Como o Brexit abala a política da Irlanda do Norte

Primeira-ministra anuncia renúncia após desligamento forçado da União Europeia e aumento das tensões entre independentistas e unionistas

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A primeira-ministra da Irlanda do Norte, Arlene Foster, anunciou na quarta-feira (28) que deixará a presidência do DUP (Partido Democrático Unionista, na sigla em inglês) no dia 28 de maio e o cargo de chefe de governo no fim de junho, em dia ainda não especificado.

Foster é uma proemiente figura política na Irlanda do Norte. Ela foi eleita parlamentar pela bancada do DUP pela primeira vez em 2003. Doze anos depois, em 2015, tornou-se a primeira mulher a presidir o partido e a primeira mulher a ocupar o cargo de premiê da Irlanda do Norte também, em dois períodos: 2016-2017 e 2020-2021. Sua queda é vista por analistas britânicos como um dos danos colaterais provocados pelo Brexit.

O termo Brexit vem da junção da palavra British (britânica) com exit (saída), e se refere ao processo de desligamento do Reino Unido em relação à União Europeia. A decisão de se desligar do bloco europeu foi tomada pela maioria dos britânicos, num plebiscito realizado em 24 de junho de 2016.

As ameaças à união do Reino Unido

Na ocasião, 51,9% dos cidadãos britânicos votaram a favor do desligamento. Porém, na Irlanda do Norte, a maioria dos eleitores (55,8%) votou por ficar. O mesmo ocorreu na Escócia, onde 62% se opuseram ao desligamento. A discrepância trouxe tensões políticas entre os países que fazem parte do Reino Unido, com Inglaterra e Países de Gales preferindo a saída, e Irlanda do Norte e Escócia optando pela permanência no bloco europeu.

Brexit

Brexit_Irlanda

Essa tensão se manifestou de formas diferentes em cada um desses contextos. No caso da Escócia, por exemplo, o governo atual busca realizar um novo referendo sobre a permanência do país no Reino Unido.

Quando uma consulta semelhante foi feita, em 2014, 55% dos escoceses optaram por ficar. Mas as circunstâncias mudaram desde então, por causa do Brexit. A atual premiê escocesa, Nicole Sturgeon, defende a realização da nova consulta, mas a proposta esbarra na oposição do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, um defensor tanto do Brexit quanto da unidade do bloco britânico.

As duas particularidades irlandesas

A situação da Irlanda do Norte, governada pela agora premiê demissionária Arlene Foster, é entretanto mais complexa. Essa complexidade está ligada a dois fatores: o primeiro deles é um fator político. O segundo é geográfico. Ambos são indissociáveis.

Politicamente, a Irlanda do Norte vive uma persistente tensão entre unionistas e independentistas. Os unionistas defendem o pertencimento da Irlanda do Norte ao Reino Unido. Os separatistas preferem que o país saia debaixo do guarda-chuva britânico e forme com a República da Irlanda uma só grande Irlanda unida e independente. Essa disputa permanece latente politicamente, mas já não descamba para a violência, como nos anos passados.

Já no que diz respeito à questão geográfica, o problema está no fato de a Irlanda do Norte fazer parte da mesma ilha que a República da Irlanda. Os dois países dividem uma fronteira terrestre comum, onde não existem barreiras de controle migratório e alfandegário.

Mapa mostra a localização da Irlanda do Norte e da República da Irlanda em relação ao Reino Unido.

Com a efetivação do Brexit, essa condição geográfica gerou um problema, pois os norte-irlandeses saíram do bloco europeu, junto com o restante do Reino Unido, mas a República da Irlanda, que é um país independente, permaneceu na União Europeia. Antes, não havia necessidade de controle migratório e aduaneiro entre os dois países. Porém, o Brexit mudou essa condição, pois os países do bloco europeu têm tarifas e normas comuns entre si, que passaram a não ser mais aplicáveis aos cidadãos britânicos (o que inclui os norte-irlandeses).

Em circunstâncias comuns, a saída seria simplesmente construir postos de controle migratório e alfandegário na fronteira entre as Irlandas. Porém, essa é uma das questões mais sensíveis na história política local. O chamado Acordo de Sexta-Feira Santa, firmado em 1998, que pôs fim a um conflito entre independentista e unionista, que deixou 3.600 mortos, tem na questão da fronteira aberta um fator primordial, como sinal de certa unidade apesar das divergências. Construir uma barreira física a esta altura seria reavivar as animosidades, com consequências imprevisíveis.

Para evitar isso, o Reino Unido buscou então uma saída intermediária, que consiste em manter a fronteira entre as duas Irlandas aberta, mas estabelecer um controle alfandegário “no mar”, sobre os produtos que entram e saem da ilha como um todo. Essa solução fez com que, na prática, a Irlanda do Norte mantivesse um pé dentro da União Europeia.

O arranjo conseguiu desagradar militantes de ambos os lados, porque não apresentou uma saída definitiva para nenhum dos dois campos e, ainda por cima, reavivou um debate sensível no país.

“Na Irlanda do Norte, há pessoas que têm identidade britânica, outras são irlandesas, outras são norte-irlandesas, e outras são uma mistura dos três. Todos temos de aprender a ser generosos uns com os outros, aprendendo a viver juntos e compartilhando esse país maravilhoso”

Arlene Foster

Primeira-ministra da Irlanda do Norte, no anúncio de sua renúncia, em 28 de maio de 2021

Foster tentou por meses encontrar posições de consenso, mas acabou desistindo diante da retirada do apoio até mesmo de parlamentares de seu próprio partido. O DUP foi traído por Boris Johnson, que, na campanha pelo Brexit, havia comparecido a uma reunião da legenda, onde prometeu que não haveria controles alfandegários marítimos entre os dois lados. Agora, há.

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