Como está o desenvolvimento de vacinas brasileiras contra a covid

Há 17 projetos para obter imunizantes nacionais, passo considerado essencial para lidar com a doença nos próximos anos. O ‘Nexo’ lista quais estão mais avançados e o que falta até que seu uso seja possível

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O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse na terça-feira (27) que o laboratório deve começar ainda nesta semana a produção da ButanVac, vacina contra a covid-19 desenvolvida pelo instituto. O Butantan já fez o pedido à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para começar os ensaios clínicos do imunizante, primeiro passo até que as doses fabricadas possam ser usadas pela população. Na terça, a agência julgou que os dados enviados estão incompletos e pediu mais informações.

Até abril de 2021, duas vacinas contra a covid-19 são aplicadas no Brasil: a Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e produzida no país pelo Instituto Butantan; e a vacina de Oxford, elaborada pela universidade britânica em parceria com a companhia farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca e fabricada no país pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

As duas foram desenvolvidas no exterior e, mesmo quando envasadas no Brasil, dependem de insumos vindos de fora ou da transferência de tecnologia para que a produção possa ocorrer toda no país. Por isso, ter vacinas brasileiras contra covid-19 é um passo considerado estratégico para garantir a autonomia nacional diante do alto custo de insumos e da escassez de imunizantes no mercado internacional.

Menor custo, independência de insumos vindos de fora e controle da produção da vacina são vantagens destacadas. Isso também prepararia o país para a hipótese de a pandemia persistir por muito tempo, visto que pesquisadores consideram que a vacinação contra covid-19 poderá ser necessária de tempos em tempos, como ocorre com a gripe, devido às mutações no vírus.

A tecnologia também pode ser útil para enfrentar outras epidemias que podem surgir no futuro.

Etapas até a produção de vacinas

Exploratória

Fase de pesquisa para identificação de antígenos, a substância estranha ao organismo que desengatilha a produção de anticorpos

Pré-clínica

Fase de testes com animais em laboratórios para analisar a resposta do organismo ao imunizante

Clínica

Fase com testes em humanos, subdivididos em fase 1 (para verificar se o imunizante é seguro), fase 2 (para avaliar as respostas do sistema imunológico) e fase 3 (para analisar a eficácia da vacina)

Aprovação

Se apresentar resultados suficientes em todos os testes, o laboratório pode pedir o registro da vacina, que poderá ser disponibilizada para a população

Em geral, os maiores produtores de vacinas do país são os dois laboratórios públicos que hoje abastecem a campanha contra a covid-19: o Bio-Manguinhos, da Fiocruz-Rio, e o Instituto Butantan, de São Paulo. O maior comprador é o SUS (Sistema Único de Saúde), via PNI (Programa Nacional de Imunizações).

17 projetos de vacinas brasileiras contra o novo coronavírus sendo desenvolvidos por cientistas vinculados a diferentes instituições. Entre as mais avançadas estão as vacinas do Instituto Butantan e da USP (Universidade de São Paulo), que contam com empresas estrangeiras como parceiras, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Se tudo transcorrer bem, a previsão é que elas sejam disponibilizadas em 2022.

Butanvac, do Instituto Butantan

Ligado ao governo de São Paulo, o Butantan produz a Coronavac (do laboratório chinês Sinovac) e agora está desenvolvendo uma vacina própria, batizada de Butanvac.

No dia 23 de abril, o instituto pediu autorização à Anvisa para iniciar as fases 1 e 2 dos testes clínicos, que devem durar 20 semanas no máximo. O Butantan prevê começar ainda em abril a produção das doses, que ficarão prontas à espera dos resultados e posterior aprovação do imunizante.

Ao anunciar a iniciativa, no dia 26 de março, o governador João Doria (PSDB) se referiu à Butanvac como produto “100% nacional”. Entretanto, a tecnologia usada no imunizante foi desenvolvida nos EUA, e não no Brasil – o modelo é patenteado por pesquisadores do Instituto Mount Sinai, de Nova York.

