Quais as críticas à realização da Olimpíada na pandemia

A 85 dias do início do evento esportivo, Tóquio está em estado de emergência e menos de 1% da população japonesa já foi imunizada contra covid-19

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    Temas

    Organizadores publicaram nesta quarta-feira (28) uma atualização dos protocolos para controlar a covid-19 nos Jogos Olímpicos de Tóquio, cuja abertura está marcada para 23 de julho, daqui a 85 dias.

    Em comunicado conjunto da Tóquio-2020, COI (Comitê Olímpico Internacional), IPC (Comitê Paralímpico Internacional) e autoridades japonesas definiram que os cerca de 11 mil atletas esperados para as competições deverão fazer dois testes para coronavírus antes de embarcar e testes diários após desembarcar no Japão. Na versão anterior dos protocolos, publicada em fevereiro, previa-se exames a cada quatro dias.

    Espera-se que o manual seja atualizado mais uma vez, em junho, quando também deve-se decidir sobre a presença de público nas arquibancadas. Torcedores estrangeiros foram barrados em março, mas ainda está aberta a possibilidade para torcedores residentes no Japão.

    Atletas, delegações, jornalistas e demais envolvidos no evento deverão se restringir a um tipo de bolha olímpica, restrita a hotel, arenas, centros de treinamento e demais instalações, interagindo o mínimo possível com quem não está participando dos jogos. Entretanto, não precisarão passar por quarentena obrigatória.

    O contexto pré-olímpico

    A atualização dos protocolos acontece em um momento crítico da pandemia no Japão. Nesta segunda (26), o arquipélago ultrapassou a marca de 10 mil mortes por covid-19. O número pode parecer baixo se comparado a outros países, mas indica uma tendência acelerada de casos e óbitos: das 10 mil mortes, 35% ocorreram ao longo de 2020; 65% se concentram entre janeiro e abril de 2021, uma janela de apenas quatro meses.

    Diferentemente de Estados Unidos e Europa, a vacinação avança a passos lentos no Japão. Apenas 0,7% da população foi imunizada com as duas doses de vacinas contra covid, segundo os últimos dados do site Our World in Data.

    Devido à disparada no número de infecções, Tóquio e as províncias de Osaka, Kyoto e Hyogo estão em estado de emergência entre 25 de abril e 11 de maio. É o terceiro estado de emergência, em resposta à quarta onda de contágios no arquipélago desde o início da pandemia.

    Osaka, que tem registrado mais de mil novos casos por dia, vetou a passagem da tocha olímpica nas ruas da província. Na quarta-feira (28), foram 1.200 casos em Osaka e 925 em Tóquio. Na data, Shigeru Omi, principal assessor médico do governo, questionou se a Olimpíada deveria acontecer.

    “Estamos em um momento em que devemos discutir a realização do evento, tendo em conta a situação do aumento dos contágios e a pressão sobre o sistema de saúde, como fatores mais importantes. Meu alerta é que se pense em vários fatores”, disse Omi, em reunião do comitê de especialistas no parlamento japonês.

    "É responsabilidade do comitê organizador dos Jogos e dos outros responsáveis explicar aos cidadãos a decisão que tomarem sobre a realização da Olimpíada”

    Shigeru Omi

    assessor médico do governo japonês

    As críticas

    Desde 2020 ocorrem protestos contra a realização da Olimpíada. Pesquisas realizadas por agências japonesas indicam que a maioria da população do país não gostaria que os Jogos acontecessem agora.

    Segundo uma delas, realizada pela NHK em janeiro, cerca de 80% dos japoneses defendem adiar ou cancelar a edição do evento de vez. A mais recente, realizada pela agência Kyodo News em abril, indica que 72% não querem os jogos e 92% temem novas ondas de contágio do coronavírus.

    Nos últimos tempos foram publicadas críticas mais contundentes à realização dos jogos na pandemia. Em janeiro, o jornalista japonês Kosuke Takahashi levantou a questão: “Nós podemos realmente realizar a Tóquio-2020 diante dos recordes de casos de coronavírus? Aliás, devemos?”, escreveu, no jornal Asia Nikkei.

