Como as vitaminas podem se tornar um problema na pandemia

Incluídos no ‘kit covid’, suplementos trazem riscos se consumidos em excesso. Até agora, não há estudos científicos conclusivos sobre sua eficácia contra o novo coronavírus

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O YouTube removeu em 19 de abril, pela primeira vez, um vídeo gravado por Jair Bolsonaro defendendo o “kit covid”. Numa live que tinha ido ao ar três meses antes e até então disponível na página do presidente, ele defende o uso de hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, zinco e vitamina D contra a covid-19 alegando que “não faz mal isso aí”.

O arquivo foi tirado do ar por violar a nova política de informação do YouTube, que foi atualizada em abril de 2021. Com a nova regra, a plataforma vai excluir gravações (antigas e atuais) que recomendem o uso de remédios ineficazes para tratar a covid-19.

Ainda não há remédios cientificamente comprovados, com testes clínicos concluídos, que previnam contra a infecção ou barrem o desenvolvimento da doença provocada pelo novo coronavírus. Mas há remédios que, já testados de forma exaustiva, simplesmente não funcionam, e podem causar problemas, como cloroquina e hidroxicloroquina.

Esse é o posicionamento das principais autoridades de saúde e medicina do mundo e do Brasil, incluindo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o CDC americano (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), a Ema (Agência Europeia de Medicamentos), a SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Entretanto, os kits covid continuam a se disseminar pelo Brasil. Segundo reportagem da Agência Pública publicada na terça-feira (20), farmácias brasileiras venderam mais de 6,6 milhões de frascos e caixas de medicamentos do kit covid ao longo de um ano de pandemia.

Entre os riscos da divulgação da ideia de tratamento precoce estão o estímulo à automedicação e o consumo excessivo de remédios sem supervisão médica. Os kits variam pelo país e incluem diversos medicamentos e multivitamínicos, além de cloroquina e vermífugos.

Vitaminas são aliadas importantes para o sistema imunológico. No entanto, o consumo não é “inofensivo”, como dizem os defensores do inexistente “tratamento precoce”. O excesso pode causar lesões graves em órgãos vitais – é o caso das vitaminas D e C, presentes nos kits.

O caso da vitamina D

A vitamina D faz referência a um grupo de substâncias (os compostos D2 e D3, o colecalciferol) e é obtida principalmente a partir da exposição à luz solar.

A síntese da vitamina D3, que atua na absorção de nutrientes como cálcio e fósforo pelo corpo, é fruto da interação dos raios ultravioletas B do sol e o composto 7-dehidrocolesterol, presente na pele. Para a produção adequada de vitamina D, o ideal é expor tronco, braços e pernas, sem filtro solar, por cerca de 15 minutos, entre 10h e 15h.

Além da via solar, a vitamina D é encontrada, em quantidades menos expressivas, em peixes gordurosos (como atum, sardinha e salmão). A suplementação é recomendada para casos específicos (osteoporose, pacientes que passaram por cirurgia bariátrica e pacientes que têm restrições à luminosidade, por exemplo). O nível ideal e a dose diária variam de acordo com a idade e as condições de cada indivíduo.

“A vitamina D vai beneficiar quem é deficiente. Para quem não é, não é como se quanto maior a ingestão, melhor. Está errado, porque a vitamina D também intoxica. Intoxicações graves podem levar a quadros de insuficiência renal e até mesmo morte”

Marise Lazaretti Castro

professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, em entrevista ao Nexo, em 2018

Impulsionada pela pandemia, a vitamina D se tornou um nicho de mercado de US$ 1,1 bilhão em 2020 e, segundo projeções da Business Wire, deve crescer a uma taxa de 7%, até 2025.

A substância foi propagandeada como um poderoso “antídoto” contra covid-19 – o que não é verdade. A vitamina D é importante para a imunidade do corpo humano, mas a suplementação é indicada para casos específicos e, até agora, não há nenhum estudo científico conclusivo que certifique o composto como tratamento eficaz contra a covid-19.

Uma alta dose de vitamina D administrada na internação hospitalar tampouco influencia na melhora do quadro de pacientes com covid-19, revelou um ensaio clínico com 240 pacientes no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP realizado entre junho e agosto de 2020 e publicado no Jama (Journal of the American Medical Association) em fevereiro de 2021.

