Como evoluiu o câncer que levou Bruno Covas à UTI

Após se licenciar para nova rodada de tratamento, prefeito de São Paulo foi internado em unidade de terapia intensiva. Comando da capital paulista passa para vice, Ricardo Nunes, por pelo menos 30 dias

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    O prefeito licenciado de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), recebeu alta da UTI do Hospital Sírio-Libanês na terça-feira (4). No dia anterior, ele havia sido intubado e submetido a tratamento intensivo após um exame detectar sangramento no local do tumor inicial de Covas. Desde 2019, o prefeito trata um câncer identificado inicialmente na cárdia, região entre o estômago e o esôfago.

    Covas foi internado inicialmente no domingo (2) para realizar exames de sangue, de imagens e endoscópico, com o objetivo de prosseguir o tratamento quimioterápico e imunoterápico, de acordo com o boletim. Foi a endoscopia que detectou o sangramento – que, de acordo com a equipe médica, está controlado. Covas também teve anemia, o que, segundo os médicos, condiz com o quadro de sangramento.

    Ainda no domingo (2), Covas anunciou que se licenciaria da prefeitura por um período de 30 dias para dedicar “mais tempo ao tratamento, que entra em uma fase muito rigorosa”. Tenho certeza de que vamos superar mais essa batalha, escreveu nas redes sociais. Quem assume em seu lugar é o vice Ricardo Nunes (MDB).

    O tucano é acompanhado pelas equipes médicas de David Uip, Artur Katz, Tulio Pfiffer e Roberto Kalil Filho. Em entrevista à CNN Brasil na tarde de segunda, Pfiffer afirmou que o objetivo da intubação foi “proteger a via aérea superior” do prefeito no tratamento do sangramento. Covas foi extubado ainda na segunda, mas segue na UTI.

    O tratamento de câncer de Covas

    Em outubro de 2019, Bruno Covas descobriu um câncer na cárdia, válvula que fica entre o estômago e o esôfago. Exames também detectaram lesões no fígado e nos linfonodos. Desde então, o prefeito vem se tratando da doença, e já alternou entre sessões de quimioterapia, imunoterapia e radioterapia. Recentemente, Covas descobriu novos focos do câncer, que agora atinge também os ossos.

    Por meio da assessoria de imprensa do Hospital Sírio-Libanês, a equipe médica do prefeito confirmou ao Nexo que, além dos novos pontos encontrados, o câncer continua presente na cárdia e nos linfonodos. Os médicos que acompanham o tucano destacam que ele pede “transparência” na divulgação de informações sobre sua situação de saúde.

    O PRIMEIRO DIAGNÓSTICO

    O que mostravam os exames em 2019

    A doença EM 2021

    A progressão da doença de Covas

    Histórico

    Outubro de 2019

    Aos 39 anos, Bruno Covas descobriu um câncer na cárdia, que fica entre o esôfago e o estômago. O diagnóstico veio após exames que o prefeito realizou por ter tido um quadro de erisipela (um tipo de infecção) na perna direita, além de trombose. Sem manifestar sintomas, o tumor maligno também causou lesão no fígado e em estruturas do sistema imunológico chamadas linfonodos. O prefeito então iniciou sessões de quimioterapia. Desde o início do tratamento, Covas evita se afastar das funções na prefeitura.

    Dezembro de 2019

    Depois de três sessões de quimioterapia, os médicos apontaram redução no tumor inicial. Também houve redução na metástase no fígado e nos linfonodos comprometidos. O prefeito continuou com o tratamento.

    Fevereiro de 2020

    Depois de oito sessões de quimioterapia, apesar de os tumores terem regredido, uma biópsia dos linfonodos apontou que o tratamento não havia sido suficiente. Covas iniciou a imunoterapia, um tratamento que busca estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos e combater células cancerígenas.

    Dezembro de 2020

    Covas segue com o tratamento imunoterápico e anuncia que fará radioterapia.

    Janeiro de 2021

    Depois de uma sessão complementar de radioterapia, o prefeito conclui mais uma etapa do tratamento. Os médicos recomendam um repouso de 10 dias, o que é seguido por Covas. O boletim médico ainda prevê exames de controle e imunoterapia.

    Fevereiro de 2021

    Novo boletim médico aponta “sucesso da radioterapia no controle dos linfonodos”, mas informa que foi detectado um novo nódulo no fígado do prefeito. A equipe médica então decide pela interrupção da imunoterapia e o início de um novo ciclo de quimioterapia.

    Abril de 2021

    Exames apontam novos pontos de câncer no fígado e nos ossos de Covas. Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, o oncologista Tulio Pfiffer relatou que imagens mostraram cinco tumores no fígado, um na coluna e outro na região da bacia. O boletim médico prevê a “continuidade da quimioterapia, adicionando imunoterapia”.

    Abril de 2021

    Ainda internado, o prefeito apresentou acúmulo de líquidos ao redor do pulmão e no abdômen, que precisaram ser drenados. O tucano também chegou a receber alimentação complementar por via intravenosa. O quadro adiou a alta, que ocorreu após 12 dias de internação.

    Maio de 2021

    Após ter um sangramento detectado no local do tumor inicial, na cárdia, Covas é transferido para uma unidade de terapia intensiva e intubado.

    A prefeitura sob o comando de Ricardo Nunes

    Quem assume a prefeitura da maior capital do país no lugar de Covas é o vice-prefeito, Ricardo Nunes (MDB). Próximo do vereador Milton Leite (DEM), atual presidente da Câmara municipal, Nunes é dono de uma breve carreira na política, e tem na zona sul da cidade e na Igreja Católica suas bases. Ele vem ganhando espaço nas agendas da prefeitura e tem aparecido mais. Esteve presente, por exemplo, na ação que flagrou o atacante do Flamengo Gabigol em um cassino clandestino em São Paulo, em março.

    Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo na segunda-feira (3), Nunes afirmou que se sente “preparado” para a função, mas destacou que não fará “nada sozinho nesses 30 dias”. “Toda decisão mais complexa que tiver de tomar será feita em comum acordo com a equipe e com o próprio Bruno.”

    Discreto, Nunes não era a primeira opção de Covas na chapa pela prefeitura. Outros nomes chegaram a ser ventilados para a candidatura tucana, como o do deputado Celso Russomanno (Republicanos), mas as tratativas não avançaram.

    Antes de ingressar na política, Nunes fundou uma empresa que atua no ramo de controle de pragas urbanas e tratamento fitossanitário. Participou também da fundação e gestão de associações ligadas ao setor. Em 2012, conquistou uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo, e foi reeleito em 2016.

    Entre outros pontos, a costura que selou a indicação de Nunes também envolveu alianças partidárias. O governador de São Paulo, o tucano João Doria, que busca apoio para suas pretensões presidenciais, foi explícito na convenção do PSDB em setembro de 2020. “A coligação de Covas na capital indica aliança nacional entre PSDB, DEM e MDB”, afirmou na ocasião. Aliança que, no entanto, vem sofrendo entraves.

    Como candidato a vice, Nunes foi uma figura pouco participativa na campanha, na qual ficou mais conhecido pelas polêmicas envolvendo seu nome. Reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo em outubro de 2020 revelou que Nunes foi alvo de denúncias de violência doméstica pela esposa, Regina Carnovale, em 2011. Atualmente os dois estão juntos e negam o ocorrido. O jornal também mostrou ligações controversas de Nunes com entidades gestoras de creches. Ele nega irregularidades.

    Colaborou Lucas Gomes com os gráficos

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