Como a covid desafia a ciência após mais de um ano de pandemia

Dados e informações sobre a doença têm sido produzidos em profusão, mas ainda há questões em aberto que acirram o clima de insegurança

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Mais de um ano após o início da pandemia de covid-19, declarada em 11 de março de 2020, as perspectivas oficiais sobre a doença causada pelo novo coronavírus, batizado de Sars-Cov-2, não mudaram muito. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), quem desenvolve os sintomas enfrenta a seguinte situação:

  • 80% se recuperam sem necessidade de tratamento hospitalar
  • 15% desenvolvem quadros graves e precisam receber oxigênio
  • 5% ficam severamente doentes e precisam de tratamento intensivo

O quadro destacado pela organização reforça dados de estudo publicado em 17 de fevereiro de 2020, que analisou o perfil de 44 mil pacientes na China (então epicentro do novo coronavírus).

Os quadros de covid-19

Assintomático

Parte dos infectados pelo novo coronavírus pode receber um resultado positivo no teste para a covid-19, mas não ter sintomas da doença. Podem transmitir o vírus mesmo assim.

Leve

Um ou mais sintomas, como febre, indisposição, dor de cabeça, de garganta ou muscular, diarreia, náusea, vômito, perda de olfato e paladar, mas não falta de ar.

Moderado

Dificuldade para respirar e grau de saturação de oxigênio no sangue de cerca de 94%.

Grave

Nível de oxigenação no sangue abaixo de 94%, com frequência respiratória de mais de 30 respirações por minuto (a média é de 12 a 20). Infiltração pulmonar superior a 50%.

Crítico

Quadro de falência respiratória, choque séptico ou disfunção de múltiplos órgãos.

Os casos fora do padrão

Em 2020, com base nas análises gerais e recomendações iniciais de autoridades de saúde, prevaleceu um entendimento de que casos leves seriam majoritários, que casos graves seriam mais comuns em idosos e pessoas com doenças pré-existentes do que entre jovens, e que a infecção garantiria imunidade por um período.

Em 2021, com a identificação de mais variantes do vírus e a chegada de novas ondas da doença em lugares como o Brasil, cada vez mais são reportados casos “fora dos padrões”: reinfecções se mostraram possíveis e mais prováveis no caso de variantes; complicações e casos graves entre jovens e pessoas saudáveis foram reportados; e o aumento acelerado no número de casos e mortes redobrou a necessidade de medidas restritivas de circulação enquanto campanhas de vacinação avançam a passos lentos.

Cientistas já levantaram muitos dados e informações sobre a covid-19, mas ainda há questões em aberto, que continuam a alertar para os riscos da doença e acirram o clima de insegurança da pandemia. Em outras palavras, o que se sabe sobre a doença aumentou, mas o que não se sabe também aumentou. Abaixo, o Nexo lista respostas que a ciência já deu e as dúvidas que pairam sobre a pandemia.

Não há remédio

Até agora, não há medicamento cientificamente comprovado capaz de atacar a infecção provocada pelo vírus. Não há tratamento precoce nem kit covid capaz de tratar a doença. Desenvolvidas em tempo recorde, as vacinas são a única alternativa para reduzir números de infecções, hospitalizações e mortes, além de medidas não-farmacológicas como o distanciamento social e o uso de máscara. Os imunizantes visam estimular a produção de anticorpos para proteger o organismo da infecção, mas ainda está sendo estudado quanto tempo dura a proteção, principalmente com o surgimento de variantes do vírus. Além disso, a vacinação avança em diferentes escalas e ritmos no mundo.

