O fenômeno do travel shaming. E o turismo na pandemia

Novas regras e restrições rigorosas marcam principalmente condições de deslocamento de viajantes que passaram pelo Brasil, que hoje só podem entrar facilmente em oito países

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Diversos neologismos surgiram na pandemia de covid-19. Além da popularização de termos técnicos e científicos, foram cunhadas diversas expressões estrangeiras para descrever os “sintomas” dos tempos atuais, como covid-19 burnout (esgotamento associado ao ritmo de trabalho no home office), quarantine fatigue (cansaço provocado pelo isolamento social) e Zoom fatigue (símbolo do uso excessivo de serviços digitais para videoconferência).

A elas se soma o travel shaming, que se refere ao ato de expor e criticar publicamente quem está viajando atualmente, diante das restrições de mobilidade recomendadas internacionalmente para conter a disseminação do novo coronavírus. No Brasil, o fenômeno lembra a ideia de “fiscal da quarentena”, termo usado para designar quem repreende aqueles que decidiram afrouxar ações de isolamento social, seja para visitar alguém na própria cidade, seja para viajar para o outro lado do mundo.

Segundo reportagens recentes, o travel shaming tem sido registrado principalmente nas mídias sociais, com comentários críticos e questionamentos sobre a necessidade de viajar neste momento. “Perguntaram se não era irresponsável e egoísta viajar em plena pandemia. Estou fazendo algo de errado?, eu me perguntei”, relatou a americana Sarah Archer, que se identifica como “nômade digital”, à CNN.

Além de influenciadores digitais do segmento de viagens, o travel shaming pode prejudicar a imagem de destinos turísticos e agravar o impacto negativo para o setor, que envolve agências, hotéis e restaurantes, entre outros. “Quando alguém publica uma foto em um hotel em situações de risco de contágio, por exemplo, seus seguidores podem entender que o estabelecimento não tem adotado protocolos de segurança adequados”, avaliou Alan Guizi, professor da Universidade Anhembi Morumbi, ao jornal Folha de S.Paulo.

O impacto da pandemia para influenciadores

Desde o início da pandemia, com o fechamento de fronteiras e imposição de restrições e regras novas para viagens em diversos países, muitos influenciadores digitais perderam contratos e fontes de renda. Alguns se adaptaram, migrando para outros nichos culturais além do turismo (como culinária, por exemplo) ou promovendo tours online.

“Não me sinto à vontade viajando e postando como se nada estivesse acontecendo quando a recomendação é ficar em casa. Não posso dizer nada que incentive viagens neste momento”, declarou o blogueiro paulistano Caio Ramon ao portal Uol, em 23 de março de 2020.

Em junho de 2020, quando o Brasil contava cerca de 50 mil mortos por covid-19, um movimento intitulado “Supera Turismo” organizou um tour de duas influenciadoras com a companhia aérea Gol para Foz do Iguaçu, no Paraná, para fomentar viagens dentro do país. Alvo de diversas críticas, a campanha foi suspensa. “O turismo é um vetor estratégico de sustentabilidade. Mas não é momento de convidarmos ninguém a viajar. Erramos”, dizia a nota do projeto.

Mais de um ano após o início da pandemia, porém, muitos influenciadores continuaram viajando apesar da crise, para destinos como Dubai, Maldivas e México, reportou a agência alemã DW, em março de 2021. Na ilha de Bali, na Indonésia, influenciadores convidados pelas autoridades turísticas do país acabaram deportados – um deles foi o russo Sergei Kosenko, que tem quase 5 milhões de seguidores no Instagram, que participou de uma festa com mais de 50 convidados, violando diretrizes de combate à covid-19.

No último domingo (11) foi interditado um hotel na Serra do Cipó, cidade turística de Minas Gerais, por descumprir decreto do estado e hospedar influenciadores digitais. Segundo a secretaria de turismo da cidade, moradores denunciaram a situação depois de ver publicações dos influenciadores nas redes sociais.

