Covid e gestantes: a inclusão na vacinação após alta de mortes

Média mensal de mortes por covid-19 entre grávidas mais do que dobrou no começo de 2021. Cidades começaram a imunizar gestantes com outras doenças pré-existentes

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O recrudescimento da pandemia do novo coronavírus no Brasil fez a média semanal de mortes de grávidas e puérperas por covid-19 mais do que dobrar nos primeiros meses de 2021 em comparação com o ano anterior — o número pulou de 10,5 óbitos por semana para 25,8. A gravidade da situação levou o Ministério da Saúde a recomendar em março, em nota técnica, a vacinação de grávidas mesmo com a falta de estudos sobre os efeitos adversos dos imunizantes nesse público.

Em 16 de abril, o secretário de Atenção Básica do Ministério da Saúde, Raphael Parente, chegou a pedir para que as mulheres adiassem a gravidez para “um momento melhor”.

“A gente sabe que, na época do zika, durante um, dois anos, você teve uma diminuição das gravidezes no Brasil e depois aumentou. É normal. É óbvio que a gente não pode falar isso para alguém que tem 42, 43 anos. Mas, para uma mulher jovem, que pode escolher um pouco ali o seu momento de gravidez, o mais indicado agora é você esperar um pouquinho até a situação ficar um pouco mais calma”, afirmou.

A gravidez é um fator que pode agravar o quadro de covid-19. Uma pesquisa do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos, com 23.434 grávidas de um universo de 400 mil mulheres infectadas com coronavírus, mostrou que as gestantes tem 62% a mais de chance de serem internadas em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) do que outras mulheres da mesma faixa etária.

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vezes maior é o risco de uma gestante com covid-19 precisar de ventilação mecânica em comparação com uma mulher da mesma idade que não está grávida, segundo o CDC

No Brasil, que responde por três em cada quatro mortes de grávidas no mundo por covid-19, a recomendação do Ministério da Saúde é que todas as gestantes e puérperas (mulheres em período pós-parto) sejam vacinadas com prioridade, independentemente da idade.

A orientação, no caso da puérpera, é não interromper o aleitamento materno, na condição de lactante. Para as demais gestantes, a vacinação pode ocorrer independentemente do tempo de gestação.

O Ministério divulgou uma nota, no início de março de 2021, recomendando que as gestantes com alguma comorbidade pré-existente fossem incluídas no grupo prioritário da vacinação. As sem comorbidade, segundo a nota, estariam liberadas desde que fizessem uma avaliação dos riscos e benefícios com um médico, além de seguir o cronograma de vacinação dos municípios.

Com a recomendação de incluir todas as grávidas e puérperas, divulgada segunda-feira (26), se mantém a recomendação de que as gestantes com alguma comorbidade devem receber o imunizante primeiro. São elas:

  • Diabetes
  • Hipertensão arterial crônica
  • Obesidade
  • Doença cardiovascular
  • Doenças renais crônicas
  • Doenças autoimunes
  • Asma brônquica
  • Imunossuprimidas
  • Transplantadas

A gestante deverá apresentar documentos que comprovem a comorbidade, como exames, receitas, relatório médico, prescrição médica ou cadastros dentro das Unidades de Saúde.

A vacinação de grávidas no Brasil

Os calendários de vacinação contra a covid-19 estão sendo definidos pelos estados e municípios de acordo com a realidade local. Os grupos prioritários são profissionais de saúde, idosos, indígenas, quilombolas e profissionais das forças de segurança e professores, dependendo da região.

No caso das grávidas, cidades como o Rio de Janeiro e Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, já estão vacinando gestantes que tenham comorbidades pré-existentes. Não existem contraindicações.

Em São Paulo, um anúncio do secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, causou confusão. Em 17 de abril, ele afirmou que todas as gestantes com um relatório médico poderiam procurar postos de saúde. Gestantes que tentaram se vacinar nos dias seguintes, porém, foram barradas, e a polícia precisou ser chamada em uma unidade de saúde. Três dias depois, o secretário voltou atrás, dizendo que as gestantes poderiam ser imunizadas apenas se pertencessem aos grupos prioritários já convocados como profissionais de saúde, professores ou agentes de segurança.

“A vacinação para as grávidas que estejam elencadas nos grupos prioritários, justamente o grupo [de profissionais] da saúde, da educação e também na segurança pública são pessoas que estão autorizadas. Sejam elas grávidas ou puérperas, ou seja, que tenham dado à luz nos últimos 60 dias. Na verdade, essas pessoas estarão elegíveis neste momento”, afirmou o secretário.

