O que uma escritora nonagenária pensa sobre o Twitter

Aos 90 anos, autora mexicana Margo Glantz utiliza a rede social, entre outras formas, como exercício literário

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    Margo Glantz é considerada uma das mais importantes autoras de língua espanhola, conhecida por lidar com temas como corpo feminimo, erotismo, sensualidade, migração e memória. Usuária do Twitter, ela trata da rede social em seu livro “E por olhar tudo, nada via”, lançado no Brasil em abril de 2021.

    Glantz nasceu na Cidade do México em janeiro de 1930. Além de escritora, é jornalista, crítica literária e uma das principais referências sobre feminismo na América Latina. Percorreu extensa trajetória acadêmica, sendo laureada como integrante da Academia Mexicana da Língua (equivalente à Academia Brasileira de Letras) em 1995. Glantz falou com o Nexo por e-mail sobre o uso do Twitter. Veja abaixo cinco considerações da escritora:

    O uso político do Twitter

    Para Glantz, o uso das redes sociais para manipulação política é prejudicial à sociedade.

    “A utilização massiva do Twitter e do Facebook,além de outras redes digitais, explica em grande parte a avassaladora presença de regimes populistas e ditatoriais que tem se consolidado de maneira democrática, ou seja, sem golpes de estado, mas através do voto”

    Margo Glantz

    escritora mexicana

    O filtro da realidade

    As redes sociais têm se tornado um tipo inédito de ditadura intangível, que altera as percepções da realidade, segundo a escritora.

    “Estou lendo um livro extraordinário, chamado 'Ceci tuera cela', de Annie Le Brun e Juri Amanda, recém-publicado na França, que analisa o sigiloso e terrível impacto que a comunicação tecnológica tem exercido para se tornar uma ditadura inédita e perniciosa, que mais do que qualquer uma das ditaduras ‘tradicionais’, atua de maneira intangível, determina nossa maneira de ver, e transforma definitivamente nossa percepção da realidade”

    Margo Glantz

    escritora mexicana

    A perda do senso crítico

    Segundo ela, quando as informações são expostas aos montes, sem hierarquização, tal como ocorre no Twitter e em outras redes sociais, as pessoas tornam-se incapazes de classificar quais são mais importantes que as outras.

    “Qualquer notícia, até a mais banal, ocupa o mesmo nível que as verdadeiramente importantes. Isso, junto a aceleração e abundância de informações, nos obscurece, cancela nosso senso crítico à medida em que se perde a capacidade de refletir”

    Margo Glantz

    escritora mexicana

    Exercício literário

    A autora destaca pontos positivos e negativos no Twitter. Ao mesmo tempo em que é capaz de tornar um usuário narcisista, pode torná-lo escritor e fazer com que se sinta compreendido por meio dos likes.

    “[O Twitter] permite ‘publicitar-se’, de maneira descarada e lícita, ainda que nem tudo seja verdadeiro; compartilhar como se as publicações fossem aforismos, textos dos nossos escritores favoritos; permite, às vezes, que o 'tuiteiro' se torne um poeta japonês ao ser possível publicar pequenos textos no estilo haicai [forma japonesa de poemas curtos]”

    Margo Glantz

    escritora mexicana e usuária do Twitter

    Autobiografia pulverizada

    Apesar das críticas negativas sobre a rede, Glantz diz encontrar no Twitter uma maneira privilegiada de trabalhar, perseguindo seus objetivos literários e cultivando aforismos.

    “Tem me servido como forma de criar uma espécie de autobiografia pulverizada, tanto em relação à minha experiência de vida quanto à literária. Estou interessada nas formas emergentes de escrita, sinto que a construção inicial do tweet, de 140 caracteres [atualmente com limite de 280], pode alimentar a criatividade”

    Margo Glantz

    escritora mexicana

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