A vigilância da Alemanha contra os negacionistas da covid

Governo abre investigação sobre grupos como o Querdenken, que se opõem às medidas sanitárias e mantêm ligações com as franjas mais radicais da extrema direita

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O serviço de inteligência alemão anunciou na quarta-feira (28) que vai colocar sob observação grupos negacionistas que vêm agindo durante a pandemia da covid-19 no país.

A Alemanha figurava como o quarto país da União Europeia em número de contaminados (3,3 milhões) e o terceiro em número de mortos pela covid-19 (82 mil) no dia seguinte ao anúncio.

O governo entende que as medidas sanitárias têm sido enfraquecidas pela ação desses grupos, que espalham desinformação nas redes e reúnem milhares em protestos de rua.

O olhar do serviço de inteligência alemão sobre esses grupos negacionistas – ou “coronacéticos”, como são às vezes chamados – se tornou mais sério depois da descoberta de que eles mantêm ligações com núcleos da extrema direita que já tinham sido colocados, em março, sob investigação federal.

O movimento Querdenken (pensamento alternativo) começou se organizando virtualmente, difundindo desinformação em aplicativos de mensagem e nas redes sociais especialmente contra políticas sanitárias restritivas, como o fechamento do comércio. Em seguida, surgiram grandes manifestações de rua que, embora sejam pacíficas na maior parte do tempo, às vezes descambam para a violência.

Em agosto, participantes de uma marcha negacionista que reuniu 40 mil pessoas na capital, Berlim, terminou com uma tentativa de invasão ao Parlamento. Manifestantes derrubaram grades de uma barreira de contenção policial que havia sido colocada na frente das escadarias do histórico edifício do Reichstag.

O episódio provocou forte reação dos políticos locais, que passaram a interpretar o movimento como algo mais do que mera livre expressão dos descontentes com a quarentena. Na ocasião, o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, classificou a tentativa de invasão do Parlamento como “um ataque ao coração da democracia”.

Ligações com a extrema direita

Alguns militantes do movimento pertencem também às alas mais radicais da AfD (Alternativa para a Alemanha), partido de extrema direita contra o qual o Escritório Federal de Proteção à Constituição abriu investigação em 25 de fevereiro.

A AfD tem 89 assentos no Parlamento alemão, que possui ao todo 709 cadeiras. O partido é a maior força de oposição e alimenta planos de crescimento nacional na eleição de setembro. Sua chegada ao Parlamento, em 2017, marcou a primeira vez que um partido de extrema direita elegeu representantes legislativos em âmbito nacional desde o fim do nazismo, em 1945.

Embora a sigla seja legal e seus membros eleitos dentro da lei, há franjas da AfD que mantêm uma ligação ambígua com o nazismo. O partido faz sucesso numa parcela restrita da população alemã, e o nível de apoio à sigla se mantém inalterado com o tempo. Em 2017, era de 12%. Em março de 2021, nenhuma pesquisa eleitoral dá mais de 11% de intenção de voto na AfD

Além das ligações com as franjas minoritárias e mais radicais da AfD, muitos dos coordenadores dos grupos negacionistas também militam no Reichsbürger (cidadãos do Reich), um movimento que se opõe à própria existência do Estado alemão moderno, ecoando o saudosismo nazista pela antiga Prússia – região que se estendia para além dos limites da Alemanha atual.

O discurso antissemita também aparece nas teorias da conspiração difundidas pelo grupo, que ecoa ainda o corolário de ideias espalhadas pelo QAnon – um movimento difuso ancorado em ideias conspiratórias que tornou-se proeminente nos anos de governo de Donald Trump nos EUA, espalhando dúvidas infundadas sobre a ciência e as verdades históricas.

A abertura da investigação alemã ocorre no momento em que governo federal, capitaneado pela atual chanceler, Angela Merkel, assume para si a responsabilidade de nacionalizar as medidas sanitárias durante a pandemia, que antes vinham sendo tocadas de forma descentralizada pelos 16 estados da federação.

A investigação pode levar, no limite, ao banimento formal dos grupos negacionistas, caso eles venham a ser declarados inconstitucionais. Por outro lado, especialistas ouvidos por jornais internacionais consideram que o simples anúncio da abertura da investigação pode ter o efeito contrário, de dar uma visibilidade indesejada a grupos que hoje são marginais e minoritários.

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