Novas variantes

Apenas entre março e abril de 2021, pesquisadores descobriram variantes em Belo Horizonte, na Índia e na França. Atualmente, a OMS destaca cinco variantes preocupantes: P.1 (identificada no Japão a partir de passageiros vindos de Manaus, no norte do Brasil); B.1.1.7 (Reino Unido); B.1.351 (África do Sul); B.1.427 (Estados Unidos) e B.1.429 (Estados Unidos). Até fevereiro de 2021, dez vacinas tinham sido aprovadas ao redor do mundo – o ponto de partida delas foi o sequenciamento genético do coronavírus identificado na China, no fim de 2019. Quanto mais o vírus se dissemina e mais demorada é a vacinação, é possível surgir mais variantes e maiores são as chances de mutações trazerem vantagens evolutivas aos vírus, o que pode torná-los mais contagiosos.

Possibilidade de reinfecções

No fim de agosto de 2020, pesquisadores de Hong Kong divulgaram o primeiro caso documentado de reinfecção pelo novo coronavírus (um paciente teve diagnósticos positivos em abril e em agosto). Depois, foram reportados diversos casos, o que acendeu sinal de alerta nas autoridades e na comunidade científica. Em janeiro de 2021, pesquisadores da Fiocruz Amazônia publicaram um artigo relatando o primeiro caso de reinfecção pela variante P1 (uma paciente testou positivo em março e depois em dezembro). Em março de 2021 foi publicado na revista científica The Lancet o maior estudo sobre reinfecção pela primeira cepa do coronavírus, que revelou que pessoas de mais de 65 anos são mais propensas a se infectarem pela segunda vez: apenas 47% dos indivíduos analisados estavam realmente protegidos contra novas infecções.

Síndrome pós-covid

Em 2020, os principais sintomas da covid-19 divulgados incluíam traços típicos da gripe, como febre e tosse. Entre os sintomas menos comuns estão tensões musculares, diarreia, dores de garganta, perda de paladar ou olfato. Entre os graves, dificuldade respiratória ou falta de ar, dor ou pressão no peito. Entretanto, ainda há dúvidas sobre os impactos da chamada covid “prolongada”, também chamada de “síndrome pós-covid”, que é o caso de pacientes infectados que têm sintomas ao longo de semanas e até meses. Até agora, foram identificados mais de 50 sintomas, de lesões na pele a distúrbios no cérebro.

Complicações entre jovens

Segundo a OMS, quem mais corre risco de ficar severamente doente são pessoas de 60 anos ou mais, e com condições médicas como pressão alta, problemas pulmonares e cardíacos, diabetes, obesidade e câncer. “Entretanto, qualquer pessoa pode pegar covid-19 e ficar severamente doente ou morrer a qualquer idade”, ressalva o site oficial da organização. Em março de 2021, pacientes com menos de 40 anos foram a maioria dos internados com covid em UTIs no Brasil. Pessoas sem comorbidades são um terço do total, sendo que até fevereiro eram cerca de um quarto. Há diversos casos de pessoas jovens e saudáveis que foram parar na UTI ou morreram por complicações da covid-19. Entre 2020 e 2021, o percentual de pessoas com menos de 60 anos que morreram de covid cresceu 35% no Brasil.

Perspectiva para o fim da pandemia

Segundo a OMS, a pandemia vive um momento crítico diante de um aumento exponencial de casos desde março de 2021. "Isso não é uma gripe. Jovens saudáveis morreram e não sabemos as consequências de longo prazo", disse o diretor-geral da organização, Tedros Ghebreyesus, nesta segunda (12).

De acordo com a organização, as vacinas são "vitais e poderosas", mas não devem ser considerados "os únicos instrumentos" para controlar a pandemia.

Desenvolvidas em tempo recorde em um esforço de diferentes unidades de pesquisa e laboratórios, as vacinas são essenciais para frear infecções, mas exigem cuidados pós-vacinação e devem ser combinadas a ações como distanciamento social, uso de máscaras e programas de testagens para identificar e restringir novos focos de infecções e, assim, conter a disseminação do vírus.

A eficiência dessas medidas já foi comprovada pela ciência. "São medidas que funcionam", destacou Ghebreyesus, ao pedir a colaboração de governos. "A pandemia está longe de terminar", declarou.

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