Quais os riscos da reabertura com a segunda onda ainda forte

Pesquisadores apontam que ‘ziguezague’ de medidas restritivas impede que a transmissão do vírus seja interrompida 

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O governo de São Paulo deu início no domingo (18) a uma “fase de transição” para o que chamou de “retorno seguro e gradativo das atividades presenciais”. A fase permite, por exemplo, o funcionamento de shoppings e lojas de rua com horários reduzidos, além da realização de cultos religiosos, mesmo com um patamar ainda elevado de novos casos de infecção pelo novo coronavírus e de mortes pela doença. A partir de 24 de abril, numa etapa posterior, bares, restaurantes, salões de beleza e academias também poderão voltar a funcionar.

O governador de São Paulo, João Doria, vinha sendo cobrado pelos shoppings a reabrir desde o início de abril. O secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, afirmou na sexta-feira (16), durante o anúncio da medida, que a queda de 10% no número de internações por covid-19 em comparação com a semana anterior justificava a flexibilização das restrições. A reabertura das atividades no estado, porém, não segue os critérios preconizados pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

A entidade internacional recomenda que o afrouxamento das medidas aconteça quando a pandemia estiver controlada por ao menos duas semanas. O ideal é que ele ocorra após uma queda de ao menos 50% na transmissão do vírus ao longo de três semanas a partir do último pico da doença e com uma queda contínua na incidência de casos.

Segundo pesquisadores da Rede de Pesquisa Solidária, que reúne cientistas de várias instituições, o governo de São Paulo tem mantido uma estratégia de “ziguezague” entre abertura e fechamento que “não interrompe a expansão do vírus e mantém o estado de São Paulo como o epicentro da pandemia no país”. Em nota técnica de 16 de abril, eles defendem a adoção de políticas mais rígidas para enfrentar a covid-19.

A falta de consistência nas medidas

O estudo coordenado pelas pesquisadoras Lorena Barberia (USP), Tatiane Moraes (Fiocruz), Brigina Kemp (Cosems/SP), Vera Paiva (USP) e Maria Amélia de Sousa Mascena Veras (Santa Casa) aponta que as medidas adotadas em março de 2021 em São Paulo, na pior fase da pandemia, foram menos rígidas e menos consistentes do que as adotadas em março e no início abril de 2020.

Para chegar a essa conclusão, o estudo considerou um índice elaborado com base numa metodologia criada por um grupo da Universidade de Oxford para medir a eficácia das medidas anunciadas pelo governo. O Índice de Rigidez das Políticas de Distanciamento Social vai de 0 (nenhuma rigidez) a 100 (rigidez máxima).

As pesquisadoras avaliaram, por exemplo, o fechamento de escolas, comércios e indústrias, ordens de permanência da população em casa, proibições de aglomerações em eventos públicos e privados e uso de máscaras em espaços públicos. No índice geral, a maior nota alcançada pelo estado foi de 61, obtida em julho de 2020. Com as flexibilizações, o índice caiu para 18 em dezembro e voltou a subir para 56 em março, com as novas medidas anunciadas pelo governo.

Segundo o estudo, as políticas de distanciamento social adotadas não foram implementadas de maneira consistente. A pesquisa lembra que o Plano São Paulo já foi atualizado 24 vezes desde que foi criado. Essas atualizações mudaram, por exemplo, os critérios de classificação das fases e os setores econômicos considerados essenciais.

Na fase amarela (intermediária), por exemplo, foram permitidas ao longo do tempo o funcionamento de setores como cabeleireiros, barbearias e academias. Um decreto do governador também permitiu a realização de cultos religiosos na fase vermelha, uma das mais rígidas.

Para as pesquisadoras, a rapidez com que as flexibilizações são implementadas (às vezes, em poucos dias) e depois revogadas representa “um potencial obstáculo à implementação eficaz das políticas e compromete a comunicação sobre o que é de fato relevante para combater a pandemia”.

“A insistência em manter um plano de contenção com medidas mais flexíveis, juntamente com a falta de um programa consistente de testagem de casos ativos, rastreamento de contatos e apoio para o isolamento de pessoas com testes confirmados e suspeitos no atual momento, contribui para que São Paulo continue sendo o epicentro da pandemia no país”

Rede de Pesquisa Solidária

em nota técnica de 16 de abril

Ao jornal Folha de S.Paulo, ao comentar o estudo, a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo disse que a pandemia é dinâmica e que, por isso, o plano de gestão não poderia ser “engessado”. O órgão disse ainda que prioriza a testagem de pessoas com sintomas seguindo recomendação do Ministério da Saúde.