Quais os riscos para as gestantes

Nenhum dos ensaios clínicos que avaliaram a segurança e a eficácia das vacinas contra a covid-19 que estão atualmente em uso no mundo incluíram gestantes e puérperas entre os voluntários. Por isso, não se sabe quais os possíveis efeitos adversos nesses grupos.

Muitas mulheres, porém, foram vacinadas sem saber que estavam grávidas e vêm sendo monitoradas por especialistas. Até meados de abril, não havia registro de efeitos adversos graves. Nos Estados Unidos, por exemplo, 86 mil grávidas vacinadas com o imunizante da Pfizer ou da Moderna estão sob acompanhamento do CDC.

Os eventos adversos observados entre as gestantes são os mesmos do resto da população. Mesmo assim, sociedades médicas internacionais defendem a inclusão de gestantes e lactantes em novos estudos para avaliar a eficácia e a segurança das vacinas especificamente para esses grupos.

No Brasil, o alto número de mortes de gestantes por covid-19 está associado à falta de assistência materna adequada. Segundo dados do Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19, uma iniciativa conduzida por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), uma em cada cinco gestantes e puérperas mortas por covid desde o início da pandemia não teve acesso à UTI. Um terço das vítimas não foram sequer intubadas.

“Quando olhamos a situação da gestante e da puérpera, já temos uma rede de saúde que não é muito organizada para atenção a casos graves para este público, tanto que [o Brasil] tem uma razão de morte materna de 55 [mortes por 100 mil nascidos vivos; o recomendado é abaixo de 20], deixando claro que realmente temos uma dificuldade na atenção para a saúde da mulher, especialmente gestante e puérpera”, disse a médica Rossana Francisco, que é professora da USP e uma das criadoras do observatório, à Agência Brasil, em 19 de abril.

145,4%

foi o aumento na média semanal de mortes de grávidas por covid-19 em 2021 em comparação com a média de 202; na população geral, o aumento foi de 61,6%

A vacinação pelo mundo

A imunização de gestantes contra a covid-19 não é consenso no mundo. Um levantamento do Ministério da Saúde mostrou que, de 27 países com dados disponíveis sobre o tema, 12 recomendam a vacinação para mulheres grávidas dos grupos prioritários, orientação adotada no Brasil. Em nove países, porém, a recomendação é que nenhuma gestante seja vacinada até que estudos apontem a segurança do imunizante para o grupo.

Nos Estados Unidos, o CDC ressalta que ser vacinado é uma decisão pessoal e que qualquer vacina de uso autorizado contra a covid-19 deve ser oferecida às grávidas. O órgão aconselha que as mulheres conversem com seus médicos para avaliar pontos como o grau de exposição à que a gestante está submetida ao risco de infecção e os potenciais riscos da doença para a mãe e para o bebê.

No Reino Unido, a vacinação de grávidas foi liberada em abril, com base nos dados do CDC americano. No Canadá, o comitê de especialistas que orienta as ações de imunização no país considera que nenhuma vacina deve ser oferecida a grupos excluídos dos ensaios clínicos, a não ser que os benefícios superem os eventuais riscos, o que é o caso das vacinas contra a covid-19.

No Brasil, a comissão de vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia recomendou a vacinação de gestantes e lactantes do grupo de risco após “avaliação dos riscos e benefícios em decisão compartilhada entre a mulher e o médico prescritor”. Segundo a entidade, as vacinas em uso no Brasil usam plataformas de vírus “mortos” (Coronavac) e vetores virais (vacina de Oxford) não replicantes.

“As evidências científicas apontam que vacinas que utilizam essas plataformas para prevenção de outras doenças virais em gestantes e puérperas seriam suficientes para recomendar as vacinas da covid-19”, diz a entidade.

Um grupo de médicos tem defendido que as vacinas adquiridas pelo governo federal com a Pfizer devam ser reservadas para grávidas quando forem entregues, já que os dados de estudos observacionais nos Estados Unidos, onde o imunizante é amplamente utilizado, mostram que o produto é seguro para esse grupo.

“A vantagem da Pfizer é que tem um grupo maior sendo acompanhado, simplesmente pelo número de gestantes já vacinadas. Caberia ao Programa Nacional de Imunizações direcionar essa quantidade pequena de vacinas para as gestantes, assim que puder”, defendeu ao jornal O Globo, na quarta-feira (21), o pediatra e infectologista Filipe da Veiga.

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