Com Pfizer, sem Sputnik: qual o futuro da vacinação no Brasil

Um milhão de doses de vacina recusada pelo governo em 2020 chegaram ao país, mas escassez tem levado estados a suspender campanhas. Anvisa diz que porta não foi fechada para imunizante russo

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No dia em que ultrapassou a marca de 400 mil mortos pela covid-19, o Brasil recebeu as primeiras doses da vacina da Pfizer. O carregamento com 1 milhão de imunizantes — de um total de 100 milhões previstos até o final de 2021 — chegou na quinta-feira (29) ao aeroporto de Viracopos, em Campinas, com quatro meses de atraso. O país poderia ter começado a aplicar essas vacinas ainda em dezembro caso tivesse aceitado a oferta do laboratório em agosto de 2020. O Ministério da Saúde recusou um acordo, na época, devido às cláusulas contratuais.

A vacina da Pfizer é a terceira a ser incorporada ao PNI (Programa Nacional de Imunizações), que disponibiliza desde janeiro a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan, e a vacina de Oxford, envasada pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Com mais de três meses de campanha contra a covid-19, o país ainda vacina em ritmo muito lento.

14,74%

da população brasileira recebeu ao menos uma dose da vacina até sexta-feira (30), segundo o consórcio de veículos de imprensa; apenas 7,15% tomaram as duas doses

O lote da Pfizer será distribuído a todos os estados de forma “proporcional e igualitária”, segundo o governo federal. As doses ficarão restritas às capitais devido a necessidades especiais de logística. A vacina precisa ser mantida em ultracongeladores a uma temperatura de -70°C. Os estados vão receber o produto em temperaturas que variam de -25°C e -15°C (o que reduz o prazo de validade de seis meses para 14 dias). Nas salas de vacinação, em que são mantidas de 2°C a 8°C, as vacinas precisam ser aplicadas na população em até cinco dias.

A vacina da Pfizer, que já tem o registro definitivo da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) desde fevereiro, será usada nos grupos prioritários. Em São Paulo, o público-alvo serão os idosos de 60 a 62 anos. A convocação das pessoas aptas a se vacinar tem seguido critérios locais.

21

dias é o intervalo recomendado entre as duas doses da Pfizer, mesmo critério da Coronavac; a vacina de Oxford tem suas doses aplicadas num período de três meses

Cenário ainda de escassez

Pressionado pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Senado, que investiga as ações e omissões do governo federal na pandemia, o Ministério da Saúde tem tentado acelerar a vacinação, mas enfrenta dificuldades. O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello havia projetado a vacinação de todos os grupos prioritários até maio. Em 21 de abril, seu sucessor no cargo, Marcelo Queiroga, estimou que a meta só deve ser alcançada em setembro.

“O calendário é sujeito às entregas. Covax Facility é uma iniciativa da OMS [Organização Mundial da Saúde], o que ocorre? Covax Facility não nos entrega o que foi acordado. Insumos que vêm de outros países, há uma carência nesses insumos. Isso não é uma questão do Brasil, é uma questão mundial”, afirmou. Na sexta-feira (30), o ministro anunciou que 4 milhões de doses da vacina de Oxford devem chegar ao Brasil em 1º e 2 de maio, por meio do programa.

Mesmo assim, Queiroga disse na sexta-feira (30), em entrevista coletiva com a OMS, ser “possível garantir que até o fim de 2021 tenhamos a nossa população inteiramente vacinada”. Ele fez um apelo aos países que estão com a vacinação avançada para que dividam as doses extras com o Brasil com o objetivo de evitar a “proliferação de novas linhagens e variantes do vírus”. Uma mutação do vírus surgida no final de 2020 em Manaus é considerada mais contagiosa e está associada à explosão de casos no país no início de 2021.

No evento, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, citou o Brasil como um dos “mais afetados” pela covid-19 e disse que a pandemia tem ensinado que nenhuma nação pode “baixar a guarda”.

“O Brasil tem uma longa e orgulhosa história da saúde pública, com três décadas de investimento no fortalecimento da saúde primária e progresso em relação à cobertura universal de saúde. Mas a pandemia atingiu o sistema de saúde do Brasil em cheio, e arriscamos perder essas conquistas”

Tedros Adhanom Ghebreyesus

diretor-geral da OMS

Além das doses da Pfizer que chegaram no final de abril, o governo federal espera receber mais 2,5 milhões de doses do imunizante em maio. Em junho, chegariam mais 12 milhões, e as 84,5 milhões restantes estão previstas para o terceiro trimestre do ano. Queiroga disse na sexta-feira (30) que o Ministério da Saúde está “na iminência de assinar” um contrato para comprar mais 100 milhões de vacinas da Pfizer.

Em abril, a Fiocruz entregou 19,7 milhões de doses da vacina de Oxford e planeja fornecer ao PNI mais 21,5 milhões de doses em maio. Na sexta-feira (30), o Butantan anunciou a antecipação de um lote com 600 mil doses da Coronavac e a marca de 42 milhões de doses já entregues ao governo federal.

Mesmo com as entregas anunciadas, o país continua sofrendo com a escassez e registrando suspensões das campanhas por falta de imunizantes. Na quarta-feira (28), prefeituras de ao menos dez estados tiveram de suspender a segunda dose por falta da Coronavac.

As perspectivas de novas vacinas

Além das três vacinas disponíveis, o governo havia incluído em seu plano de imunização contra a covid-19 a Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech, e a Sputnik V, do Instituto Gamaleya, ligado ao Ministério da Saúde da Rússia. A previsão do governo brasileiro é adquirir 563 milhões de doses até o final de 2021.

Decisões recentes da Anvisa, porém, dificultaram a incorporação desses imunizantes ao SUS (Sistema Único de Saúde). Na segunda-feira (27), a agência negou um pedido de dez estados para importar a Sputnik. O órgão apontou falta de dados para a aprovação e falhas em estudos e no desenvolvimento da vacina, o que coloca em dúvida sua segurança, qualidade e eficácia.

O Fundo de Investimento Direto da Rússia, que financiou o desenvolvimento do imunizante, atacou a Anvisa dizendo que o órgão foi antiprofissional, além de ter tomado a decisão sob pressão política internacional e de ter divulgado informações falsas sobre a vacina.

Uma das questões levantadas pela Anvisa foi a presença de adenovírus na vacina que pode se replicar nas células humanas, indicando riscos à segurança da população. O fundo negou a existência desses vírus replicantes e ameaçou ir à Justiça por difamação. A agência brasileira decidiu então, na quinta-feira (29), divulgar trechos de documentos e um vídeo de uma reunião em março em que representantes da vacina são questionados por técnicos da Anvisa e reconhecem problemas.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico na sexta-feira (30), o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, disse que a agência não fechou as portas para a Sputnik. “Se o desenvolvedor revisar o seu procedimento, alterar os seus métodos, documentar isso e nos enviar, claro que nós vamos considerar”, afirmou.

A indiana Covaxin também tem enfrentado reveses. Em março, a Anvisa negou ao laboratório Bharat Biotech, que produz o imunizante, o pedido de Certificação de Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos, um pré-requisito para a autorização de uso emergencial e de registro definitivo do produto no país. Também negou o pedido do Ministério da Saúde para importar e distribuir a vacina, que tem autorização para uso emergencial na Índia. O laboratório não conseguiu, segundo o órgão brasileiro, comprovar a eficácia e a segurança do imunizante.

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