Remédios ineficazes do kit covid: o que a ciência diz de cada um

Medicamentos como cloroquina e ivermectina continuam a ser receitados por médicos e defendidos por políticos como suposto tratamento precoce. O ‘Nexo’ lista o que dizem os estudos e quais os efeitos colaterais das drogas

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Não existe tratamento precoce contra a covid-19. Não há remédios que previnem contra a infecção ou desenvolvimento da doença. Esse é o posicionamento até abril de 2021 das principais autoridades de saúde e medicina do mundo e no Brasil, incluindo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o CDC americano (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), a Agência Europeia de Medicamentos,a SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

As avaliações são baseadas em dezenas de pesquisas científicas de diversas instituições ao redor do mundo, que testaram a eficácia de remédios como a cloroquina, ivermectina e azitromicina contra a covid-19 e concluíram que eles não têm efeito contra a doença. Mesmo assim, o Brasil segue tomado pela falsa ideia de que existe algum tipo de tratamento para as fases iniciais da covid-19 – chamado de kit covid, tratamento precoce ou imediato, entre outros termos –, defendida por políticos e algumas autoridades médicas.

O procedimento é repetidamente propagandeado pelo próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, como estratégia para a pandemia em detrimento do distanciamento social, que ele associa a governadores e prefeitos que são seus adversários políticos.

Em junho de 2020, o ministério da Saúde ampliou o protocolo de orientações para uso da cloroquina, incluindo a recomendação para casos leves e moderados de covid-19. A mudança foi uma exigência de Bolsonaro ao então ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, logo que ele assumiu o cargo. Em janeiro de 2021, a pasta chegou a testar um aplicativo que recomendava o tratamento precoce, retirado do ar pouco depois diante de críticas de especialistas.

Além de serem ineficazes, alguns dos medicamentos incluídos no chamado kit covid-19 também podem causar sérios efeitos colaterais em pacientes e até matar. Em março de 2021, por exemplo, a imprensa reportou casos de pessoas em São Paulo que morreram de hepatite causada pela ingestão de ivermectina.

Por todo o país, existem relatos de prefeituras e secretarias de Saúde fornecendo kits, que ganham até nomes diferentes. A administração de São Mateus, no Espírito Santo, chamou de “kit de tratamento imediato” uma cesta de remédios que incluía de azitromicina a ivermectina.

“Alguns prefeitos distribuíram saquinho com o 'kit covid'. As pessoas mais crédulas achavam que tomando aquilo não iam pegar covid nunca e demoravam para procurar assistência quando ficavam doentes”, disse à BBC Carlos Carvalho, diretor da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Entre os riscos da divulgação da ideia de tratamento precoce estão também o estímulo à automedicação e o consumo excessivo de remédios sem supervisão médica. De acordo com reportagem da TV Globo, as vendas de hidroxicloroquina aumentaram 173% em fevereiro desse ano, em relação ao ano passado, as de ivermectina mais de 700%.

Os kits variam pelo país e comumente incluem remédios para tratar sintomas como dor de cabeça ou dor de garganta ou proteger o organismo debilitado contra outras infecções virais ou bacterianas. Embora tenham sua utilidade para esses propósitos específicos, tais medicamentos não podem ser considerados tratamento contra a covid-19.

As alternativas presentes nos kits são todas sugeridas dentro do chamado uso “off label”, ou seja, em situações não previstas na bula. A prática é comum e legal na medicina. Em 25 de janeiro de 2021, o presidente do CFM (Conselho Federal de Medicina), Mauro Luiz de Britto Ribeiro, afirmou em artigo no jornal Folha de S. Paulo que é “decisão do médico assistente realizar o tratamento que julgar adequado”. Por outro lado, um comitê de representantes de sociedades médicas, organizado pela Associação Médica Brasileira, recomendou em março de 2021 que o uso de medicamentos sem eficácia contra a covid-19, seja banido.

Os remédios mais comuns do kit covid

Abaixo, o Nexo lista remédios incluídos no tratamento precoce e qual o entendimento cientifico sobre seus efeitos contra a covid.

Cloroquina e hidroxicloroquina

Para que servem

Tanto a cloroquina, como seu derivado hidroxicloroquina, considerado menos tóxico, são originalmente usados no combate à malária, lúpus e artrite.

O que diz a ciência

Não há comprovação de eficácia contra a covid-19. Sucessivos estudos e pesquisas descartaram a cloroquina e da hidroxicloroquina como tendo algum tipo de ação contra a covid-19. “Temos evidências suficientes para saber que não há nenhum impacto para pacientes hospitalizados com covid-19”, disse Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde). Em janeiro de 2021, o próprio autor do trabalho que desencadeou a ideia de que a cloroquina poderia ser uma opção contra a doença do novo coronavírus, o médico francês Didier Raoult, voltou atrás e admitiu a inutilidade do remédio para esse tipo de tratamento.

Quais os efeitos colaterais

Entre os efeitos decorrentes do uso da cloroquina já registrados estão arritmia cardíaca, complicações renais e comprometimento da saúde ocular. No Brasil, já se acumulam os casos de pacientes de covid-19 que tiveram esse tipo de condição depois de ingerir o remédio, com diversos casos de óbitos. Já a hidroxicloroquina registrou efeitos como retinopatia, que pode resultar em vazamento do líquido da retina, neuropatia, dormência e formigamento nos nervos do corpo, e alterações cardíacas.

