As mortes associadas à nebulização de cloroquina

Defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, procedimento experimental foi relacionado a óbitos de pacientes no Amazonas e Rio Grande do Sul

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Ao menos oito pessoas morreram no Brasil em 2021 depois de serem tratadas para a covid-19 com nebulização de comprimidos de cloroquina ou hidroxicloroquina. Foram quatro casos no Rio Grande do Sul e cinco no Amazonas, todos de pessoas submetidas a procedimentos clandestinos.

A aplicação, que é experimental e não tem comprovação científica, foi recomendada seguidas vezes pelo presidente Jair Bolsonaro. “Os relatos são que em poucas horas, uma pessoa que receba nebulização de hidroxicloroquina se sentiria aliviada e partiria para a cura”, declarou o mandatário em uma live em 11 de fevereiro.

O procedimento consiste na dissolução dos comprimidos em soro fisiológico, que depois é vaporizado para ser inalado pelo paciente. Tanto a cloroquina como seu derivado, a hidroxicloroquina, não são reconhecidos como tratamento válido para a covid-19 sob nenhuma forma pelas principais autoridades mundiais de saúde.

A cloroquina é uma obsessão de Bolsonaro. Mesmo sem funcionar contra a covid, o medicamento vem sendo recomendado por médicos em diversas regiões do Brasil. Descartada pelos países que seguem recomendação científica, seu uso pelos brasileiros já virou até piada internacional. O problema é que a situação está mais próxima da tragédia do que da comédia.

O que os médicos dizem da nebulização

Em nota, a Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia afirmou que a prática de nebulização desses medicamentos “é certamente danosa ao já combalido sistema respiratório do paciente”. Para a associação, o procedimento pode “causar consequências a longo prazo como insuficiência respiratória crônica”.

“Além da medicação, tem um talco que é o veículo do comprimido. Inalar pode causar efeitos adversos, inflamar ainda mais o pulmão, causar sangramento, maior inflamação dos bronquíolos, broncoespasmo, e piorar o quadro do paciente”, disse ao jornal Diário do Nordeste o pneumologista Ricardo Coelho Reis, presidente da Sociedade Cearense de Pneumologia e Tisiologia.

“Não existe nenhuma publicação científica no mundo a respeito dessa forma de utilização”, afirmou ao Nexo o infectologista pediátrico Marcelo Otsuka, da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia). O especialista lembra que a cloroquina e a hidroxicloroquina já foram avaliadas por estudos, mas sempre quanto à administração por via oral. O representante da SBI ressaltou que nunca se conseguiu comprovar a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no combate à covid-19, seja qual for a via de ingestão.

Segundo o especialista da SBI, a nebulização de cloroquina vai além de uma simples utilização “off label”, termo que designa a aplicação de um medicamento para um fim que não seja os previstos na bula. Otsuka afirmou que o uso “off label”, geralmente, consiste em dar um medicamento de comprovação confirmada, concebido para um grupo específico, em um grupo diferente. “É muito diferente de uma medicação que é como se fosse totalmente nova, pois não temos nenhum estudo, nenhum dado concreto sobre sua utilização”, declarou o infectologista ao Nexo.

O CFM (Conselho Federal de Medicina) não se pronunciou sobre a aplicação inalatória dos medicamentos, mas em abril de 2020 a entidade autorizou médicos a prescreverem o remédio em determinadas situações. Por outro lado, a AMB (Associação Médica Brasileira) condenou em março de 2021 o uso de remédios sem eficácia contra a Covid-19.

De onde veio a ideia de nebulização

A nebulização da cloroquina ou da hidroxicloroquina foi primeiramente proposta pelo médico ucraniano Vladimir Zelenko, radicado nos Estados Unidos. Em janeiro de 2021, o médico descreveu o procedimento em um relatório, mas sem explicar como obteve os dados. Citado por defensores da nebulização, o documento não configura um estudo clínico, pois não seguiu as etapas necessárias para ser caracterizado como tal nem foi revisado por outros especialistas.

