Parque fechado, bar aberto: as restrições e os riscos de contágio

Cidades brasileiras restringem circulação em locais ao ar livre, onde o risco de transmissão é muito baixo, mas permitem o funcionamento de bares e restaurantes, estabelecimentos no qual é necessário tirar as máscaras

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A prefeitura do Rio de Janeiro decidiu reabrir a partir da segunda-feira (26) as praias e os parques da cidade, mas manteve a proibição de público nesses locais aos finais de semana. O horário de bares e restaurantes — que já estavam autorizados a funcionar — e de qualquer outra atividade não essencial em locais fechados foi estendido até as 22h, com o limite de ocupação de 40% da capacidade.

A decisão de restringir o acesso da população a ambientes abertos e permitir que pessoas frequentem locais fechados (nos quais permanecem por longos períodos e, em alguns casos, sem máscaras, como nos restaurantes) não é restrita ao Rio de Janeiro. Em São Paulo, por exemplo, os parques estiveram fechados em abril, enquanto celebrações religiosas dentro das igrejas eram permitidas.

Para muitos cientistas, não faz sentido permitir o funcionamento de bares e restaurantes e, ao mesmo tempo, fechar parques e praias, como vem sendo feito. Embora a covid-19 seja ainda uma doença nova, já há bastante evidência sobre a maneira como é transmitida.

O entendimento inicial era o de que as contaminações pelo vírus ocorriam pelo contato com superfícies. Mas, desde julho de 2020, a OMS (Organização Mundial de Saúde) reconhece que a transmissão ocorre, principalmente, pelo ar. Em abril de 2021, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, dos Estados Unidos, atualizou suas orientações apontando que as chances de transmissão ao tocar objetos contaminados é de menos de 1 em 10 mil.

O que diz a ciência

O coronavírus é transmitido por gotículas de saliva e partículas virais expelidas na fala, na tosse, no espirro ou mesmo durante a respiração. Por isso, ele é mais transmissível em lugares fechados e mal ventilados, onde os aerossóis podem ficar por mais tempo suspensos no ar.

“A ideia mais simples é pensar que todo mundo está exalando fumaça”, afirmou o professor José Luis Jiménez, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, ao jornal espanhol El País, em outubro. Jiménez pesquisa a transmissão de doenças e a dinâmica dos aerossóis.

Segundo ele, em lugares abertos, a “fumaça” com vírus se dissipa. “Mas se estivermos em um lugar fechado, ela vai se acumulando, sobretudo se não houver ventilação”, disse. O risco é justamente inalar os aerossóis — e o risco aumenta quanto maior o tempo gasto dentro do mesmo ambiente fechado e quanto mais perto estiver a pessoa infectada. “Inalamos [os aerossóis] e eles ficam em algum ponto do nosso sistema respiratório”, afirmou o professor.

Os riscos em locais abertos

Em ambientes ao ar livre, os aerossóis se dispersam facilmente com o vento. Uma revisão de estudos sobre a transmissão do vírus publicada em novembro de 2020, na revista da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, concluiu que o risco de contágio é 19 vezes maior em ambientes fechados do que abertos.

As chances de transmissão, ao inalar partículas virais ao passar rapidamente por uma pessoa na rua mesmo que sem máscara, são mínimas. Se uma pessoa tossir ou espirrar em ambiente aberto, a probabilidade de se infectar com uma quantidade suficiente de vírus expelido é também muito baixa, segundo a professora de engenharia Linsey Marr, da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, que estuda a transmissão de vírus, em entrevista ao jornal The New York Times, na quinta-feira (22).

Existem poucos casos documentados de infecção pelo novo coronavírus em espaços abertos. Um deles ocorreu na China, no início da pandemia, quando um homem de 27 anos parou para conversar com um amigo que havia retornado de Wuhan, cidade onde a covid-19 foi descoberta. O homem manifestou sintomas sete dias depois. Os relatos de transmissão ao ar livre geralmente envolvem longas conversas cara a cara ou gritos (quando uma quantidade maior de aerossóis é emitida).