Ziguezague em todo o país

Embora o estudo tenha avaliado apenas as medidas adotadas no estado de São Paulo e na capital paulista, Lorena Barberia, professora de ciência política da USP, pesquisadora da FGV (Fundação Getulio Vargas) e uma das coordenadores da pesquisa, diz que a política de abre e fecha como a de São Paulo é comum a outros estados.

“É um problema generalizado. No caso de São Paulo, a prefeitura segue o governo estadual. Em outros casos, como no Amazonas, é uma situação ainda mais preocupante, porque muitas vezes a gente vê que, por causa do conflito entre o partido do governador e do prefeito da capital, as respostas são opostas. Se o estado procura fazer algo mais rígido, a capital responde flexibilizando ainda mais”, disse ao Nexo.

Além do problema do ziguezague, as medidas adotadas são, segundo as pesquisadoras, muito permissivas em relação às recomendações da OMS. Em São Paulo, por exemplo, em nenhum momento houve o fechamento de indústrias ou a promoção de “medidas de isolamento domiciliar constantes e rígidas” que buscassem restringir a realização de encontros privados — que contribuem para a disseminação do vírus.

No Rio de Janeiro, por exemplo, embora as praias estejam fechadas e exista um toque de recolher das 23h às 5h para tentar restringir a circulação e a aglomeração de pessoas, bares, restaurantes, quiosques da orla, academias, clubes, cinemas e teatros podem funcionar até as 21h.

A flexibilização vem sendo adotada em outras regiões. Na segunda-feira (19), o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), disse que academias, bares, restaurantes, praças, parques e shoppings vão poder voltar a funcionar na quinta-feira (22).

“O que a reabertura vai provocar, nós não sabemos, mas, pelo que tudo indica, pelos jovens que estão sendo atingidos, pela ameaça aos filhos, amigos, de 29, 28, 27 e 23 anos, não vamos brincar com essa pandemia”

Alexandre Kalil

prefeito de Belo Horizonte, ao anunciar a flexibilização das medidas, na segunda-feira (19)

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), já havia liberado, no sábado (17), todas as atividades em 70% do estado, desde que sigam regras específicas. Eventos com até 30 pessoas, por exemplo, já podem ocorrer em algumas regiões.

A situação da pandemia

As reaberturas têm ocorrido com os números de casos e mortes no Brasil ainda em patamares muito elevados. Até o início de abril, o país apresentava um nível acelerado, com rápido aumento de novas contaminações. Os indicadores pararam de crescer, mas houve uma estabilização, como se tivesse estacionado em níveis elevados.

A estabilização da pandemia

Número de mortes diárias no Brasil por covid-19

Durante a primeira onda de covid-19, o Brasil também registrou uma estabilização de casos e mortes num patamar alto, formando um platô. Houve uma redução lenta nos indicadores, mas, com as flexibilizações, as curvas voltaram a crescer ainda no final de 2020.

Ao jornal Folha de S.Paulo, o pesquisador em saúde pública da Fiocruz e coordenador do InfoGripe, Marcelo Gomes, lembrou que o sistema hospitalar brasileiro continua sobrecarregado e teria dificuldades caso a curva atual de casos voltasse a subir.

“Precisamos fazer alguma coisa para diminuir a transmissão, mas enquanto isso não for suficiente para desafogar o sistema, não dá para pensar em diminuir restrição”, disse.

Lorena Barberia, da Rede de Pesquisa Solidária, alerta para o risco de novas variantes mais contagiosas do vírus surgirem com o descontrole na circulação do vírus. “Isso de continuar num nível muito elevado de óbitos e casos persistentemente ao longo de vários meses é uma ameaça para o Brasil porque a gente daqui transmite para outros lugares. Temos uma circulação muito grande de pessoas, entre São Paulo e o resto do Brasil”, afirmou ao Nexo.

Para a pesquisadora, como a velocidade da vacinação no país está muito aquém do que deveria ser, há ainda o risco de afetar a campanha de imunização em curso devido às chances de surgirem novas variantes que consigam escapar da proteção adquirida com a vacina.

12,36%

da população brasileira recebeu ao menos uma dose da vacina contra a covid-19, segundo o consórcio de veículos da imprensa; apenas 4,53% tomaram as duas doses

Colaborou Caroline Souza

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