A solidariedade internacional com a Índia no pico da pandemia

Americanos e europeus respondem com prontidão aos pedidos de ajuda de Nova Déli, que vive explosão no número de casos da covid-19

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Os governos dos EUA e das potências europeias anunciaram nesta segunda-feira (26) o envio de um pacote de ajuda emergencial à Índia para mitigar os efeitos da pandemia, que vem batendo recordes no país asiático no mês de abril.

EUA, Reino Unido, França e Alemanha, entre outros países, estão enviando oxigênio de uso hospitalar, ventiladores para respiração assistida e toneladas de outros suprimentos de uso médico para aliviar a pressão sobre o sistema indiano, que entrou em colapso após o país bater recordes seguidos de infecção pelo vírus.

Os britânicos mandaram cem ventiladores por via aérea. A França despachou oito unidades produtoras de oxigênio hospitalar capazes de abastecer um hospital com 2 mil leitos. A Alemanha mandará um navio com suprimentos adicionais. Os EUA falam em liberar seu excedente de vacinas e de insumos para a fabricação de vacinas.

“Os EUA estão determinados a retribuir a ajuda que a Índia nos deu no início da pandemia, quando nossos hospitais estavam lotados”

Joe Biden

Em pronunciamento no dia 26 de abril de 2021

“A União Europeia está mobilizando recursos para responder rapidamente aos pedidos indianos de socorro”

Ursula von der Leyen

Presidente da Comissão Europeia, em mensagem postada nas redes sociais no dia 26 de abril de 2021

Na quarta-feira (21), foram 295.041 novos casos e 2.023 mortes na Índia. No dia seguinte, quinta-feira (22), foram 314.835 novos casos diagnosticados, com 2.104 mortes em 24 horas. O aumento fez o primeiro-ministro, Narendra Modi, telefonar para líderes mundiais, incluindo o presidente dos EUA, Joe Biden, a quem pediu socorro nesta segunda-feira (26).

De acordo com a imprensa indiana, a ofensiva diplomática também incluiu contatos feitos pessoalmente por membros de embaixadas e de consulados da Índia nas principais capitais do mundo, para reforçar o pedido de ajuda emergencial.

Diferença em relação ao Brasil

A resposta dada pelos países mais ricos do mundo para ajudar a Índia neste momento contrasta com a resposta que foi dada por esses mesmos países quando o Brasil estava em situação semelhante, 18 dias atrás.

A principal diferença está na decisão americana de liberar para outros países até 60 milhões de lotes da vacina de Oxford/AstraZeneca que foram encomendados pela Casa Branca.

Essas entregas foram encomendadas pelos EUA, mas ainda não foram recebidas da fábrica em sua totalidade. Além disso, a vacina de Oxford/AstraZeneca ainda não tem aprovação das autoridades sanitárias americanas para ser aplicada na população local.

Apesar disso, o governo Biden fazia questão de manter, até agora, seus contratos e seus estoques, liberando apenas uma pequena quantidade para seus dois únicos vizinhos de fronteira: México, ao sul, e Canadá, ao norte.

O Brasil revelou no dia 20 de março que havia enviado uma carta ao governo americano uma semana antes, pedindo para receber parte dessas vacinas estocadas pelos EUA. Em resposta, o governo americano publicou um comunicado no dia 23 de março frustrando a expectativa brasileira. A Casa Branca disse na ocasião que enviaria o excedente ao consórcio Covax Facility, coordenado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), e não para um país específico.

“Os EUA estão cientes dos pedidos de outros países sobre as doses de vacinas do governo dos EUA, e quando determinarmos que podemos compartilhar mais vacinas, trabalharemos em estreita colaboração com a Covax e outros parceiros internacionais”

Embaixada dos EUA em Brasília

Em nota publicada no dia 23 de março de 2021

O comunicado do Departamento de Estado americano dava a entender que os EUA ainda não estavam decididos a compartilhar essas doses excedentes, mesmo diante do colapso do sistema de saúde no Brasil e mesmo apesar dos pedidos feitos pelo governo do presidente Jair Bolsonaro.

Nesta segunda-feira (26), após ter falado com o premiê indiano por telefone, Biden anunciou a decisão de compartilhar 60 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca com outros países, tão logo o produto seja aprovado pelas autoridades sanitárias locais.

Não está claro se a distribuição desse excedente será feita diretamente para alguns países – como ocorreu com México e Canadá – ou se essas doses serão direcionadas ao consórcio Covax Facility para uma redistribuição intermediada pela OMS, como havia sido dito ao Brasil. O jornal britânico The Guardian diz que as vacinas excedentes americanas irão inicialmente para a Índia. A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse que 10 milhões de doses podem ser liberadas “nas próximas semanas”, sem especificar o destino.

As razões da mudança de postura

Índia e Brasil têm respectivamente a segunda e a sexta maiores populações do mundo. Até terça-feira (27), a Índia era o segundo país com maior número de contaminados pela covid-19 – com um total de 17,6 milhões, atrás apenas dos EUA, com 32,1 milhões. O Brasil era o terceiro, com 14,3 milhões.

Apesar das condições semelhantes, a resposta recebida pelos governos do Brasil e da Índia foram muito diferentes.

“O Brasil foi o epicentro da pandemia por meses, mas Bolsonaro não conseguiu convencer o governo Biden a enviar matérias-primas para a produção de vacinas. Agora que um surto de covid abalou também a Índia, Biden reagiu rapidamente, permitindo o envio do material aos indianos”, disse o professor de relações internacionais da FGV de São Paulo, Oliver Stuenkel.

A explicação para essa diferença, segundo ele, tem quatro pontos:

  • a presença de uma diáspora indiana numerosa, politicamente organizada e influente nos EUA, capaz de sustentar uma ofensiva diplomática consistente por parte do governo Modi, que mobilizou não apenas diplomatas, mas também figuras influentes do mundo científico e econômico indiano
  • o fato de Modi ter construído desde o início uma relação mais amistosa com Biden do que Bolsonaro se dispôs a construir; mesmo com os líderes da Índia e do Brasil sendo expoentes da extrema direita nacionalista que era próxima ao governo de Donald Trump
  • a importância geopolítica inerente à posição geográfica da Índia na Ásia e de seu poder político-militar, no momento em que os interesses estratégicos americanos migram do Oriente Médio para a região que está sob influência direta da China
  • o fato de a Índia ser uma grande produtora de vacinas, que não apenas são consumidas por sua própria população (a segunda maior do mundo), mas também têm como destino dezenas de países em desenvolvimento

O fato de a Índia ter obtido melhor resposta dos EUA do que o Brasil conseguiu ao pedir ajuda não significa que não exista cooperação entre Washington e Brasília na pandemia. A Embaixada dos EUA na capital brasileira diz que empresas e governo deram o equivalente a R$ 418 milhões em ajuda ao Brasil desde o início da pandemia, em 2020.

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