Os recordes mundiais de casos de covid-19 na Índia

Depois de conter primeira onda com o maior lockdown do mundo, governo do país asiático vê contaminações dispararem, com aumento de mortes. Vacinação é lenta e há risco de colapso hospitalar

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A Índia bateu duas vezes seguidas, nesta quarta e quinta-feira, 21 e 22 de abril, o recorde mundial de novos casos de contaminação da covid-19, levando à falta de oxigênio e à sobrecarga das equipes médicas locais.

O país também registrou o maior salto no número de mortos num único dia: entre 21 e 22 de abril, foram 159 óbitos a mais. Em comparação, no Brasil, na mesma data, foram registradas 1.445 mortes a menos no mesmo intervalo de 24 horas.

O crescimento acelerado da segunda onda da doença trouxe consigo projeções sombrias para o segundo país mais populoso do mundo, onde são comuns as aglomerações em grandes centros urbanos e onde a estrutura da rede hospitalar é muitas vezes precária.

Na quarta-feira (21), foram 295.041 novos casos e 2.023 mortes. No dia seguinte, quinta-feira (22), foram 314.835 novos casos diagnosticados, com 2.104 mortes em 24 horas.

Na contagem feita até esta sexta-feira (23), a Índia supera o Brasil em números absolutos de novos casos, mas o Brasil está pior que a Índia no que diz respeito aos novos registros por grupos de 100 mil habitantes – critério que leva em conta a proporção dos casos em relação à população de cada país.

Como ocorreu no Brasil e em outros países assolados pela pandemia, na Índia também tornaram-se comuns as imagens em televisões locais e em redes sociais que mostram familiares desesperados em busca de leitos e de cilindros de oxigênio, com pacientes sendo atendidos dentro de ambulâncias e em corredores de postos de saúde.

Diretores de hospitais e autoridades locais de saúde fizeram apelos públicos ao governo do premiê Narendra Modi por mais insumos, especialmente oxigênio e ventiladores para pacientes em estado crítico.

Na quinta-feira (22), pior dia da pandemia no país até então, 22 pacientes morreram por causa de um acidente que provocou vazamento nos equipamentos que forneciam oxigênio para atendimento de casos da covid-19.

Consequências negativas

Após a quebra dos recordes de contaminação e morte, foram proibidos os desembarques aéreos de passageiros da Índia para uma lista de países que inclui Singapura, Nova Zelândia, Hong Kong e Reino Unido, e tende a aumentar. O primeiro-ministro suspendeu uma agenda de participações em comícios ligados às eleições locais, que ocorrem num quebra-cabeça de datas nos meses de março e abril.

No entanto, a despeito da alta dos casos, a Índia continuou a assistir a realização de comícios eleitorais que reuniram milhares de pessoas, sem máscaras, como na região de West Bengal, que até 23 de abril contava com mais de 688 mil mortos pela doença.

Além disso, o governo autorizou outros grandes eventos marcados por aglomeração pública, como peregrinações religiosas nas quais os fiéis não obedecem as regras de distanciamento social nem utilizam máscaras.

O comportamento de agora contrasta com o adotado em 2020, quando Modi decretou em março o maior confinamento populacional do mundo, para conter a primeira onda da pandemia.

Nesta segunda onda, o governo sinaliza com restrições mais brandas, enquanto as diferentes regiões do país adotam estratégias locais. No estado de Maharashtra, por exemplo, todo comércio não essencial foi fechado, enquanto em Uttar Pradesh foi decretado lockdown só no fim de semana.

O sofrimento de um país produtor de vacinas

Quando a Índia bateu os dois recordes seguidos – de novas mortes registradas num único dia e de contaminados – , a vacinação havia chegado a apenas 8,23% de sua população, que é de aproximadamente 1,4 bilhão de pessoas. Cerca de 135 milhões de pessoas receberam uma dose da vacina até 23 de abril de 2021 no país.

Esse índice é mais baixo que o do Brasil, por exemplo, onde, até a mesma data, 11,92% da população havia recebido pelo menos uma dose da vacina. Nos EUA, mais de 40% da população tinha sido vacinada até a mesma data. Em Israel, 62% e, no Reino Unido, 48,99%.

A Índia aplica a vacina de Oxford, do laboratório AstraZeneca, e a Covaxin, desenvolvida pelo laboratório nacional Bharat Biotech. Em abril, a russa Sputnik-V também recebeu autorização para ser usada no país e pelo menos outras quatro aguardam na fila. O governo local prometeu vacinar 250 milhões de pessoas até julho, mas a meta parece cada vez mais difícil de ser atingida.

A vacinação teve início no país no dia 16 de janeiro, restrita a profissionais de saúde. Aos poucos, os grupos foram ampliados. Em 1º de maio, o governo promete começar a vacinar os adultos com idade entre 18 e 45 anos, mas o gesto carece de lastro na realidade, pois as administrações regionais relatam falta de doses mesmo para inocular os idosos.

Impacto nas exportações

A Índia tem o maior laboratório de produção de vacinas do mundo, o Serum, de onde saíram, só em 2020, 1,6 bilhão de doses de diferentes imunizantes, para vários tipos de doenças.

Em janeiro de 2021, o Brasil recebeu as primeiras 2 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca, que tinham sido produzidas no Serum da Índia. Em março, a entrega de novas doses para o Brasil foi atrasada por causa da decisão do governo indiano de acelerar a imunização de sua própria população.

Não está claro qual o impacto que a segunda onda da pandemia pode ter na entrega de imunizantes produzidos pela Índia. Em todo caso, a dependência brasileira do Serum já não é a mesma do início do ano. Nos últimos meses, a Fiocruz passou a produzir a vacina de Oxford com insumos recebidos da China.

Por outro lado, o Ministério da Saúde do Brasil fechou um contrato de compra de 20 milhões de doses da Covaxin. A expectativa era de que as primeiras entregas tivessem início ainda em abril, mas a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) negou no fim de março os pedidos de importação emergencial, alegando descumprimento de normas pelo laboratório indiano Bharat Biotech.

Na Índia, a imprensa local noticia que o governo instruiu suas embaixadas e consulados pelo mundo a pressionarem países como EUA, Reino Unido e Canadá a liberarem insumos para a aceleração da fabricação de novas doses de vacinas.

“Os países grandes e desenvolvidos do mundo estão engajados em uma diplomacia totalmente negativa em relação à vacina. EUA, Canadá, Reino Unido e outros países europeus não estão apenas empenhados em acumular vacinas para si, mas também estão impedindo o fornecimento de matéria-prima necessária para produzi-las”, diz, por exemplo, o diário Jagran, de Nova Déli, um dos mais influentes no país.

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