O impacto da pandemia na carga mental das mulheres

Mais de um ano depois do início da crise que turbinou a lista de tarefas dentro de casa, elas relatam níveis maiores de cansaço e estresse

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    Estreia nesta quinta-feira (15) o programa “Bem Juntinhos”, no GNT, estrelado por Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert. Juntos desde 2006, eles são frequentemente retratados como um “casal perfeito”: ambos são artistas, apresentadores e empresários bem-sucedidos. Especialmente elogiado por suas habilidades e sua dedicação à casa, Hilbert subiu aos trending topics do Twitter no domingo (11) após relatar, em entrevista ao Fantástico, da Globo, que ele construiu a capela para o casamento deles com as próprias mãos.

    A divisão de afazeres domésticos é um assunto que costuma despertar atenções para a dinâmica do casal. Ao comentar o tema em entrevistas sobre o lançamento do programa, porém, um elemento foi destacado como exclusividade de Lima: “A carga mental toda desta casa fica com ela”, disse Hilbert, em tom de autocrítica. “É gerir a casa, organizar obrigações e deveres dos filhos”, exemplificou Lima.

    O termo carga mental se refere a todo trabalho de organização e tomada de decisões de uma casa, um peso que costuma recair principalmente nos ombros das mulheres: administrar as contas, fazer a lista de compras, lembrar de pagar os boletos no dia certo, marcar consultas, levar ao médico, lembrar dos aniversários, comprar presentes, conferir lições dos filhos, marcar conversas com professores deles e assim por diante. Uma série de atividades que, na pandemia de covid-19, sobrecarregaram ainda mais as mulheres.

    De onde vem a expressão

    Dois tipos de trabalho se destacam dentro de uma casa:

    • Trabalho doméstico, que envolve executar atividades como cozinhar, lavar louça, lavar roupa, limpar, arrumar e cuidar de crianças e idosos (alimentar e dar banho neles, por exemplo)
    • Trabalho emocional ou carga mental, que é gerenciar atividades, isto é, organizar o que deve ser feito, administrar contas, compromissos e tempo, cuidar do bem-estar de todos

    Carga mental é uma expressão que se popularizou nos últimos anos, mas que remete a um conceito da década de 1980: o trabalho emocional, cunhado pela socióloga americana Arlie Hochschild, autora do livro “The Managed Heart”, de 1983.

    Hochschild tratou do trabalho emocional na esfera profissional, isto é, nas empresas onde há expectativas de que trabalhadores modulem seus sentimentos para serem mais prestativos, gentis e agradáveis e, assim, contribuir para a harmonia no trabalho. Trata-se de um trabalho extra, um esforço psicológico pessoal para o funcionamento de uma estrutura (uma empresa ou uma casa). Em outras palavras, sorrir e ser agradável independentemente do que estiver sentindo, em benefício dos outros.

    No estudo “Women’s Jobs, Men’s Jobs: Sex Segregation and Emotional Labor”, de 2004, as autoras Mary Ellen Guy e Meredith Newman argumentam que o trabalho emocional é muito presente em profissões como secretariado e assistência administrativa, funções hierarquicamente inferiores e historicamente atribuídas a mulheres.

    Em setembro de 2017, a jornalista americana Gemma Hartley publicou na revista Harper’s Bazaar um artigo relacionando trabalho emocional e trabalho doméstico mais diretamente, referindo-se às responsabilidades administrativas acumuladas por mulheres no lar que provocam mais estresse para além das jornadas de trabalho.

    Trata-se do esforço para antecipar e atender as necessidades dos outros (do marido ou dos filhos, do conforto da casa ao consumo do dia a dia), o que pode ser emocionalmente exaustivo.

    Em setembro de 2018, a ilustradora francesa Emma Clit publicou a história em quadrinhos “A carga mental e outras desigualdades invisíveis”. No livro, a cartunista retrata situações em que, embora homens estejam “ajudando”, o fardo da casa continua responsabilidade majoritariamente atribuída a mulheres.

    Atualmente, as duas expressões são utilizadas como sinônimos: trabalho emocional (emotional labor, no original, em inglês) e carga mental (mental load).

    Os efeitos da sobrecarga pandêmica

    A pandemia instituiu novas atividades que precisam ser gerenciadas no lar, como organizar a rotina no ritmo das quarentenas, com os filhos em casa e em aulas adaptadas não-presenciais, além de redobrar cuidados com higiene, saúde e segurança. Pesquisas ilustram que o peso da carga mental aumentou na crise sanitária, e afeta mais as mulheres.

    De acordo com o estudo “Women’s Forum”, realizado pelo Instituto Ipsos com mais de 3,5 mil participantes nos países do G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) e divulgado em setembro de 2020, 79% das mulheres relataram que estão mais cansadas e estressadas pela carga mental da casa – entre homens, a porcentagem foi de 61%.

    No Brasil, segundo estudo realizado no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e publicado na revista acadêmica Plos One em fevereiro de 2021, mulheres foram mais afetadas emocionalmente na crise sanitária. Entre os 3 mil voluntários, 40,5% das mulheres relataram sintomas de depressão, 34,9% de ansiedade e 37,3% de estresse.

    A carga mental além da pandemia

    Em outubro de 2018, a jornalista britânica Mary Portas publicou o livro “Work Like a Woman”, que cita a carga mental como fator que prejudica o equilíbrio entre as dimensões profissional e pessoal, principalmente para mulheres. “Ambos [trabalho emocional e carga mental] se referem ao quanto as mulheres são sobrecarregadas”, disse ela à BBC.

    Um exemplo: num churrasco, não é incomum o homem grelhar as carnes e a mulher organizar tudo, comprar ingredientes, limpar antes e depois. “Resultado: ele [meu marido] sempre recebia elogios; eu nunca, porque meu trabalho era invisível”, definiu a socióloga espanhola Maite Egoscozabal, em entrevista ao jornal El País, em março de 2019.

    Ao longo de 2019 e 2020, a expressão se popularizou. No Brasil, viralizou a hashtag #porramaridos, que reuniu relatos de mulheres sobre a ausência e até a incompreensão de seus companheiros nas tarefas mais simples da casa: por exemplo, jogar a roupa na máquina de lavar, mas não ligá-la pois ela “não lembrou de avisar” que era preciso ativá-la.

    Carga mental, atividades de cuidado e afazeres domésticos muitas vezes são trabalhos invisibilizados, não reconhecidos nem remunerados. Além de trabalhar “fora”, mulheres são responsáveis por 92,1% dos afazeres domésticos e dedicam 18,5 horas semanais para cuidar da casa e dos outros, segundo dados do IBGE divulgados em junho de 2020; homens, 10,4 horas.

    Estudos demográficos destacam que o tempo que as mulheres dedicam ao trabalho doméstico e de cuidado pode variar conforme fatores como número de filhos, idade, instrução e renda.

    Em geral, quanto maior a renda, menor a carga de trabalho doméstico: mulheres pobres dedicam mais tempo que mulheres ricas. Entretanto, é a diferença de gênero que mais pesa na disparidade dos números de horas dedicadas, isto é, em todas as faixas de instrução e renda, mulheres dedicam mais tempo que homens.

    Desde 2017 retratado como um “homão” por dividir o trabalho doméstico, Rodrigo Hilbert já recusou diversas vezes a expressão. Dividir as tarefas, destacou, é o mínimo que um homem pode fazer”. “Há muito mais ‘mulherões da porra’ do que ‘homões’”.

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