Por que a política de privacidade da Apple atrapalha o Facebook

Atualização de sistema operacional permite que usuários rejeitem a coleta de seus dados. Rede social critica mudança

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    A Apple lançou a versão 14.5 do iOS – sistema operacional do iPhone – na segunda-feira (26). A maior parte das mudanças é sutil e foi colocada ali apenas para corrigir problemas de versões anteriores ou para garantir uma melhor usabilidade aos donos do smartphone – como a função de desbloquear o celular com reconhecimento facial mesmo de máscara. Contudo, uma delas marca um novo capítulo do investimento da empresa em privacidade. Trata-se das novas políticas de rastreamento.

    Poder de decisão

    Na década de 2010, plataformas como o Facebook e o Twitter passaram a coletar dados acerca do comportamento dos usuários e a usá-los para direcionar publicidade customizada.

    Você já deve ter percebido o padrão: ao buscar por um determinado produto em uma loja online, é bem provável que você passe a ver propagandas deste produto em diversos sites que visita.

    Até então, ao criar uma conta em uma plataforma como o Facebook, o usuário aceitava automaticamente ser rastreado. Com a mudança, os desenvolvedores de aplicativos que querem estar presentes em dispositivos Apple precisam permitir que o usuário aceite expressamente ter seus dados coletados.

    Os iPhones são os celulares mais usados do mundo, dominando cerca de 1/4 do mercado global de smartphones. Por isso, a maior parte dos desenvolvedores acata as decisões da Apple, sob a pena de não estarem disponíveis nos aparelhos da empresa.

    Com a mudança, todo usuário de iPhone ou iPad verá uma caixa pop-up pedindo permissão para que o aplicativo colete e compartilhe seus dados com anunciantes. Caso haja recusa, nenhum dado será coletado e apenas publicidades genéricas serão exibidas.

    “A Apple agora está nos dando a escolha”, afirmou Brian X. Chen, colunista de tecnologia do jornal The New York Times. “Tendo o poder de escolha, será que permitiríamos o rastreamento dos nossos passos online? Vamos descobrir.”

    Uma estimativa feita pela empresa de consultoria de mercado Tinuiti afirma que, com a mudança, somente 15% dos usuários deve continuar permitindo a coleta de seus dados.

    O impacto no Facebook

    Mark Zuckerberg e o Facebook não estão felizes com a mudança na política de privacidade da Apple.

    Isso porque o repasse de dados de usuários para anunciantes é a principal forma de renda da empresa. Com a mudança, os anúncios continuarão fazendo parte da plataforma, mas não serão mais customizados para cada usuário – o que aumentava a possibilidade da compra daquele produto ou serviço.

    O Facebook afirma estar preocupado também com pequenas e médias empresas. A rede social chegou a criar um site para abordar essa questão.

    “A nova política da Apple torna muito mais difícil que pequenos negócios atinjam seus públicos-alvos, limitando seu crescimento e a habilidade de competir com grandes empresas”, diz o texto.

    “Um exemplo: uma pequena livraria poderia gastar US$ 50 [cerca de R$ 270] para criar anúncios personalizados e ganhar cinco vendas. Sem o uso de dados para personalizar o anúncio, eles gastariam os mesmos US$ 50 e ganhariam apenas duas vendas”, afirma a página.

    A posição da Apple é de que a mudança vale para todos, e não dá privilégios a ninguém além do próprio usuário. Desde 2018, a privacidade tem sido uma das principais preocupações da empresa.

    Tim Cook, sucessor de Steve Jobs no comando da Apple, já afirmou mais de uma vez que a privacidade é um direito humano fundamental.

    As possibilidades de controle da privacidade também são usadas pelo marketing da Apple, que usa as funcionalidades em propagandas, colocando-as como um diferencial em relação aos concorrentes.

    A divergência de visões já causou rusgas públicas entre Zuckerberg, fundador do Facebook, e Cook.

    Em 2018, Cook foi entrevistado pelo canal de TV americano MSNBC e foi questionado sobre o que faria se estivesse no comando do Facebook e tivesse que lidar com os escândalos envolvendo privacidade na plataforma. Cook se limitou a dizer “eu não estaria lá”. Desde então, farpas pontuais foram trocadas entre os dois executivos.

    Parte de uma tendência

    O controle da privacidade tem sido uma tendência na indústria da tecnologia. Em março, o Google anunciou mudanças em suas políticas de coleta de dados e rastreamento.

    A empresa afirmou que deixará de utilizar tecnologias que identificam usuários e rastreiam sua navegação por diversos sites. Esse tipo de informação costuma ser coletada por cookies de plataformas, arquivos que também armazenam dados como logins e senhas de sites específicos e preferências de idioma.

    Em nota, a empresa afirmou que o mecanismo de coleta de dados levou a “uma erosão na confiança” por parte do público. Segundo um estudo do centro de pesquisa Pew, citado pelo Google, 72% das pessoas sentem que quase tudo que fazem na internet está sendo rastreado por anunciantes e empresas de tecnologia. No mesmo estudo, 81% dos entrevistados afirmou acreditar que os potenciais riscos que existem na coleta de dados superam os benefícios.

    Por se tratar de iniciativas recentes e até então inéditas, não se sabe exatamente qual será o impacto delas na publicidade digital.

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