Como ‘CPF cancelado’ virou o novo ‘bandido bom é bandido morto’

Bolsonaro posa com cartaz com a expressão. Oposição critica presidente pela violência da imagem e pela insensibilidade diante da pandemia. Termo foi alavancado por programa de TV e aparece com frequência nas redes

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O presidente Jair Bolsonaro posou para fotos segurando um cartaz com a mensagem “CPF cancelado” na sexta-feira (23). Junto ao presidente, aparecem na imagem os ministros Milton Ribeiro, da Educação, e Gilson Machado, do Turismo, além do apresentador Sikêra Júnior e membros da equipe de seu programa de TV. A imagem foi publicada nos canais oficiais do Palácio do Planalto.

O registro foi feito após entrevista do presidente ao programa Alerta Especial – apresentado por Sikêra Júnior – da TV A Crítica, do Amazonas. No ar, Bolsonaro fez comentários homofóbicos e preconceituosos contra asiáticos, além de ter ameaçado usar as Forças Armadas para enfrentar medidas de isolamento social adotadas por prefeitos e governadores.

A repercussão da foto foi negativa entre a oposição. As críticas apontaram o contexto no qual Bolsonaro posou sorrindo e promovendo a expressão “CPF cancelado”. O Brasil enfrenta o pior momento da pandemia em 2021, com mais de 390 mil mortes pela covid-19.

O que significa a expressão

A expressão “CPF cancelado” é uma forma de referir à morte, e é comumente utilizada em casos de homicídios cometidos por policiais por arma de fogo.

Em coluna publicada no jornal Folha de S.Paulo em abril de 2019, o escritor Sérgio Rodrigues afirmou que o “CPF cancelado” não é apenas um eufemismo para a morte, como outros tantos termos da língua portuguesa. O autor destaca que a expressão carrega um tom sarcástico, ao desumanizar as vítimas – reduzindo-as ao número do CPF – e ao mesmo tempo comemorar as mortes.

Rodrigues também afirma que a expressão é empregada normalmente como uma tática de identificação e demarcação de inimigos. Não à toa, o “CPF cancelado” é normalmente associado à figura do “bandido”.

A ideia de “CPF cancelado”, portanto, dialoga com a cultura por trás da gíria “bandido bom é bandido morto”. O Brasil é um país com alta letalidade policial. Também é um país em que a ideia de que “bandido bom é bandido morto” ainda é difundida por parte da população, incluindo Bolsonaro.

Silvia Ramos, da Rede de Observatórios da Segurança Pública, analisou o impacto da expressão “bandido bom é bandido morto” na violência policial em entrevista ao Nexo de 2017: “Mesmo que o policial saiba que está fazendo algo ilegal, como executar um criminoso, ele acha que aquilo não é ilegitimo nem imoral. Ele sabe que não se pode executar um criminoso quando está rendido, ou fazer uma emboscada para matar alguém numa área de periferia do Brasil. A questão hoje do crime e da segurança é esta: quem está sendo morto? Fossem jovens de classe média alta de áreas abastadas, a polícia mudaria em semanas. Quando alguém fala ‘bandido bom é bandido morto’, está falando que jovem, negro, pobre, de periferia morto não é problema meu.”

As origens e a difusão do ‘CPF cancelado’

A expressão “CPF cancelado” foi popularizada pelo apresentador Sikêra Júnior, que comanda programa policialesco que começou em rede estadual amazonense e passou a ter transmissão nacional na RedeTV! em 2019.

Em um dos quadros do programa, Sikêra Júnior anuncia – e celebra – a morte de suspeitos pela polícia. No quadro, são usados cartazes iguais aos que Bolsonaro segurou na sexta-feira (23) – réplicas ampliadas do documento CPF (Cadastro de Pessoas Físicas) com uma tarja vermelha que diz, em letras garrafais, “cancelado”.

Antes de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filhos do presidente, já haviam posado com cartazes desse tipo. Os dois participaram do programa de Sikêra Júnior em setembro de 2020.

Na ocasião, Flávio deixou de comparecer a uma acareação (espécie de depoimento prestado ao Ministério Público) no processo que investigava o vazamento de informações da Operação Furna da Onça – que deu origem ao caso das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro – para participar do programa televisivo.

Apesar da popularização por Sikêra Júnior, a expressão “CPF cancelado” não foi criada pelo apresentador. De acordo com Sérgio Rodrigues, a origem é incerta, mas a fonte provável são círculos policiais.

O termo ganhou aderência nas bases de extrema direita no final da década de 2010. Nas redes sociais, é comum que comentários de notícias sobre a morte de suspeitos por policiais contenham a expressão. Em veículos de mídia ligados à direita – como os próprios programas policialescos na televisão, que frequentemente trazem mensagens de desrespeito aos direitos humanos – também é possível encontrar a expressão.

Em 20 de agosto de 2019, “CPF cancelado” foi uma das palavras-chave mais usadas no Twitter. Naquele dia, um homem manteve 37 pessoas reféns em um ônibus na ponte Rio-Niterói, no Rio de Janeiro. Ele foi morto por um atirador da Polícia Militar depois de três horas de negociação.

A morte do sequestrador foi comemorada por autoridades como o Bolsonaro e o então governador do Rio, Wilson Witzel. Flávio Bolsonaro fez uma postagem com a legenda “CPF CANCELADO. O resgate da autoridade no Brasil está acontecendo”.

Na segunda-feira (26), perguntado por uma jornalista sobre a foto com o cartaz quando o Brasil se aproxima das 400 mil mortes pela covid-19, o presidente respondeu: “Você não tem o que perguntar não? Deixa de ser idiota, menina!”

Bolsonaro e o descaso com a morte na pandemia

A proximidade de Bolsonaro com o discurso do “bandido bom é bandido morto” não é nova. Ele costumava usar a expressão em sua carreira como deputado. Em 2018, o tema da segurança pública foi um dos principais motes de sua campanha presidencial.

Nessa área, seu governo é marcado pela implementação de políticas para facilitar o porte de armas no país e pela tentativa de ampliar o chamado excludente de ilicitude, a fim de evitar que policiais não respondam por mortes em serviço. Trata-se de um dispositivo que muitos especialistas em segurança pública comparam a uma espécie de “licença para matar”.

Mas as principais críticas à foto de Bolsonaro com o cartaz de “CPF cancelado” dizem respeito ao fato de ser mais um episódio de descaso do presidente com a morte de centenas de milhares de brasileiros em meio à pandemia do novo coronavírus.

Em 20 de abril de 2020, Bolsonaro disse “Não sou coveiro, tá?”, sobre o avanço da covid-19 no país. Oito dias depois, o presidente afirmou: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”.

Em novembro, Bolsonaro disse que o Brasil precisava “deixar de ser um país de maricas” e se queixou que “tudo agora é pandemia”. Em março de 2021, já em meio ao colapso hospitalar no país, o presidente imitou uma pessoa com falta de ar em uma de suas transmissões em redes sociais.

As falas e gestos de descaso de Bolsonaro com os mortos se somam às respostas inadequadas dadas pelo governo na pandemia. Desde o início da crise sanitária, em março de 2020, Bolsonaro atacou medidas de isolamento social, defendeu remédios que não funcionam contra a covid-19 e desestimulou a vacinação. Também minimizou e desdenhou a gravidade da pandemia, aglomerou pessoas em eventos oficiais pelo Brasil, questionou sem base científica o uso de máscaras e até incentivou a invasão de hospitais sob a falsa alegação de que eles estariam vazios.

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