Ivermectina

Para que serve

O remédio é usado no tratamento de infecções por parasitas, como piolhos, sarnas e lombrigas, entre elas a escabiose.

O que diz a ciência

Não há comprovação de eficácia contra a covid-19. Em julho de 2020, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) rejeitou a utilização do remédio na prevenção e tratamento da covid-19. Um estudo divulgado em janeiro de 2021, que teria apontado a potencial eficácia do remédio, foi rechaçado por especialistas. Segundo eles, o trabalho contém erros metodológicos e falta de revisão por pares. “É tão mal feito que não dá para tirar qualquer conclusão, o que os próprios autores reconhecem no fim do artigo”, afirmou ao UOL Marcio Sommer Bittencourt, cardiologista no Hospital Universitário da USP. O próprio laboratório Merck, que fabrica a ivermectina, declarou que não existem dados que comprovem qualquer resultado da substância na prevenção da covid-19.

Quais os efeitos colaterais

A ivermectina pode causar tontura, vertigem, tremor, febre, dores abdominais, dores de cabeça, coceira e queda brusca na pressão sanguínea. Há casos de pessoas com covid-19 que morreram de hepatite medicamentosa depois de tomar ivermectina.

Azitromicina

Para que serve

Antibiótico, a azitromicina costuma ser indicada no tratamento de doenças respiratórias, como bronquite ou pneumonia, ou sexualmente transmissíveis, como a gonorreia.

O que diz a ciência

Pesquisas apontaram que o medicamento não tem eficácia contra a covid-19. A extensiva pesquisa Recovery, em que especialistas de universidades britânicas como Oxford e King’s College Londres testaram diversos tratamentos em pacientes do sistema de saúde público do país, não conseguiu encontrar evidências de que o remédio pode ajudar a deter a covid-19. Ela passou a integrar o kit de prevenção da covid-19 devido a seu uso eficaz contra bactérias. Nesse sentido, segundo especialistas, ele funcionaria bem como arma para evitar outras infecções em um organismo enfraquecido pelo novo coronavírus, mas não contra a covid-19 em si. Esse uso só deve acontecer mediante prescrição médica.

Quais os efeitos colaterais

O remédio possui baixo registro de efeitos adversos. Estes podem incluir dor de cabeça, vômito, baixa da pressão arterial e tontura.

Nitazoxanida

Para que serve

Antiparasitário que atua em infecções virais causadas por rotavírus, por parasitas como nematódeos, cestódeos, trematódeos (incluindo oxiúro, lombriga, solitária) e por protozoário. Anitta é a marca de referência deste remédio.

O que diz a ciência

Não há eficácia comprovada, apenas estudos que precisam de mais aprofundamento. Algumas publicações científicas internacionais já relataram a eficácia da nitazoxanida junto com azitromicina em outros tipos de coronavírus. Uma pesquisa do Laboratório Nacional de Biociências, em Campinas (SP), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, indicou que a nitazoxanida teria eficácia em pessoas na fase inicial da covid-19. O trabalho foi questionado por especialistas pela falta de transparência em relação a sua execução.

Quais os efeitos colaterais

Além de causar alterações na cor da urina e do esperma por conta da coloração de alguns de seus ingredientes, o remédio pode causar dor de cabeça, enjoo e diarreia, entre outros efeitos.

Ozonioterapia

Para que serve

Controversa na medicina para qualquer uso, a técnica de administrar uma mistura de oxigênio e ozônio no corpo só tem autorização do CFM para aplicação experimental. Seus defensores alegam que o tratamento tem propriedades analgésicas e anti-inflamatórias e ajuda no fortalecimento do sistema imunológico.

O que diz a ciência

O tratamento ficou conhecido no país depois que sua administração por via retal foi defendida pelo prefeito de Itajaí (SC), Volnei Morastoni (MDB), como procedimento contra a covid-19. O próprio site do Ministério da Saúde afirma que “de acordo com nota técnica publicada em abril deste ano, o efeito da ozonioterapia em humanos infectados por coronavírus (Sars-Cov-2) ainda é desconhecido e não deve ser recomendado como prática clínica ou fora do contexto de estudos clínicos”.

Quais os efeitos colaterais

O uso do ozônio é contraindicado em casos de gravidez e em pacientes com infarto agudo do miocárdio. Se usado em excesso, o ozônio também pode afetar os glóbulos vermelhos do sangue.

Tamiflu

Para que serve

Previne o surgimento da gripe comum e da gripe A, provocada pelo vírus Influenza A H1N1.

O que diz a ciência

Não há comprovação científica de que tenha eficácia contra a covid-19. De acordo com infectologistas entrevistados pela Folha de S.Paulo, o uso do remédio fazia sentido no começo da pandemia como maneira de separar pessoas infectadas por influenza de doentes da covid-19. O jornal revelou que o Ministério da Saúde gastou R$ 125 milhões em compras de Tamiflu.

Quais os efeitos colaterais

As reações adversas mais comuns são náusea, vômito, dor e dor de cabeça.

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