Quais as críticas de Mandetta à conduta do governo Bolsonaro

Primeiro a falar na CPI da Covid no Senado, ex-ministro já revelou bastidores com presidente em livro. Governistas buscam elementos para atacar sua gestão na pasta

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O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta será o primeiro convocado a falar na terça-feira (4) na CPI da Covid. A Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado investiga as ações e omissões do governo do presidente Jair Bolsonaro e os repasses de recursos federais a estados e municípios na pandemia do novo coronavírus.

Mandetta esteve no governo desde o primeiro dia, mas foi demitido em abril de 2020 após se desentender com Bolsonaro. Durante a pandemia, ele ficou no cargo nos primeiros 50 dias depois do registro do primeiro caso de covid-19 no país, ainda em fevereiro. Seus movimentos em defesa de medidas de combate à pandemia baseadas na ciência, como o isolamento social, desagradaram o presidente.

Em setembro de 2020, o ex-ministro, que é médico, filiado ao DEM e ex-deputado federal pelo Mato Grosso do Sul, publicou o livro “Um paciente chamado Brasil: os bastidores da luta contra o coronavírus”. Embora não traga denúncias bombásticas, a obra traz a visão de um personagem de dentro da crise sobre como Bolsonaro e integrantes do governo deixaram de levar a sério a pandemia do novo coronavírus.

Para tentar evitar que Mandetta transforme a CPI em "palanque" (ele é considerado um presidenciável e seu nome tem aparecido em pesquisas de opinião sobre a eleição de 2022), parlamentares governistas têm levantado informações sobre a gestão do ex-ministro e elementos para questioná-lo. A seguir, o Nexo relembra algumas das críticas feitas por ele ao governo.

A negação da pandemia

Mandetta compara Bolsonaro a um paciente que recebe uma notícia ruim, como um câncer. “Primeiro ele negou a gravidade da covid-19, falando que era ‘só uma gripezinha’. Depois, ficou com raiva do médico, ou seja, de mim. Depois partiu para o milagre, que é acreditar na cloroquina”, escreve o ex-ministro em seu livro.

Ele diz que outros ministros como Sergio Moro (então na Justiça) e Walter Braga Netto (na época, chefe da Casa Civil) entenderam a gravidade da situação e tentaram alertar o presidente, mas sem sucesso. Mandetta diz que o presidente sempre respondia “agora não dá” ou “outra hora você passa” ao abordá-lo para tratar da crise.

“Ele nunca viu os números do Ministério da Saúde. Nunca. Nunca aceitou sentar comigo para ver a realidade que o seu governo estava para enfrentar”

Luiz Henrique Mandetta

ex-ministro da Saúde, em seu livro

O ex-ministro lembra também das dificuldades de tratar do assunto com o ministro da Economia, Paulo Guedes. Segundo ele, na equipe econômica do governo, apenas Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, conversava sobre os impactos do novo coronavírus. “Paulo Guedes demonstrava profundo desinteresse sobre o assunto”, diz.

Sabotagem ao isolamento

Após ficar alguns dias em isolamento, no início da pandemia, Bolsonaro logo desistiu da medida e passou a sabotar as tentativas dos governos de manter as pessoas em casa para evitar um aumento na transmissão do vírus.

Mandetta considera o marco dessa mudança o dia 15 de março de 2020, quando recebeu um telefonema do chefe de gabinete do presidente dizendo que Bolsonaro havia decidido cumprimentar manifestantes e que “seria bom que o ministro fosse com ele”. “Respondi: ‘Se ele decidiu, ele que arque com as consequências. Você quer que eu faça o quê? Eu sou o ministro da Saúde, não tenho o que fazer ali”, escreveu Mandetta. Com a recusa, Bolsonaro convidou o presidente da Anvisa, o almirante Antônio Barra Torres, que participou do ato.

A partir daquele dia, segundo o ex-ministro, “duas mensagens começaram a circular juntas, uma se contrapondo à outra”. “O Ministério da Saúde indicava um caminho, e o presidente enviava uma mensagem no sentido oposto, a de não respeitar as orientações do seu próprio ministério. Antes já havia essa resistência, mas não era pública”, afirmou.

Mandetta diz que o clima de tensão era tão grande que Bolsonaro não deixou que o Ministério da Saúde publicasse recomendações para evitar transmissão do vírus durante os sepultamentos dizendo que o tema era “mórbido demais”.

Teorias da conspiração

A sabotagem ao isolamento social tinha um motivo, segundo o ex-ministro. Para Bolsonaro, a paralisação das atividades econômicas era um “golpe dos governadores para inviabilizar seu governo e causar uma convulsão social”. O presidente decidiu não admitir que fizessem isso.

“Quando ele viu a adesão da população às pautas da saúde, criou na cabeça a teoria de que o isolamento social era uma conspiração do [João] Doria, do DEM, do Rodrigo Maia, minha, do Nordeste, pois com a economia fechada e todo mundo em casa, ele não poderia seguir seu plano”

Luiz Henrique Mandetta

ministro da Saúde, em seu livro

Para Mandetta, a avaliação de Bolsonaro era que, sem a atividade econômica, ele perderia o controle da condução do processo político do país. “A crise que viria seria impossível de ser debelada, e ele se fixava na mesma argumentação de sempre: que o país veria o retorno do PT ao poder, que o grupo dele teria que se mudar do Brasil, e assim por diante”, escreve.

