As acusações de abuso sexual contra o fundador das Casas Bahia

Agência Pública acessou processos judiciais e ouviu mulheres que dizem ter sido vítimas de Samuel Klein quando tinham menos de 18 anos. Empresário morreu em 2014. Família afirma ser ‘uma pena que ele não esteja vivo para se defender‘

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Entre 1989 e 2010, Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, uma das principais redes de varejo do país, teria mantido um esquema de abuso sexual de mulheres com menos de 18 anos dentro da sede da empresa no Grande ABC, segundo reportagem publicada nesta quinta-feira (15) pela Agência Pública.

Suspeitas sobre “o rei do varejo” já haviam sido reveladas pelo UOL em dezembro de 2020, numa reportagem que apontava o uso do caixa de unidades das Casas Bahia, pelo dono da rede, para o pagamento de garotas, entre elas jovens de 16 anos. Na mesma época, veio a público a acusação de estupro de 32 mulheres contra Saul Klein, filho de Samuel.

A Agência Pública aprofundou e detalhou as suspeitas contra o fundador das Casas Bahia ao ouvir mais de 35 pessoas, entre vítimas e testemunhas. Segundo elas, por décadas, Samuel Klein explorou sexualmente meninas de 9 a 17 anos na cidade de São Caetano do Sul, que sedia a Casas Bahia. Os abusos também teriam ocorrido em imóveis de sua propriedade na Baixada Santista, litoral paulista e em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

A reportagem também teve acesso a processos judiciais, inquéritos policiais, fotos, vídeos e declarações de próprio punho feitas pelas denunciantes. A apuração durou cerca de quatro meses, segundo Thiago Domenici, diretor, editor e repórter da Agência Pública. "Uma peça foi levando à outra, fomos conversando com pessoas, achamos vítimas, até chegarmos na apuração que foi publicada", disse ao Nexo.

De acordo com a reportagem, “o empresário teria organizado um esquema de recrutamento e transporte de meninas, com uso de seus helicópteros particulares, que teria contado até mesmo com a participação de seus funcionários, para festas e orgias acobertadas com pagamentos às meninas e familiares com dinheiro e produtos das lojas espalhadas pelo país”.

A publicação afirma que o suposto esquema ficou desconhecido pelo público em razão da morosidade do sistema judicial, com alguns dos casos ficando em um limbo até prescreverem. Outros, por sua vez, teriam sido mantidos sigilosos por meio de acordos feitos pelo empresário com as denunciantes.

Samuel Klein morreu em 2014, aos 91 anos, em decorrência de uma insuficiência respiratória. Quando a reportagem do UOL foi publicada em dezembro de 2020, o advogado João da Costa Faria, que atuava para o fundador das Casas Bahia, disse que as suspeitas eram altamente atentatórios à memória de um empresário venerado em todo o país, principalmente, por atos de inigualável solidariedade humana, com predominância aos menos favorecidos. É lamentável que, na busca de fatos midiáticos, se permita tentar macular uma enraizada e inabalável imagem”, disse Faria na ocasião. Saul Klein, que está sendo investigado pelo Ministério Público, negou as acusações de estupro.

Os relatos revelados pela Agência Pública

“Minha irmã tinha me dito: ‘Ká, não se assuste porque ele vai te dar um beijinho’. Mas ele me cumprimentou e já passou a mão nos meus peitos. Ele dizia: ‘Ah, que moça bonita. Muito linda’”, afirmou à Pública Karina Carvalhal, hoje com 40 anos, uma das mulheres que acusa Samuel Klein.

Natural de São Caetano do Sul, Carvalhal conheceu Klein por meio das irmãs mais velhas, que descobriram por amigas que o empresário dava dinheiro e presentes a crianças que visitassem a sede das Casas Bahia.

Na primeira vez que esteve lá, ela recebeu dinheiro e um tênis novo. A possibilidade de ganhar mais bens materiais fez com que ela voltasse mais vezes ao escritório. Segundo Carvalhal, na segunda visita ela foi estuprada em uma cama hospitalar que o empresário mantinha em um quarto anexo à sua sala. Ela tinha 9 anos.

