moro em terceiro lugar, com 9% das intenções cada.

O lugar de Ciro na disputa eleitoral sob análise

Com Lula de volta à corrida eleitoral e diversos nomes que se colocam como possíveis candidatos para se contrapor ao petista e a Bolsonaro, o Nexo ouviu dois cientistas políticos sobre qual o espaço que Ciro Gomes pode buscar para a disputa de 2022. São eles:

  • Carlos Melo, professor do Insper
  • Luciana Veiga, professora da UniRio

Como fica a candidatura de Ciro Gomes com a reabilitação dos direitos políticos de Lula? De onde podem vir seus votos?

CARLOS MELO O Ciro projetou uma candidatura do PT que não fosse o Lula e que ficasse na esquerda, isolada. Ele imaginou que pudesse ocupar um espaço entre o centro e a centro-esquerda. Com a possibilidade de o Lula concorrer, e com os movimentos que o Lula tem feito, de inflexão ao centro, o Ciro perde muito espaço. Ele perde esse espaço da centro-esquerda e vai ficando cada vez mais confinado a um intervalo muito estrito, entre a centro-direita e o centro.

Mas nesse espaço tem vários adversários. Eu não vejo, por exemplo, o PSDB não tendo um candidato, seja o Doria, seja o Eduardo Leite, seja o Tasso Jereissati, o que vai limitar ainda mais o espaço do Ciro. É provável que o Mandetta seja candidato também desse espaço de centro. O Ciro fica então numa candidatura de centro cujo espaço será disputado por mais dois ou três candidatos.

Mantidas as condições atuais, Bolsonaro vai ter algo perto de 25% [dos votos]. O Lula vai ter perto de 25%, 30%. Bolsonaro e Lula vão tirar um terço de cada lado [do eleitorado]. O outro um terço, o Ciro vai ter que dividir com mais dois candidatos. Ele precisa, nesse sentido, esperar que o Bolsonaro se descapitalize e que possam vir para ele uma parte dos votos que hoje estão com Bolsonaro – do bolsonarismo menos radical. E então empunhar uma bandeira anti-PT, anti-Lula. Eu não vejo o Lula se descapitalizando desse jeito por um motivo simples: o Lula não é o governo nesse momento. A eleição vai ser plebiscitária em relação ao Bolsonaro.

LUCIANA VEIGA Desde que o Lula veio [se colocando na disputa], ele está crescendo e chegando para o centro. O Ciro está um pouco no centro, mais para a esquerda. Então por que eu adotaria a política econômica do Ciro e não a do Lula? Nessa escala, Ciro já meio que sobrou ali. Qual seria o discurso, então? Ele vai bater no Lula pela corrupção, pelo discurso? Mas ele fica espremido. No campo da esquerda, qual a porcentagem de pessoas que estão querendo não votar em Lula aceitando o argumento da corrupção? Não tem tanta gente assim.

Então de onde que vem esse apelo do Ciro? O maior patrimônio dele, ao meu ver, é o recall da eleição anterior – que já caiu, talvez seja até uma repercussão da volta do Lula [à corrida eleitoral]. O grande negócio é o seguinte: vai ter Lula e vai ter Bolsonaro, mas a gente pode esperar desgaste dos dois, ainda mais Bolsonaro. Então tem que ficar alguém ali esperando esse descontentamento de voto de um e de outro.”

Há alguma chance de Ciro Gomes ser candidato de uma frente ampla que se autointitula de ‘centro’, formada por ex-apoiadores de Bolsonaro?

CARLOS MELO Em primeiro lugar, uma frente ampla contra quem? Essa frente ampla vai ter que se decidir, ela é anti-Lula ou anti-Bolsonaro. Ela não é uma frente ampla, eu diria que ela é uma frente apertada por dois lados. Em segundo lugar, esse grupo, que vai lutar em duas frentes, ele consegue se unificar? Eu não vejo esses partidos, que hoje não são nem bolsonaristas nem lulistas, conseguindo se unificar em torno de uma candidatura só. Eu não vejo alguém conseguindo tirar voto em grande quantidade dos demais. Se você tem seis candidatos, você não tem uma frente, você tem uma fragmentação num determinado setor do eleitorado.

Você precisa ter pelo menos o segundo mais votado, você precisa ter alguma coisa próxima de 30% dos votos para ir pro segundo turno. É um desafio muito grande, a não ser que Bolsonaro vire fumaça. A não ser que a CPI [da Covid] consiga descapitalizar fortemente Bolsonaro e ele termine esse processo com 10%, 12%, que é o tamanho da base mais radical dele, e alguém junte esse centro com a direita. Eu acho difícil [que o nome seja o Ciro Gomes], porque, para que você unifique o centro, que pegue ali setores mais à direita, você teria nomes mais confiáveis para o centro e para a direita, como por exemplo o Mandetta.

O Ciro dá sinais muito contraditórios. Até 2018, ele se colocava como candidato da centro-esquerda, como candidato progressista. Como que ele pode de repente adotar um discurso conservador? É coerente que ele contrate uma figura como João Santana para tentar dar um salto nas pesquisas eleitorais e dizer pra esse setor de centro: 'quem tem chance sou eu'. Mas, aí, a história que vai ter que mostrar. A questão é: ele conseguirá se sobrepor nas pesquisas? E os seus hoje colegas de centro aceitarão seu nome?

LUCIANA VEIGA O Ciro é meio um peixe fora d'água nesse centro democrático no que se refere à política econômica. O que você pode esperar de uma política econômica do Ciro não é uma política econômica que você pode esperar dos demais membros que ali estão, com componentes de um neoliberalismo econômico – o Ciro não tem esse perfil, a não ser que ele mude. É difícil imaginar o Ciro nesse centro pensando num projeto de Brasil para além do denominador mínimo que eles têm que é o caráter de apego à democracia.

Isso mostra uma falta de espaço para ele na disputa, porque ele tem uma agenda de política econômica mais de centro e centro-esquerda, e essa política econômica ocupa um espaço onde o Lula vem avançando muito. E, ao mesmo tempo, ele tem uma política econômica que se distancia da centro-direita, e isso dificulta o diálogo com ele. Ele atrai pouco ex-bolsonarista, na medida em que ele é visto pelo ex-bolsonarista como um candidato de esquerda, uma esquerda com a qual o bolsonarismo não se identifica.

A pergunta é se o Ciro seria capaz de ir para um segundo turno com votos de dissabor do Bolsonaro, acredito que não. Dependendo das circunstâncias, Bolsonaro poderia sair muito enfraquecido da CPI [da Covid] e do governo. Nesse cenário, por qual razão os partidos de centro-direita não lançariam eles próprios um candidato se o Ciro está próximo deles [em intenções de voto]? Acredito que um perfil mais de centro-direita seria mais atrativo para o eleitor do Bolsonaro.

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