Como historiadores montam acervos com registros da pandemia

O ‘Nexo’ destaca 35 iniciativas e projetos sobre a memória da covid-19 desenvolvidos por universidades, museus, associações de historiadores, arquivos públicos e outras organizações

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Desde 11 de março de 2020, marco oficial da pandemia de covid-19, multiplicaram-se os tipos de documentação do momento atual mundo afora, uma época que já nasceu histórica: diários das quarentenas, depoimentos multimídia, documentários, fotografias, livros, memoriais, listas de lives e coleções de objetos simbólicos dos “tempos de pandemia”.

O Instituto Smithsonian, responsável por 19 museus nos EUA, está organizando objetos do tipo desde janeiro de 2020. O instituto já guardou, por exemplo, a ampola da primeira dose de vacina administrada no país. Segundo o jornal Folha de S.Paulo na segunda-feira (26), o acervo que o instituto está montando sobre a pandemia de covid-19 vai integrar uma exposição que deve ser inaugurada em 2022 sobre a história da medicina.

Muitos desses arquivos são e serão fontes para historiadores, que desde já estão registrando análises acerca da pandemia em suas implicações epidemiológicas, ecológicas, econômicas, políticas e culturais.

“Vários de nós já estamos pensando em perguntas mais direcionadas, filtrando e analisando materiais arquivados na nossa pasta pessoal ‘covid-19’", relatou a historiadora Viviane Borges, professora da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), em entrevista ao portal Uol em 12 de maio de 2020. Na época, 22 acervos públicos estavam coletando materiais, segundo o Conselho Internacional de Arquivos.

Quase um ano depois, em 28 de abril de 2021, o volume de dados e os acervos continuam se expandindo, enquanto historiadores vão garimpando informações e narrativas para o estudo da pandemia. De acordo com o mapeamento do projeto americano Made By Us junto à IFPH (Federação Internacional de História Pública), mais de 450 organizações de historiadores passaram a realizar projetos de história pública relacionados à covid-19.

“A pandemia converteu o planeta num grande laboratório de mudanças e incertezas a nos exigir compreensão e ação social que discriminem passados como legado daqueles que insistem em não passar e comprometer o presente. E o futuro”, escreveu a historiadora Dominichi Miranda de Sá, em artigo publicado na edição especial “Covid-19: os historiadores e a pandemia”, da Casa de Oswaldo Cruz.

“Além de analistas da vida social, nós, historiadores, estivemos confrontados com o nosso próprio lugar de testemunhas oculares de um evento histórico disruptivo. A autorreflexão sobre o nosso papel na contemporaneidade também foi constante. Destaque-se, a propósito, a análise dos impactos das tecnologias digitais na profusão documental e nas formas de arquivamento contemporâneo que a pandemia incrementou.”

“Instituições de memória documental em todo o mundo demonstraram uma incrível resistência diante desta crise”, destacou o programa Memória do Mundo, da Unesco. Segundo a agência, preservar arquivos é um importante recurso à perspectiva histórica sobre como os governos, os cidadãos e a comunidade internacional trataram a pandemia.

Abaixo, o Nexo destaca, em ordem alfabética, 35 iniciativas e projetos desenvolvidos por universidades, museus, associações de historiadores, arquivos públicos e outras organizações.

‘Adiós en cobertura’

É um site que publica perfis de jornalistas mortos por covid-19 na América Latina e no Caribe. As histórias de vida foram escritas a partir de depoimentos dados a jornalistas por familiares, amigos e colegas de redação das vítimas.

#MemóriasCovid19

Idealizada pela historiadora Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, da Coordenadoria dos Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp, a plataforma concentra textos, fotografias, desenhos, cartas, canções, áudios e vídeos sobre experiências pessoais durante a pandemia.

Arquivos da pandemia

Realizado pela Casa de Oswaldo Cruz, coleta documentos (textos, fotografias, arquivos de áudio ou vídeo) que registram experiências cotidianas da comunidade do instituto de pesquisa Fiocruz.

Archivo covid

Organizado pela Universidade de Alcalá, na Espanha, é um arquivo no Instagram que reúne fotos e vídeos documentais sobre a memória coletiva da pandemia no país.

Cartografia das memórias

Com a intenção de criar um “mapa sonoro”, o projeto contém relatos, gravados e compartilhados via WhatsApp, de brasileiros em quarentena em diversos países.

Aqueles que perdemos

Especial multimídia da Folha de S.Paulo com obituários de brasileiros que morreram por covid-19; em janeiro de 2021, marco de 200 mil mortos no Brasil, o jornal publicou um ensaio fotográfico com pares de sapatos para representar a ausência dessas pessoas para suas famílias.

Como vai sua quarentena?

Coordenado pela historiadora Lidiane Soares Rodrigues, do núcleo Reviravoltas do Simbólico, da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), o levantamento investiga características do isolamento social na pandemia no Brasil.

Constelando memórias

Realizado pelo Museu de Astronomia e Ciências Afins, compila depoimentos de professores no Brasil.

Coronarchiv

Iniciativa de historiadores das universidades de Bochum, Giessen e Hamburgo, na Alemanha, a plataforma permite aos usuários fazer upload de vídeos, fotos, arquivos de áudio e outros tipos de documentos, anonimamente ou não.