O impacto da pandemia na indústria

O turismo foi um dos setores mais afetados economicamente na pandemia, diz a agência das Nações Unidas OMT (Organização Mundial do Turismo).

Entre janeiro e outubro de 2020, o setor registrou uma queda de 900 milhões no fluxo de viajantes internacionais ante o mesmo período de 2019. Ao todo, o prejuízo estimado é de US$ 1,1 trilhão, indica o levantamento, divulgado no fim de 2020. Estima-se que o setor só deve se recuperar a partir de 2023.

A Ásia-Pacífico, primeira região a lidar com o vírus e o impacto da crise, tem o maior número de restrições de viagens até hoje. Em 2020, as chegadas internacionais caíram 82% ali. No Oriente Médio, a queda foi de 73%; na África, 69%; na Europa e nas Américas, 68%.

No Brasil, o setor registrou prejuízo de R$ 261 bilhões, segundo dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). De acordo com a Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo), que reúne operadoras de viagens, a perda de empregos está na casa de 1 milhão de vagas, entre trabalhadores diretos e indiretos do segmento.

Em 2020, a OMT publicou um conjunto de diretrizes para orientar o setor no recomeço de suas atividades. Em 2021, com as campanhas de imunização avançando em ritmos diferentes ao redor do mundo, países estão paulatinamente avaliando a abertura de fronteiras e a retomada do turismo, com restrições, regras e documentos exigidos.

Na Ásia, o Japão apostou em uma campanha para incentivar o turismo doméstico, “Go To Travel”. Entre julho e outubro de 2020, cerca de 40 milhões de residentes viajaram utilizando benefícios do programa. Entretanto, a iniciativa foi encerrada após a disparada de casos no arquipélago, no fim de novembro de 2020.

Na Oceania serão liberadas viagens entre Austrália e Nova Zelândia a partir de 19 de abril. A ideia é iniciar uma “bolha” turística entre os dois países, considerados dois exemplos mundiais de enfretamento à covid-19, permitindo que seus habitantes transitem sem necessidade de se submeter a quarentena obrigatória.

Na Europa, os 31 países-membros do Espaço Schengen estudam adotar um atestado de imunidade contra a covid-19 até o início do verão no hemisfério norte – um tipo de “passaporte” para viagens entre os estados europeus.

A Grécia pretende suspender a quarentena para viajantes vacinados, anunciou o governo nesta quinta (15). Israel, que já vacinou mais de 70% de sua população, pretende liberar a entrada de turistas a partir de 23 de maio. Malta quer atrair 35 mil visitantes vacinados a partir de 1o de junho e, para tanto, divulgou uma campanha na qual pagará de € 50 a € 100 para quem realizar reservas em hotéis de 3 a 5 estrelas no arquipélago no Mediterrâneo.

Uma agência holandesa está organizando uma ação experimental para levar 187 viajantes a um tour de oito dias à ilha grega de Rodes neste mês, com todas as despesas pagas, e averiguar entender se e como o turismo é viável durante a pandemia de covid-19. A iniciativa teve 25 mil inscrições.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a manutenção de medidas como distanciamento social e uso de máscaras continua sendo importante mesmo após o início das campanhas de imunização ao redor do mundo. “Estar vacinado não deve isentar os viajantes internacionais de cumprirem outras medidas para reduzir o risco das viagens", destacou a organização.

A situação para turistas embarcando no Brasil

Restrições oficiais (como quarentenas e suspensão de voos) e não-oficiais (travel shaming, entre elas) vem marcando o turismo no mundo inteiro. Talvez o travel shaming não faça sentido para países que já controlaram casos (como Austrália e Nova Zelândia), mas será que é hora de viajar para quem vive em países que enfrentam novas ondas e/ou estão longe de frear a escalada de infecções?

Para viajantes que passam pelo Brasil, embarcando ou desembarcando, há especificidades que retratam como o país se tornou um caso único na pandemia.