Um relato similar foi feito à Pública por Renata (nome fictício), que afirma ter sido estuprada por Klein em 2008, quando tinha 16 anos. “Ele me pegou à força, rasgou minha roupa e me violentou. Não adiantava gritar”, disse. O episódio teria ocorrido na casa de praia do empresário, em Angra dos Reis.

Renata foi à polícia e relatou. Klein, na ocasião, prestou depoimento, e confirmou que a garota e uma testemunha de fato estiveram em sua casa, mas negou o estupro e disse que as moças que frequentavam o local tinham mais de 18 anos.

Para a elaboração da reportagem, a Agência Pública consultou 26 mulheres que ofereceram relatos similares. Algumas tentaram processar o empresário, enquanto outras ficaram em silêncio.

A reportagem também diz que alguns funcionários próximos de Klein atuavam no esquema, organizando festas, viagens e recrutando menores de idade e mulheres adultas para participarem dos eventos, em troca de cestas básicas, dinheiro e produtos das Casas Bahia. Um vídeo de uma festa de 1994 foi obtido pela Pública. Veja abaixo:

Nessas festas, de acordo com os relatos, o abuso era “escancarado”, com orgias acontecendo no quarto do empresário sem qualquer tipo de discrição.

Seguranças, ex-funcionários, motoristas de táxi, assistentes pessoais do empresário, advogados de mulheres que citam acordos extrajudiciais, vizinhos de prédio e lojistas reiteraram os relatos à Pública, afirmando que de fato havia um esquema de abuso.

“Parece que ele vivia para isso. Ele recebia meninas várias vezes por semana, o mês inteiro”, afirmou um segurança que trabalhou para a família Klein por 19 anos. Ele não quis se identificar.

Os processos e a resposta da família Klein

A Agência Pública teve acesso, por meio de suas fontes, a 19 processos cíveis e criminais contra Samuel Klein, acusando-o de abuso sexual. Todos os supostos crimes já tinham prescrito à época da morte do empresário.

De acordo com a reportagem, os casos ficaram desconhecidos porque Klein firmou acordos judiciais que colocaram os episódios sob sigilo ou porque a lentidão do sistema Judiciário fez com que os atos prescrevessem. “Tais manobras contribuíram para que ele mantivesse a imagem de herói do mundo dos negócios”, diz o texto.

Em nota enviada ao Nexo, a Via Varejo, holding que controla as Casas Bahia desde 2011, afirmou que “a família Klein nunca exerceu qualquer papel de controle na Via Varejo, holding constituída em 2011 para gerir as marcas Casas Bahia, Pontofrio, Extra e Bartira”, e que, por isso, não comenta casos que possam ter ocorrido antes da atual gestão da empresa. “Repudiamos veementemente todo e qualquer tipo de assédio, práticas ilegais e atos discriminatórios em nossas dependências, incluindo nossa sede administrativa e nossas lojas”, diz a nota.

Saul, Michael e Eva Klein, herdeiros de Samuel, divulgaram na tarde de quinta-feira (15) uma nota por meio de sua assessoria de imprensa. É com enorme tristeza que a família Klein tomou conhecimento da publicação de matéria sobre Samuel Klein, fundador da Casas Bahia, falecido em 2014. Imigrante polonês, judeu e sobrevivente do Holocausto, ele sempre ensinou que é preciso muito trabalho e coragem para enfrentar os desafios da vida. É uma pena que ele não esteja vivo para se defender das acusações mencionadas.

Nas horas subsequentes à publicação da reportagem da Pública, o nome de Samuel Klein ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter Brasil. Na manhã e no início da tarde de quinta-feira (15), as ações da Via Varejo permaneceram oscilantes, mas chegaram a registrar queda de 1,16%.

A Agência Pública abriu um formulário para que vítimas de assédio ou abuso por membros da família Klein contem suas histórias. Segundo Domenici, um relato já foi feito nesta quinta (15).

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