A carta dos generais que pedem intervenção militar na França

Grupo de reformados ecoa ideias da extrema direita em manifesto ao presidente Emmanuel Macron, mas são repreendidos pelo Ministério da Defesa

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Um grupo de 1.200 militares reformados das Forças Armadas da França, incluindo 24 generais, publicou no dia 21 de abril uma carta aberta de forte conteúdo político, que adverte o presidente Emmanuel Macron do risco de uma “intervenção” militar no país.

Os militares reclamam do que acreditam ser uma degradação social e cultural da França, provocada pela imigração, pelo islamismo e pelo crescimento de movimentos criminais nas periferias dos grandes centros. Segundo eles, esses elementos “debilitam o patriotismo e a herança civilizacional francesa”.

“Se nada for feito, o laxismo [relaxamento moral] continuará a se espalhar inexoravelmente na sociedade provocando no fim uma explosão e a intervenção de nossos camaradas da ativa numa missão perigosa de proteção dos valores civilizacionais e da salvaguarda de nossos compatriotas no território nacional”

Carta aberta dos militares da reserva das Forças Armadas da França, publicada em 21 de abril no semanário Valuers Actuelles

A carta aberta foi publicada em um semanário conservador da França, chamado Valeurs Actuelles (Valores Atuais), fundado nos anos 1960, cuja posição editorial se radicalizou na direção da extrema direita nos anos 2010. A data de publicação foi escolhida para coincidir com o aniversário de outro movimento insurrecional – o frustrado “golpe dos generais” de 21 de abril de 1961, quando um grupo de oficiais defendeu a ideia de um golpe contra o então presidente Charles de Gaulle, depois que ele decidiu pôr fim ao colonialismo francês na Argélia.

Os argumentos de agora ecoam as principais mensagens da nova extrema direita nacionalista, que ganhou protagonismo internacional após a eleição de Donald Trump para a presidência americana, em 2016, e que tem em Marine Le Pen seu maior expoente francês na atualidade.

Os militares ecoam teorias da conspiração, como a da “grande substituição”, segundo a qual a população branca francesa será extinta pela miscigenação. Eles também criticam o islamismo e o avanço de uma cultura de subúrbio, formada em grande parte por jovens imigrantes, que não estaria ligada ao que identificam com os valores civilizacionais do país que juraram defender.

O elemento eleitoral da carta

Em entrevista à imprensa, Marine Le Pen defendeu os autores do manifesto, dizendo que compartilha a “aflição” manifestada pelos militares. Ela também disse estar indignada com as reações que a carta provocou nos setores políticos franceses, sobretudo entre membros do governo e entre políticos de esquerda.

Le Pen é presidente do partido de extrema direita Rassemblemet Nacional (Reunião Nacional) desde 2011. Ela vem abocanhando uma fatia cada vez maior do eleitorado francês – ficou em terceiro lugar nas eleições presidenciais de 2012, com quase 18% dos votos. Em 2017, ficou em segundo lugar, com 21,3% e nas eleições presidenciais mais recentes, de 2017, ficou novamente em segundo, com 33,9% dos votos.

Em 2022, ela deve se candidatar novamente. Sua expectativa é de repetir o segundo turno de 2017, enfrentando mais uma vez o atual presidente, Emmanuel Macron, que buscará o segundo mandato.

A carta dos militares da reserva põe pressão sobre Macron a um ano da eleição presidencial, e amplifica o alcance das mensagens nacionalistas de Le Pen, mostrando à opinião pública o respaldo incomum de um setor da sociedade que, na França, não costuma se pronunciar publicamente sobre assuntos de natureza política.

As reações do governo

Coube à ministra da Defesa de Macron, Florence Parly, responder em nome do governo. Ela disse que os autores da carta incorreram em “insurreição” e violaram o “dever de reserva”, que estabelece que os militares não devem se pronunciar sobre temas políticos fora da esfera privada.

Não houve eco entre os militares franceses da ativa, que foram os alvos das insinuações feitas pelos militares reformados que escreveram a carta. Ainda assim, Parly considera que mesmo os aposentados estão sujeitos ao dever do silêncio.

“Pedi ao chefe do Estado-Maior que aplicasse as regras que estão previstas no estatuto dos militares, ou seja, as sanções”

Florence Parly

Ministra da Defesa da França, em entrevista à France Info

As consequências legais não constam apenas nas leis aplicáveis aos militares da reserva e da ativa, mas também constam no código penal e são válidas para sancionar qualquer cidadão que incite a “desobediência” em relação às estruturas da democracia na França. Há previsão de aplicação de multa e até de detenção, mas não está claro se o governo acionará esses dispositivos contra os signatários.

Os militares signatários assinam a carta com nome, sobrenome e patente. Pelo menos três deles já concorreram a cargos eletivos em eleições locais na França em anos passados, pelo partido de extrema direita liderado por Le Pen.

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