A escassez e os entraves no fornecimento de kits intubação

Hospitais estão perto do colapso por falta de insumos, segundo governos estaduais, que criticam Ministério da Saúde. O ‘Nexo’ explica como esses remédios, essenciais para tratar a covid, são comprados e distribuídos no Brasil

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O aumento de internações por covid-19 registrado em abril de 2021 levou à escassez de remédios do chamado kit intubação, fundamental para o tratamento de casos graves da doença. Os remédios são usados quando o paciente precisa ser intubado e submetido à ventilação mecânica.

Os medicamentos usados para intubação estão em falta em unidades de saúde públicas e particulares de todos os estados, e médicos e organizações alertam para o risco de uma crise de desabastecimento, com potencial de aumentar o sofrimento e as mortes de pacientes internados em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).

A distribuição desses remédios para o país está sob responsabilidade do Ministério da Saúde. A pasta é alvo de fortes críticas de governos locais e da sociedade civil pelo que consideram inércia do governo federal em atender aos pedidos por medicamentos e responder ao agravamento da pandemia.

O secretário de Saúde do estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn, afirmou em entrevista a jornalistas na quarta-feira (14) que enviou nove ofícios nos últimos 40 dias ao governo federal pedindo mais remédios para intubação. Gorinchteyn afirma que o estado tem insumos para apenas alguns dias e que os hospitais estão em situação de pré-colapso.

Na terça-feira (13), quando enviou o ofício mais recente, o governo de São Paulo deu prazo de 24 horas para que o Ministério da Saúde enviasse remédios ao estado. Na quinta-feira (15), o governo federal recebeu um lote de remédios doados por empresas e anunciou que enviaria as doses ao estado em até dois dias. A quantidade de remédios, porém, representa 17,7% do que foi solicitado pelo governo paulista.

Os remédios usados para intubação são considerados insubstituíveis para que o procedimento ocorra de forma adequada. Especialistas afirmam que, caso ocorra colapso no abastecimento, a situação nos hospitais nas próximas semanas pode ficar tão grave quanto ficou em Manaus (AM) no início de 2021, quando a cidade passou por uma crise de escassez de oxigênio e pessoas morreram sufocadas.

Por que o kit é importante

O kit intubação é uma combinação de medicamentos sedativos, neurobloqueadores e analgésicos que servem para relaxar a musculatura e a caixa torácica, ajudando os pacientes intubados a suportar a ventilação mecânica, procedimento que é considerado doloroso e agressivo.

Os pacientes intubados sem essa medicação podem passar por intensa dor e sofrimento, segundo médicos intensivistas. Os profissionais relatam que alguns podem tentar retirar o tubo da garganta com as próprias mãos. Sem remédios, hospitais estão amarrando as pessoas aos leitos para evitar que se lesionem.

A permanência na intubação nessas condições pode não só colocar pacientes em risco, mas causar danos psicológicos de longo prazo, segundo médicos. Estar intubado, com quadro grave e consciente pode ser uma experiência extremamente traumática. Para alguns profissionais, a situação equivale à tortura dos pacientes.

Caso o cenário de escassez não seja resolvido no curto prazo, é provável que a mortalidade por covid-19 aumente nas UTIs, segundo intensivistas. Desde o início da pandemia, estudos mostram que a proporção de óbitos de brasileiros intubados por causa do novo coronavírus é maior do que a média mundial.

80%

foi a média de mortes de pacientes com covid-19 brasileiros que precisaram de ventilação mecânica em 2020, segundo levantamento da Fiocruz; média mundial é de 50%

Segundo médicos, a falta de remédios para intubação também pode minar os esforços para garantir leitos de UTI na fase mais grave da pandemia. Sem os medicamentos adequados, não há como tratar os pacientes graves com covid-19, portanto, não há como manter os novos leitos abertos.

O Sindicato de Hospitais, Clínicas e Laboratórios do estado de São Paulo afirmou que hospitais estão mudando a composição e a dosagem das drogas para intubação. No Rio Grande do Sul, médicos recorrem a remédios em desuso e preveem o uso de antipsicóticos (que causam sonolência) como alternativa para manter as pessoas sedadas.

O desabastecimento de remédios também afeta pacientes de UTI que não estão com covid-19 e pessoas que precisam de anestésicos para cirurgias, por exemplo. Em alguns estados, hospitais estão suspendendo cirurgias eletivas (não urgentes) para poupar o uso desses medicamentos.