A conspiração, segundo o ex-ministro, incluía até a China. Vários integrantes do governo, como os ex-ministros Abraham Weintraub (Educação) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e filhos do presidente, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), se indispuseram com os chineses em publicações na internet.

Mandetta diz que Bolsonaro acreditava na teoria de que a China tinha inventado a pandemia e de que o embaixador chinês “estava aqui para derrubá-lo”. Os chineses também teriam promovido, na versão do presidente brasileiro, protestos de rua em 2019 no Chile e agido para que o Mauricio Macri perdesse a eleição na Argentina.

Interferências no ministério

Mandetta relata também em seu livro ter recebido um pedido para exonerar quatro integrantes de sua equipe, entre os quais o então secretário-executivo do ministério, João Gabbardo dos Reis. Ele é atualmente o coordenador executivo do Centro de Contingência de Combate ao Coronavírus do Governo do estado de São Paulo, cargo que assumiu a convite do governador João Doria (PSDB).

“Com o pedido, já vinham quatro novos nomes para substituí-los, todos do Rio de Janeiro e sem qualquer experiência em gestão do SUS”, de acordo com Mandetta. Bolsonaro teria justificado o pedido dizendo que os indicados eram “gente nossa”, ou seja, sugestões de um dos filhos do presidente, Flávio Bolsonaro. O ex-ministro disse não ter feito as mudanças, mas que conseguiu encaixar as sugestões na estrutura da pasta.

Segundo Mandetta, ao longo de 2019, antes mesmo da pandemia, médicos bolsonaristas fizeram uma “campanha cerrada” para demitir Gabbardo e Erno Harzheim, que era o secretário de Atenção Primária à Saúde. O motivo, escreve o ex-ministro, é que esses médicos queriam cargos na pasta. Já durante a crise sanitária, Bolsonaro passou a se aconselhar com médicos que defendem a cloroquina em vez de ouvir o próprio ministério.

A defesa da cloroquina

Em seu livro, Mandetta diz que a estratégia de Bolsonaro era simples: dizer que o governo tem um remédio, que “quem tomar vai ficar bem” e que quem morrer já ia morrer mesmo.

“A preocupação dele [Bolsonaro] era sempre ‘vamos dar esse remédio porque com essa caixinha de cloroquina na mão os trabalhadores voltarão à ativa, voltarão a produzir’”

Luiz Henrique Mandetta

ministro da Saúde, em seu livro

A ideia era ter uma solução que garantisse a segurança das pessoas, para que voltassem a circular, sem precisar seguir as recomendações dos governadores de se isolar em casa. Mandetta diz que a cloroquina foi aprovada durante sua gestão, em uso restrito aos hospitais, apenas para casos graves e gravíssimos, e que levava em consideração os efeitos colaterais, como a arritmia cardíaca.

Para ele, a visão sobre a morte do presidente era “espantosa”. “Na cabeça do Bolsonaro só morreriam pessoas com mais de 80 anos, gente que já é doente, e tudo bem. Pessoas sadias não morrem e estávamos, segundo ele, parando tudo por causa de pessoas que já iriam morrer de qualquer maneira”, afirma.

Como o governo se prepara para a CPI

O governo Bolsonaro criou uma força-tarefa para levantar com os ministérios dados que serão usados pelos parlamentares governistas na CPI. A gestão de Mandetta na Saúde foi analisada para que o governo consiga responder às declarações do ministro.

Os senadores ligados ao governo devem tentar sustentar a versão de que Mandetta foi copartícipe da estratégia de enfrentamento à covid, ou seja, ele também seria responsável pelos erros do ministério.

O ex-ministro deve ser cobrado também pela orientação de ficar em casa e só procurar um médico quando o caso se agravar. Bolsonaro tem atacado Mandetta usando esse argumento. “O protocolo do Mandetta era ‘fique em casa até sentir falta de ar’. Eu perguntei para ele: ‘O cara sente falta de ar e vai para o hospital para quê? Para ser intubado?’ Por isso a pressa para comprar respiradores. Estão entendendo a jogada?”, afirmou o presidente a apoiadores em 16 de abril.

A ideia da medida era evitar, no começo da pandemia, uma corrida de pacientes aos hospitais, o que poderia lotá-los e transformar as salas de espera em pontos de transmissão do vírus. Como muitos dos sintomas da covid-19 são parecidos aos de uma gripe comum, médicos recomendam o monitoramento do nível de oxigênio no sangue por meio de oxímetros vendidos em farmácias.

Outra estratégia do governo poderá ser a de lembrar que Mandetta agradeceu Bolsonaro e elogiou a equipe do Ministério da Saúde em seu discurso de despedida, além de alegar que as dificuldades do Brasil em lidar com a pandemia eram as mesmas enfrentadas por outros países.

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