Zelenko se tornou conhecido no começo da pandemia por ser um dos primeiros defensores da cloroquina como tratamento contra covid-19. Ganhou a atenção do presidente Donald Trump na época. No entanto, ao declarar falsamente que seu estudo havia sido aprovado pela FDA (equivalente americano da Anvisa), passou a ser investigado pela promotoria federal.

“Quando falamos de qualquer tratamento temos que pensar que o medicamento, o produto, a vacina, passa por várias etapas. São etapas em que são testadas em laboratório, em animais de experimentação, em voluntários. A gente avalia os efeitos da medicação e os eventos adversos. É importante entender que essa análise foi específica para aquela forma de administração que foi estudada. No caso da cloroquina e da hidroxicloroquina, elas sempre foram avaliadas para via oral. Em nenhum momento foi feita a avaliação para a via inalatória”, explicou Otsuka, ao Nexo.

As mortes após nebulização no Brasil

No Rio Grande do Sul, o primeiro caso de óbito de paciente de covid-19 que foi nebulizado com cloroquina aconteceu em 22 de março de 2021. Um homem de 69 anos veio a óbito na cidade de Alecrim (RS) depois de realizar quatro sessões de inalação dos comprimidos. A família diz que não autorizou o tratamento. A polícia investiga o caso.

Dois dias depois, um hospital de Camaquã (RS) divulgou que três pacientes de covid-19 em estado grave morreram depois de passar pelo procedimento. Embora não tenha sido possível ligar as mortes ao tratamento, segundo o hospital, todos os pacientes tiveram arritmias ou taquicardia depois da inalação. A responsável pela aplicação foi a médica Eliane Scherer, demitida do hospital por ter realizado os procedimentos sem autorização. O caso foi denunciado ao Ministério Público e ao Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul.

A médica se tornou conhecida nacionalmente ao contar com a defesa do presidente Jair Bolsonaro. Falando ao vivo em uma rádio de Camaquã, em 19 de março, o presidente elogiou Scherer e criticou o hospital por ter desligado a profissional. Segundo ele, “praticamente é criminoso” quem defende o uso “off label” de medicamentos.

Em sua fala à rádio gaúcha, Bolsonaro disse que a nebulização de cloroquina “é uma novidade que parece que nasceu em Manaus”. O presidente se referia ao uso do procedimento por outra médica, a ginecologista e obstetra paulista Michelle Chechter. Em fevereiro, a profissional nebulizou diversos pacientes no Instituto da Mulher Dona Lindu, na capital amazonense. Depois do tratamento, cinco deles morreram, incluindo um bebê prematuro e a mãe de um recém-nascido.

O caso da mãe foi reportado pelo jornal Folha de S. Paulo em 14 de abril. Com 33 anos, Jucicleia de Sousa Lira estava internada em estado grave na UTI da instituição com covid-19 e depois de fazer um parto emergencial. Depois da nebulização, seu estado de saúde se deteriorou. Em 2 de março, a mulher morreu. Segundo o hospital, a causa foi infecção generalizada causada pela covid-19.

A especialista divulgou nas redes sociais a aplicação do tratamento em Jucicleia. O post viralizou, especialmente depois de ser compartilhado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni (DEM). Publicada no Twitter em 20 de março, 18 dias depois da morte de Jucicleia, a postagem de Lorenzoni tinha ultrapassado as 130 mil visualizações em 11 de abril. Três dias depois, foi deletada pelo Twitter por violação de regras da rede social.

No perfil do Instagram da médica, se lê a descrição “FrontLine Covid-19 OffLabel”. O marido de Jucicleia declarou que não foi consultado sobre o tratamento nem sobre a postagem. A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas declarou que foi aberta uma sindicância para apurar o caso. A médica foi afastada da instituição em que realizou os procedimentos.

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