O que compõe o ‘kit’

Sedativos

Pacientes intubados ficam em coma induzido. Durante a intubação, a pessoa é sedada com medicamentos como midazolam, propofol e dexmedetomidine, que a mantêm inconsciente. Os efeitos de alguns deles duram de 30 a 120 minutos, por isso precisam ser ministrados o tempo todo. Segundo hospitais, o valor do sedativo midazolam aumentou 414% na pandemia.

Analgésicos

Como os sedativos não tiram a dor, os médicos também usam analgésicos. Entre os mais usados no Brasil está o fentanil, que é análogo à morfina. Em junho de 2020, vários estados brasileiros já haviam registrado falta desse tipo de medicamento.

Bloqueadores neuromusculares

Para facilitar a intubação, os médicos também usam relaxantes musculares como a succinilcolina, o atracúrio e o rocurônio. Eles provocam paralisia na musculatura respiratória. Segundo o sindicato dos hospitais do estado de São Paulo, o preço do rocurônio aumentou 960% durante a pandemia.

Como os remédios são adquiridos

Com o agravamento da pandemia no país, em março de 2021 o Ministério da Saúde decidiu centralizar as compras dos remédios usados para intubação, que antes eram feitas diretamente por estados e municípios. Desde então, o governo federal se responsabilizou por distribuir os medicamentos ao SUS.

A decisão foi tomada por causa da situação do mercado de remédios, que se desregulou com o aumento da demanda por itens para intubação nos últimos meses. Em cenários como esse, o governo federal pode fazer grandes compras para manter o estoque e evitar competição entre prefeitos e governadores.

A decisão do governo de comprar e distribuir os remédios também afeta o setor privado. Chamada de requisição administrativa, a medida determina que a produção de medicamentos de intubação do país seja encaminhada ao governo federal.

A ação é prevista na Constituição Federal em situações de emergência e tem o objetivo de resguardar o interesse público. Com o fim da crise, o Estado pode indenizar os gastos de quem pode ter sido lesado. Doações de medicamentos do kit intubação também têm passado pelo Ministério da Saúde.

O Ministério da Saúde diz que buscou requisitar remédios para a rede pública sem que a medida prejudicasse contratos em vigor com entes privados, mas representantes desses hospitais alertam que também sofrem risco de desabastecimento.

Criticada por representantes do setor privado e defendida por governadores em março de 2021, a centralização dos medicamentos hoje sofre críticas de todos os lados, pois, segundo os estados, o governo federal tem enviado quantidades insuficientes de remédios aos governos locais, que não conseguem mais adquirir novos estoques.

O Ministério da Saúde afirma, em nota, que distribuiu aos estados e municípios mais de 8 milhões de remédios para intubação na pandemia. Na quinta-feira (15), um grupo de empresas doou 2,3 milhões de medicamentos à pasta. O ministério também diz que negocia novos contratos e uma compra por meio da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde).

Quais as dificuldades para obtê-los

A principal barreira para a obtenção de remédios para intubação hoje é a falta de oferta: a indústria não consegue produzir tantos remédios quanto os hospitais estão precisando desde o agravamento da crise. A matéria-prima dos produtos é importada, e os laboratórios não têm conseguido comprar do exterior.

A situação é semelhante à da vacinação, que no Brasil está em ritmo lento por causa de dificuldades de importação de IFAs (ingredientes farmacêuticos ativos) necessários para a produção das doses no país. Com a escassez, os remédios também registraram altas de preços estratosféricas, segundo hospitais.

A dificuldade para comprar remédios poderia ter sido evitada se houvesse planejamento do governo federal, que poderia ter adquirido os itens com antecedência, segundo médicos. Para eles, o poder público sabia que a demanda nos hospitais poderia aumentar, dada a experiência com a pandemia em 2020, mas não reagiu quando a crise se agravou.

186 milhões

era a quantidade de remédios para intubação que o Ministério da Saúde pretendia comprar em março de 2021; desde então, obteve 17% disso, segundo nota técnica divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo

Em documento, o secretário de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, criticou a gestão do Ministério da Saúde, afirmando que a pasta “não atua como coordenadora nacional do SUS, abandonando os demais entes federativos à própria sorte”. O governador João Doria (PSDB) disse que a centralização das compras de remédios com o governo federal foi “um erro gravíssimo”.

Em agosto de 2020, a pasta cancelou uma operação internacional de compra de remédios para intubação e não explicou os motivos, segundo o CNS (Conselho Nacional de Saúde), colegiado ligado ao governo que monitora as políticas de saúde. Na época, o CNS alertava para o risco de falta de medicamentos e pedia agilidade em novas compras.

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