    Para Takahashi, entre os motivos para cancelar as competições estão a disseminação descontrolada da covid-19, o número limitado de vacinas no mundo todo e o próprio custo dos jogos.

    Em fevereiro, atletas e técnicos japoneses também passaram a se posicionar publicamente contra os jogos na pandemia – entre eles, a atletista Hitomi Niiya, recordista japonesa na prova dos 10 mil metros.

    “Como atleta, quero competir nos jogos. Como pessoa, não quero. Honestamente, a vida humana é mais importante do que as Olimpíadas"

    Hitomi Niiya

    atleta olímpica japonesa

    Em 6 de março, manifestantes protestaram em frente ao Estádio Nacional de Tóquio, onde será realizada a cerimônia de abertura. “Nós, cidadãos, não queremos a Olimpíada”, disse Toshio Miyazaki à agência Reuters.

    Em 1º de abril, manifestantes exibiram cartazes críticos aos jogos e faixas pedindo “foco nas ações contra covid-19” na passagem da tocha olímpica em Nagano. A agência NHK, que diariamente está transmitindo o revezamento ao vivo na internet, silenciou o som da gravação no momento dos protestos.

    A crítica mais recente foi publicada no Asia Times, em 26 de abril, pelo jornalista americano Jake Adelstein, radicado no Japão.

    Para Adelstein, o governo está insistindo na realização dos jogos por questões políticas e econômicas, desconsiderando os impactos da pandemia no país. “Todos os shows e jogos estão suspensos nas próximas duas semanas para evitar eventos supertransmissores. Mas, em menos de três meses, o Japão vai receber o maior evento esportivo no mundo. Faz sentido?”, questionou.

    “Quantas mortes é um preço aceitável a pagar para realizar a Tóquio-2020? 10? 100? 1.000? [...] 10 mil mortes num país de 126 milhões de habitantes podem não parecer muito se comparado com o massacre que marcou Brasil, Índia, Reino Unido e Estados Unidos [...]. Alguém pode dizer que o Japão foi muito melhor que Reino Unido e Estados Unidos, mas familiares e amigos dos 10 mil mortos no Japão certamente vão considerar isso irrelevante”

    Jake Adelstein

    jornalista norte-americano radicado no Japão

    Depois de Tóquio-2020, Pequim-2022

    Desde o início da pandemia até 29 de abril, o Japão contabiliza 577 mil casos e 10 mil mortes por covid-19, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. O Brasil, que atravessa um dos piores momentos da crise, conta 14,4 milhões de casos e 400 mil mortes.

    Cerca de 1.400 atletas, demais integrantes das delegações e jornalistas credenciados para cobrir a Olimpíada foram incluídos na lista prioritária para vacinação no Brasil através do PNO (Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19).

    Segundo o jornal Folha de S.Paulo, as vacinas virão do laboratório chinês Sinovac e serão repassadas ao governo brasileiro pelo COI, que fez parceria com o COC (Comitê Olímpico Chinês). No acordo, o SUS (Sistema Único de Saúde) receberia cerca de 8.000 doses extras das vacinas.

    A China, que será sede dos Jogos Olímpicos de Inverno, em fevereiro de 2022, se dispôs a ajudar na imunização dos atletas para Tóquio-2020 e Pequim-2022.

    O Brasil ainda precisa oficializar o acordo, mas a expectativa é a de que o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) vacine os atletas e demais participantes até o fim de maio.

    Atleta olímpico de Montreal-1976 e atual técnico do time feminino de vôlei, José Roberto Guimarães também se manifestou nesta semana sobre o Brasil na Tóquio-2020. “Se os números estiverem subindo, nem o Japão vai querer realizar a Olimpíada. Se estiverem declinando, é possível com certa segurança. Se estiverem subindo, sou contra. Não dá para fazer de qualquer maneira. Temos que preservar vidas humanas, o povo”, declarou ao jornal Folha de S.Paulo.

    "Olimpíada pode ter em qualquer ano, mas a vida, não. Então vamos aguardar e, se tudo estiver caminhando, estamos aqui nos preparando. Mas se disser que não vai ter, paciência, vamos ficar tristes, lamentar, mas fazer o quê?”

    José Roberto Guimarães

    técnico brasileiro

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.