Corona collection project

O Museu Wien, em Viena, na Áustria, reuniu mais de 2.300 depoimentos e 6.000 fotos digitais entre março e junho de 2020 (atualmente, uma seleção de 235 fotos está disponível online); depois, o museu passou a coletar objetos, que serão organizados em uma exibição pós-pandemia.

Covid-19 e resistências

Projeto de extensão coordenado pela historiadora Ana Rita Uhle, da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), focado nas comunidades fronteiriças.

Diário para o futuro

Iniciativa do Museu da Pessoa, registra depoimentos de pessoas que desejam relatar o que têm passado no dia a dia na quarentena no Brasil.

Covid-19 memories

Plataforma online do Centro de História Digital e Contemporânea da Universidade de Luxemburgo, convida usuários a fazer upload de documentos diversos do cotidiano, inclusive avisos, campanhas, pôsteres, listas de compras, fotos pessoais, mensagens de voz, posts de mídias sociais.

Covid Art Museum

Idealizado pelos publicitários Emma Calvo, José Guerrero e Irene Llorca, publica obras de arte sobre a pandemia no Instagram.

Génération covid

Site do jovem fotógrafo francês Andéol Demeulenaere, de Franco-Condado, estreou no dia 23 de março de 2020, logo no início da pandemia. Ainda recebe depoimentos.

Histórias da queerentena

Do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), traz testemunhos e reflexões de dissidentes sexuais, de gênero e relacionais. O livro está disponível para download gratuito no site da universidade.

História oral na pandemia

Coordenado pela historiadora Juniele Rabêlo de Almeida, da UFF (Universidade Federal Fluminense), o acervo reúne de depoimentos de idosos no Brasil.

History responds

Iniciativa da New York Historical Society, que desde o 11 de Setembro já documentou protestos dos movimentos Occupy Wall Street e Black Lives Matter e, agora, está focado na pandemia de covid-19.

Inumeráveis

Memorial digital idealizado pelo artista Edson Pavoni para vítimas de covid-19 no Brasil.

Maré de casa

Projeto da ONG Redes da Maré, reúne relatos de moradores da comunidade da Maré, no Rio.

Memorial vagalumes

Reúne perfis e biografias de indígenas mortos por covid-19 no Brasil.

Memórias e vivências em tempos de covid-19

Liderado por Thaís Wenczenovicz, coordenadora do campus Erechim da UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), o projeto reúne registros em tom pessoal para “humanizar” estatísticas da covid-19 no país.

Naquele tempo

Idealizado por Fátima Aparecida da Cruz Padoan, reitora da UENP (Universidade Estadual do Norte do Paraná), foca condições dos idosos no isolamento social.

Objetos que aproximam

Exposição virtual do Museu das Coisas Banais, da UFPEL (Universidade Federal de Pelotas), de objetos simples que simbolizam a saudade, a memória afetiva de seus donos.

OneWorld Covid-19 Stories / Oral Histories

Coleções especiais do Museum of Chinese in America, em Nova York, nos EUA, com foco na diáspora chinesa e na condição de sino-americanos diante dos discursos de ódio contra asiáticos na pandemia.

Pandemic journaling project

Projeto de diários da pandemia de pessoas comuns em diversos idiomas, organizado por pesquisadores das universidades de Connecticut e Brown, nos EUA.

Palavra no agora

Projeto do paulista Museu da Língua Portuguesa de incentivo à escrita, reúne narrativas sentimentais de brasileiros.

Pandemic objects

Projeto editorial do Victoria and Albert Museum, em Londres, no Reino Unido, compila registros fotográficos de objetos que caracterizam a pandemia.

Reliquia-rum

Organizado pela antropóloga Débora Diniz, é um memorial de mulheres mortas por covid-19 no Brasil.

Stories of 2020

Projeto de “cápsula do tempo digital” do National Museum of American History, do Instituto Smithsonian, que inclui depoimentos sobre “novo normal” da pandemia e protestos que marcaram o ano.

Testemunhos do isolamento

Projeto do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, reúne depoimentos de experiências pessoais do isolamento social e o desenrolar da pandemia.

Vivre au temps du confinement

Coleção do Musée des Civilisations de l'Europe et de la Méditerranée, em Marselha, na França, inclui objetos emblemáticos como rolos de papel higiênico e ingressos de eventos cancelados por conta da pandemia.

Você vive a história em tempo real

Iniciativa de documentação de historiadores da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, em parceria com centros culturais e outras universidades gaúchas, foca as experiências da pandemia no estado.

Vozes da pandemia

Projeto de extensão de historiadores da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), coordenado pelo CPDHis (Centro de Pesquisa e Documentação Histórica) em parceria com o Arquivo da Cúria Metropolitana de Maceió, agrupa documentos para pesquisas futuras sobre a pandemia no estado.

What Loss Looks Like

Projeto da designer americana Umi Syam publicado no jornal The New York Times, exibe fotos de objetos de valor sentimental de pessoas que morreram, como um memorial virtual de vítimas da covid-19.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.