O Butantan alegou que, por contrato, não poderia divulgar detalhes das parcerias que estão sendo firmadas. O imunizante está sendo desenvolvido desde 2020 por um consórcio internacional liderado pelo Butantan, com a participação de laboratórios do Vietnã (Instituto de Vacinas e Biologia Médica vietnamita) e da Tailândia (Organização Farmacêutica Governamental da Tailândia).

A Butanvac é feita a partir de um vírus que causa uma gripe aviária conhecida como doença de Newcastle e é inofensivo em humanos. Esse vírus é modificado para carregar um pedaço do novo coronavírus, a proteína S (ou Spike), que reveste o novo coronavírus e é responsável pela entrada do vírus nas células. Ao ser identificada no corpo humano, a proteína estimula o sistema imune a produzir anticorpos e células de defesa, garantindo proteção no vacinado, caso ele seja infectado de verdade.

Versamune, da USP

Desenvolvida a partir da parceria da Faculdade de Medicina da USP, campus de Ribeirão Preto, com a startup paulista Farmacore e a empresa norte-americana PDS Biotechnology, a Versamune também foi anunciada no dia 26 de março.

Ao anunciar o projeto ao lado do presidente Jair Bolsonaro, o ministro Marcos Pontes também destacou que o imunizante tem “tecnologia 100% brasileira”. A Versamune é feita a partir da réplica de um fragmento específico da proteína Spike do Sars-CoV-2 associado a uma tecnologia para acionar as células T do organismo, que são responsáveis pela resposta antiviral no corpo.

Segundo o ministro, as fases 1 e 2 de testes clínicos deveriam se iniciar no mês de abril. Entretanto, no dia 28 de março, a Anvisa pediu mais dados para dar continuidade à análise do pedido de autorização para os estudos clínicos – não foram divulgados novos prazos.

O governo federal está financiando o projeto por meio da Rede Vírus, organizada pelo MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações): são estimados cerca de R$ 30 milhões para as fases 1 e 2 dos teste clínicos com cerca de 300 voluntários e R$ 300 milhões para a fase 3 com 25 mil voluntários.

“O desafio aqui é justamente o Orçamento. Esse custo é um investimento muito bom para o país”, disse o ministro em live ao lado do presidente, no dia 23 de abril. No entanto, no dia seguinte, Bolsonaro vetou R$ 200 milhões que seriam usados no desenvolvimento do imunizante.

Spintec, da UFMG

Há sete projetos de vacinas em andamento na UFMG: dois no Instituto de Ciências Biológicas da universidade e cinco no CT-Vacinas, com participação do Instituto René Rachou, da Fiocruz-Minas. Cada projeto utiliza um tipo de técnica diferente.

O mais avançado é o imunizante batizado provisoriamente de Spintec, no CT-Vacinas, que utiliza uma proteína recombinante. O estudo partiu da modificação genética da bactéria e.coli, que recebeu pedaços do genoma do vírus Sars-Cov-2 para que fosse possível produzir as proteínas S e N, que o coronavírus utiliza para infectar as células. O composto de proteínas, chamado de “quimera”, é então injetado no corpo humano e induz à resposta imune.

Pesquisadores começaram a produzir o IFA (insumo farmacêutico ativo) para não depender de importações. Já foram realizados testes em camundongos e, em abril, iniciaram-se os testes em primatas, micos-estrela que foram resgatados pelo Ibama. Após a conclusão da pesquisa, eles serão reencaminhados ao instituto e vão voltar a seus habitats naturais. A expectativa é que os testes em humanos comecem no segundo semestre de 2021. Se aprovado, o imunizante pode estar disponível no país a partir de 2022.

A pesquisa é financiada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e pelo MCTI. Para o estudo clínico, a universidade estima que serão necessários R$ 30 milhões de investimento. Na Assembleia Legislativa de Minas, a reitora da UFMG, Sandra Goulart, pediu ajuda dos deputados para garantir recursos.

Segundo Goulart, é essencial investir em tecnologia nacional diante do atual contexto de escassez de vacinas no mercado internacional. “Por isso é tão importante a gente investir numa vacina que seja 100% de tecnologia brasileira", disse. “Quem respondeu à altura a crise da pandemia foram as universidades. Universidades públicas que têm o dever de gerar conhecimento e de devolvê-lo à sociedade”, acrescentou.