“Uma variedade de micronutrientes, incluindo a vitamina D, são essenciais para um sistema imunológico saudável. Isso, por sua vez, é a chave para a prevenção e recuperação de infecções. Mas, até o momento, há poucas evidências convincentes de que tomar suplementos nutricionais tenha qualquer valor terapêutico além de manter a resposta imunológica normal do corpo”, destacou Sumantra Ray, autor de um estudo observacional publicado na revista científica BMJ Nutrition Prevention & Health em abril de 2021. “Esta ainda é uma área emergente de pesquisa que necessita de estudos mais rigorosos.”

O caso da vitamina C

O ácido ascórbico, simplesmente conhecido como vitamina C, é considerado um nutriente essencial por participar de diversas funções regulatórias do corpo, como a produção de colágeno, a absorção de ferro e, principalmente, o funcionamento adequado do sistema imunológico.

Como o corpo humano não é capaz de produzi-la por conta própria, a vitamina C é incorporada na ingestão de alimentos: frutas (sobretudo as cítricas) e legumes estão entre as fontes principais. Também há alimentos industrializados que, na sua composição, recebem a vitamina C como aditivo alimentar.

A dose diária recomendada varia de país para país. No Brasil, são 75 miligramas para mulheres e 90 para homens. Uma laranja, para se ter ideia, tem cerca de 50 miligramas de vitamina C.

Há muito tempo a vitamina C é associada à ideia de reforçar o sistema imunológico para combater gripes e resfriados. Entretanto, há críticas à suplementação com cápsulas, principalmente se não há nenhum quadro de deficiência do nutriente.

No Brasil, a busca por vitamina C aumentou 152,73%, segundo levantamento da IQVIA, consultoria da área de saúde, entre janeiro e abril de 2020, em relação ao mesmo período de 2019. A procura por vitamina D aumentou 48,22%, indicou o estudo, encomendado por conselhos regionais de farmácia.

“A vitamina C não é um antiviral. Se o indivíduo está usando a vitamina para melhorar o sistema imune, é melhor dormir e comer bem”

Giliane de Souza Trindade

professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2020

Segundo estudo da Cleveland Clinic, centro médico acadêmico americano sem fins lucrativos, a vitamina C e o zinco não são eficazes contra o coronavírus. Realizado entre abril e outubro de 2020 e publicado em fevereiro de 2021 no Jama (Journal of the American Medical Association) Network Open, o experimento administrou altas doses dos suplementos, sob supervisão médica, a 214 pacientes, o que não diminuiu a duração dos sintomas significativamente e não comprovou benefícios.

“Além disso, a administração de suplementos com benefícios não comprovados pode ser prejudicial devido aos efeitos adversos”, escreveu Milind Desai, um dos autores do estudo. “Foi demonstrado que o zinco causa gosto metálico, boca seca e intolerância gastrointestinal em altas doses. O ácido ascórbico pode causar intolerância gastrointestinal e, no estudo atual, uma proporção significativamente maior de pacientes nos subgrupos de ácido ascórbico relatou efeitos adversos, incluindo náusea, diarreia e cólicas estomacais.”

O que é hipervitaminose

A suplementação indiscriminada de nutrientes, em especial das vitaminas D e C, vem preocupando autoridades de saúde, que alertam para os riscos do consumo excessivo dessas substâncias, a superdosagem.

Hipervitaminose é a condição de armazenamento de altos níveis de vitaminas no sangue, que podem levar a sintomas tóxicos. Em outras palavras, é um tipo de intoxicação.

Se ingerida em excesso, a vitamina D pode provocar lesões e desengatilhar sintomas como vômitos, náuseas e aumento da pressão arterial. O excesso também pode desregular os níveis de cálcio, provocando, por sua vez, pedras nos rins (cálculos renais). A vitamina C, se consumida em excesso, pode causar cólicas, diarreia e, a depender do indivíduo e no longo prazo, pedras nos rins e na urina (cálculos urinários).

Segundo Helio Vannucchi, professor da Divisão de Nutrologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, as hipervitaminoses mais graves são causadas pelas vitaminas A, D, E e C.

Em entrevista recente ao Jornal da USP, Vannucchi alertou que a suplementação só deve ser feita após diagnóstico clínico de deficiência de vitaminas, com dosagens apropriadas. “Ao que se conhece atualmente, nenhuma vitamina tem ação de tratamento ou prevenção na pandemia”, destacou.

Em nota relacionada à pandemia, a Abran (Associação Brasileira de Nutrologia) destacou a importância das vitaminas e minerais para o sistema imunológico. Assegurar doses diárias de vitaminas a partir da alimentação e, se necessário, suplementação de acordo com avaliação médica, pode otimizar a resposta imunológica. “Importante enfatizar que nenhum desses nutrientes trata diretamente a infecção pela covid-19”, frisou.

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