Na Irlanda, por exemplo, um levantamento do Centro de Proteção e Vigilância em Saúde divulgado em abril mostrou que apenas 0,1% dos casos de covid-19 no país estavam associados a atividades em ambientes abertos.

Em alguns países onde a vacinação está avançada, como nos Estados Unidos, já se discute até mesmo a obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes abertos. Depois de ultrapassar 61% da população imunizada e sentir o impacto da vacinação na redução de casos e mortes, Israel anunciou o fim da medida em áreas ao ar livre em meados de abril.

O risco das aglomerações

Embora seja pequeno, o risco de contaminação em locais abertos ainda existe e aumenta caso haja aglomerações. “Praias e atividades ao ar livre são abertas, mas, se ficarem lotadas, tem-se o mesmo efeito [de contaminação] de esportes coletivos. As pessoas estão relaxadas, bebendo, sem proteção, próximas umas das outras”, afirmou o epidemiologista Eduardo Martins Netto, da UFBA (Universidade Federal da Bahia), ao portal UOL, no começo de abril.

O risco de infecção depende da proximidade mantida com uma pessoa infectada, da carga viral dessa pessoa, de quanto tempo se está perto dela e do ambiente onde ocorre o encontro, segundo especialistas. Por isso, abraçar-se, aglomerar-se (para tirar fotos, por exemplo, ou para comer) aumenta o risco de transmissão mesmo em locais abertos.

A virologista Megan Steain, da Universidade de Sidney, na Austrália, afirmou a um jornal local, em outubro, acreditar que pessoas na praia, por exemplo, podem “baixar a guarda” e esquecer do distanciamento social. Outro professor da mesma universidade, Euan Tovey, que pesquisa vírus respiratórios, disse que os riscos são maiores no transporte até a praia ou esperar numa fila de um café ou de um bar na volta para casa do que na praia em si, especialmente se houver algum vento ou se o distanciamento mínimo de um metro for mantido.

Como usar os espaços abertos

Em entrevista ao jornal El País, em outubro, o professor José Luis Jiménez, da Universidade do Colorado, classificou o fechamento de parques durante a pandemia como uma “barbaridade”.

Para ele, se há pessoas que se aglomeram em espaços públicos e abertos para beber, por exemplo, bastaria vigiá-las para evitar que isso acontecesse. Elas não deixariam de se juntar, de acordo com o professor, só porque o parque está fechado — a reunião ocorreria na casa de alguém, em ambiente fechado, o que é muito pior.

“Fechar parques e abrir bares é um desastre. Porque no final você precisa dar opções às pessoas. Elas estão muito cansadas e precisam sair. O que é preciso fazer é o contrário: pegar os parques e dividi-los em pedacinhos. Esta academia fica aqui, esta outra nestes metros. Que os espaços verdes possam ser usados para esse tipo de atividades, evitando os ambientes internos”, afirmou. Ele defende orientações para uma socialização “de maneira segura” e não a proibição das atividades.

Em fevereiro, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, anunciou que bares e restaurantes poderiam enviar propostas à prefeitura para instalar mesas e cadeiras em vagas de estacionamento de 40 ruas da capital. A cidade já havia autorizado 11 estabelecimentos a ocuparem espaços públicos para atender os clientes no projeto Rua SP. A medida evitaria aglomerações em espaços fechados.

Especialistas, porém, dizem que em momentos mais críticos da pandemia, com o descontrole da transmissão levando a uma alta de casos e mortes pelo vírus, tudo deveria fechar, já que locais abertos estimulam as pessoas a saírem de casa e circularem pela cidade.

No começo de abril, com o recrudescimento da pandemia no Brasil, a infectologista Raquel Stucchi, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) defendeu que não deveria haver nenhuma flexibilização das regras de distanciamento e isolamento naquele momento, em entrevista ao portal UOL. “Os números não permitem. Se for para escolher, o ideal seria priorizar locais abertos, mas, mesmo assim, não deveria”, disse.

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