De acordo com a pesquisadora Ana Paula Fernandes, uma das coordenadoras do CT-Vacinas e professora da UFMG, a busca por uma vacina brasileira é importante para frear a pandemia e ajudar o país a criar bases para a produção de imunizantes contra outras doenças no futuro. “Desenvolver os passos de uma vacina no Brasil é fundamental para a soberania nacional, pois nos garante certa independência no combate às doenças”, pontuou, em entrevista ao site da universidade.

Vacina da UFPR

Em desenvolvimento desde fins de 2020, a vacina da UFPR está em fase de testes pré-clínicos e, até agora, registrou resultados semelhantes às demais: após duas doses da vacina, os animais que receberam o imunizante produziram anticorpos contra a covid-19.

De acordo com detalhes divulgados pela universidade na segunda-feira (26), a vacina será 100% brasileira. Fabricar uma dose deste imunizante custa R$ 5 atualmente – no mercado internacional, o preço base é de US$ 10 (cerca de R$ 55) por dose.

A tecnologia de produção foi desenvolvida por pesquisadores da universidade federal. A vacina usa partículas de um polímero biodegradável revestidas com a proteína Spike para gerar a imunização.

“Esta vacina vai ser estratégica e necessária em 2022, em 2023, quem sabe até depois. É uma vacina de baixíssimo custo, que pode dar as condições no futuro para uma soberania tecnológica, que hoje tem afligido nossa sociedade, com a espera de IFA da Índia, da China. É uma vacina com um mecanismo tecnológico e imunização que até aqui se demonstrou bastante alvissareira”, destacou o reitor da UFPR, Ricardo Marcelo Fonseca, em nota à imprensa.

Finalizada a fase de testes pré-clínicos, pesquisadores podem pedir autorização à Anvisa para iniciar os testes clínicos, o que pode ocorrer no segundo semestre de 2021. Se aprovada, a vacina pode estar disponível a partir de 2022.

O projeto tem financiamento de R$ 230 mil do CNPq, do MCTI. Para viabilizar a etapa pré-clínica, a universidade firmou acordo com o governo do Paraná, que vai repassar R$ 995 mil para o projeto (R$ 700 mil para compra de equipamentos e custeio de pesquisa e R$ 295 mil para pagamento de bolsas de pós-doutorado para pesquisadores).

Vacina da UFRJ

Desenvolvida no Lecc (Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares) do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da UFRJ, a vacina é do tipo recombinante, isto é, o ingrediente ativo do imunizante é uma proteína obtida por técnicas de engenharia genética.

O laboratório já está produzindo em escala piloto a proteína Spike, cultivando células de mamíferos em biorreatores. A fórmula final da vacina está em estágio de protótipo.

A primeira fase do estudo está sendo financiada pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, com investimento de R$ 2 milhões. Para avançar no desenvolvimento e iniciar estudos clínicos, o laboratório conta com outros R$ 2 milhões do programa Fast Grants, fundo americano para financiar projetos de pesquisa voltados ao combate da covid-19 no mundo. O laboratório também busca parcerias com farmacêuticas brasileiras para a conclusão do projeto e a produção industrial.

Segundo o pesquisador Amílcar Tanuri, coordenador do projeto e professor da UFRJ, a vacina deverá ser eficaz contra as variantes brasileiras do vírus. A expectativa é realizar os testes em animais ainda em 2021, mas o custo é alto. “A vacina brasileira necessita de muitos recursos”, disse.

Diante dos recentes cortes no orçamento para ciência, o laboratório publicou uma nota assinada pelos pesquisadores Roberto Bartholo e Romildo Toledo, diretores do instituto.

“No momento em que o mundo enfrenta a maior crise sanitária em um século, o governo federal anuncia esta medida descabida, que prejudicará a campanha de vacinação contra a covid-19 e as atividades da Fiocruz e do Instituto Butantan, assim como de universidades e instituições de ciência e tecnologia em todo o país, que procuram desenvolver vacinas nacionais contra o novo coronavírus”, escreveram.

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