Além de testes negativos para covid-19 feitos 72 horas antes do embarque, muitas nações impõem quarentena obrigatória de 14 dias a viajantes – o isolamento é rigoroso e obrigatório para brasileiros que desembarcarem no Chile, Nova Zelândia, Reino Unido e Taiwan, por exemplo.

Brasil e África do Sul lideram a lista de países com restrições de viagens aéreas, destacou a Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo) no fim de março.

Atual epicentro da pandemia e celeiro de novas variantes do vírus, com 13,7 milhões de casos confirmados e mais de 365 mil mortes por covid-19, o Brasil vem sendo tratado como uma “ameaça global”.

Neste contexto, cada vez mais países estão impondo mais restrições à entrada de brasileiros – o mais recente foi a França, que anunciou nesta terça (13) a decisão de suspender todos os voos entre os dois países por tempo indeterminado. O primeiro-ministro francês Jean Castex se referiu à situação do Brasil como “absolutamente dramática”.

Hoje, 217 países têm restrições à entrada de pessoas vindas do Brasil nos seus territórios, segundo levantamento do site de viagens Skyscanner. Entre eles, 114 países têm fortes restrições, incluindo destinos como Estados Unidos, Itália e Argentina.

Apenas oito países possuem restrições leves ou nenhuma restrição à entrada de brasileiros, destacou a agência BBC News Brasil: Afeganistão, Albânia, Costa Rica, Nauru, República Centro Africana e Tonga não exigem quarentena; Costa Rica pede seguro viagem com cobertura de custos para tratamento no caso de contaminação com o novo coronavírus; e México no momento não exige exames ou quarentena.

A ilha de Nauru, entretanto, só é acessível a brasileiros com teste negativo de covid-19 que tenham passado os últimos 14 dias na Austrália – o que, por sua vez, só é possível para brasileiros já residentes no arquipélago da Oceania.

A situação para turistas desembarcando no Brasil

Apenas a partir de 30 de dezembro de 2020, o Brasil passou a exigir exames com resultado negativo para covid-19 de viajantes vindos do exterior. Foi um dos últimos países do mundo a implementar esse tipo de regra nos aeroportos.

Diversos estrangeiros viajaram ao Brasil para festas de Réveillon em pontos turísticos como Trancoso, na Bahia, e Rio de Janeiro, segundo a agência BBC News Brasil. A reportagem cita entrevistas feitas sob condição de anonimato, pois as fontes temiam se tornar alvos de represálias – entre eles, alguns fecharam o perfil no Instagram para evitar críticas relacionadas às viagens e festas, inclusive em “beach clubs” autuados por não respeitar protocolos.

Festas clandestinas vem sendo registradas ininterruptamente em diversas cidades brasileiras. No Rio, onde serviços não-essenciais estavam fechados no feriado prolongado de 26 de março a 4 de abril, a Secretaria de Ordem Pública interrompeu e multou uma “pool party” com 300 pessoas. Em São Paulo foi feita uma força-tarefa junto à Vigilância Sanitária que, ao longo de março, fechou 716 festas.

Muitos brasileiros priorizaram a vontade de festejar, frequentar praias ou viajar, mesmo diante de decretos de autoridades e da atual situação da pandemia no Brasil. “Temos certa dificuldade em imaginar que as coisas vão acontecer com a gente”, avaliou ao Nexo a psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, em 29 de março de 2021. “Se acontece conosco dizemos ‘mas por que comigo?’ O que revela que imaginamos que estamos fora do registro comum, da estatística.”

Para a psicóloga Martha Hübner, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, não adianta muito brigar individualmente com quem está furando o isolamento. “O sentimento que é preciso ter agora é de sobrevivência. Em vez de se incomodar com o outro, é melhor zelar pela sua segurança e proteger aquilo que está ao seu alcance”, disse ao Nexo em 12 de agosto de 2020. “Volte-se para si dizendo ‘estou vivo e me protegendo’ e continue com essa máxima.”

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.