O impacto da pandemia na educação básica paulista

Estudo na rede pública estadual de São Paulo mostra que suspensão das aulas presenciais prejudicou mais estudantes dos primeiros anos

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A paralisação das aulas presenciais por causa da pandemia do novo coronavírus afetou mais os estudantes dos primeiros anos e teve um impacto maior na aprendizagem de matemática do que de língua portuguesa. A constatação é de um estudo feito pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora a pedido da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo.

É a primeira vez que um estado avalia o impacto da suspensão das aulas no desempenho dos alunos. Para isso, o estudo aplicou uma avaliação presencial de português e matemática no começo de 2021 em 20.743 estudantes do 5º e 9º anos do ensino fundamental e da 3ª série do ensino médio da rede estadual. Foram usados os mesmos parâmetros para que o resultado pudesse ser comparado com o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) de anos anteriores.

O Saeb é realizado em todos os estados a cada dois anos pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), ligado ao Ministério da Educação, com o objetivo de fazer um diagnóstico da educação básica brasileira e de fatores que podem interferir no desempenho dos estudantes.

O que o estudo mostrou

O estudo em São Paulo constatou que houve piora no aprendizado em todas as séries avaliadas. O impacto, porém, foi maior na avaliação de matemática entre os estudantes do 5º ano. A nota em 2021 (196) foi 46 pontos inferior à obtida em 2019 (242), uma queda de 19%. Entre os alunos do 9º ano, houve uma redução de 13 pontos e, entre os estudantes do 3º ano do ensino médio, a queda foi de 18 pontos.

Em língua portuguesa, o tombo foi de 29 pontos entre os estudantes do 5º ano, e de 12 e 11 pontos entre os alunos do 9º ano e do 3º do ensino médio, respectivamente.

Quando os resultados são comparados na série histórica do Saeb, o efeito da pandemia no aprendizado é ainda mais assustador. O resultado obtido pelos alunos do 5º ano em 2021 em português é o mesmo de dez anos atrás e em matemática está próximo da nota de 14 anos atrás. Entre os estudantes do 3º ano do ensino fundamental, a nota em matemática está abaixo de toda a série histórica desde seu início, em 2005.

A defasagem no aprendizado

Ao anunciar o resultado do estudo, na terça-feira (27), o secretário estadual da Educação de São Paulo, Rossieli Soares, lembrou que já havia uma defasagem no desempenho dos estudantes mesmo antes da pandemia, ou seja, o aluno chegava a uma determinada etapa do ensino obtendo notas que eram esperadas nas etapas anteriores. Essa situação, porém, piorou com a suspensão das aulas presenciais.

Por causa da crise, um aluno que chegou ao 5º ano do fundamental teve o desempenho em matemática, por exemplo, que era esperado para um estudante do 3º ano.

“Nossa defasagem aqui no estado de São Paulo para o que seria adequado era de 0,13 [anos] apenas nos anos iniciais, e agora vai saltar para mais de um ano, dois anos talvez. Esse processo vai levar com que essa criança tenha dificuldade de matemática até o final do ensino médio”

Rossieli Soares

secretário estadual da Educação de São Paulo

Segundo o secretário, a pandemia tem sido uma “catástrofe” para a educação. O estudo mostra, por exemplo, que os alunos do 5º ano precisariam aumentar em 11 vezes o desempenho (em um único ano) para que voltem ao patamar de 2019 em matemática. Nas últimas quatro edições do Saeb, porém, os estudantes só conseguiram subir em média quatro pontos a cada ano em matemática. Por isso, a recuperação da aprendizagem perdida levaria cerca de 11 anos.

O estudo comparou ainda o resultado da avaliação amostral de 2021 dos alunos do 5º ano com o Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) de 2019 feito pelos alunos do 3º ano na época, já que foram os mesmos alunos que realizaram as duas provas. Essa comparação permite avaliar a evolução na aprendizagem ao longo do tempo. O resultado observado foi uma leve melhora de sete pontos em língua portuguesa e uma queda de 16 pontos em matemática.

“Assim, após 15 meses, os mesmos estudantes estão em um nível de proficiência apenas levemente superior em língua portuguesa, e menor em matemática”, diz o estudo.

Por que o impacto é maior em matemática

Responsável pelo estudo, a doutora em educação Lina Kátia de Oliveira, que é coordenadora da unidade de avaliação do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, credita a queda no aprendizado em matemática à falta de aulas presenciais.

“Historicamente, a educação de matemática sempre foi preocupante. O ‘efeito escola’ e do professor trabalhar com a matemática em sala de aula fica visível nos resultados alcançados”, afirmou, durante a apresentação do estudo, na terça-feira (27).

Segundo ela, que é graduada em matemática, o ensino da disciplina exige a presença física do professor e a realização de atividades interativas em sala de aula para que o aluno “consiga prosseguir seus estudos com sucesso”. A defasagem em português, segundo ela, também tem impacto no ensino da matemática.

“Os resultados de matemática sempre foram inferiores ao de língua portuguesa. O aluno precisa ser um leitor proficiente no 5º ano, um leitor ativo e interativo no 9º ano e no 3º ano do ensino médio para que possa resolver os problemas numéricos, algébricos e geométricos com eficácia. Você vê uma defasagem e uma desigualdade em língua portuguesa que influenciam na educação matemática”, afirmou.

O resultado em matemática revelado pelo estudo, segundo a pesquisadora, revela que os estudantes do 5º ano conseguem apenas resolver problemas muito elementares de adição e subtração, mas não reconhecem figuras e formas geométricas ou sabem resolver problemas de multiplicação e divisão.

“Eles não sabem ler um gráfico pequenininho de coluna e comparar qual é maior, qual é menor e nem dados apresentados em tabelas que são habilidades básicas e essenciais importantes para prosseguirem os estudos na etapa dois do ensino fundamental e, consequentemente, desenvolver o pensamento indutivo e abstrato em relação ao ensino médio”, afirmou.

O secretário da educação, Rossieli Soares, defendeu que a volta às aulas seja priorizada na tentativa de recuperar os danos já causados pela pandemia. O governo do estado também propôs como medidas um programa de recuperação, a expansão do ensino integral e melhorias no centro de mídias para as atividades a distância.

Em São Paulo, as escolas foram autorizadas a reabrir com limite de 35% em 14 de abril. Segundo o secretário, cerca de 1,1 milhão de alunos voltaram às aulas presenciais. Parte dos professores têm sido contrária ao retorno das atividades devido à gravidade da pandemia tanto na rede pública como privada — escolas particulares como a São Domingos, na capital paulista, registraram greve de professores contra as aulas presenciais. Na rede pública, uma greve foi aprovada em fevereiro, mas o governo diz que a adesão foi baixa.

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